Uma lenda, nada mais


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Ayrton Centeno

Dezesseis de abril de 2008. Zero Hora, manchete de capa: “Investimento da Aracruz se estende a mais de 30 cidades no RS”. Doze de outubro de 2008. Pé de página par. Debaixo do título “Dilma nega 'socialização' dos prejuízos”, a matéria informa, em certo momento, que as papeleiras Aracruz e Votorantin tiveram alguns problemas com números depois de negociações com dólar, sendo que somente a Aracruz sofreu um prejuízo de R$ 1,95 bilhão.

Trinta de março de 2008. Manchete de capa de ZH, remetendo a quatro páginas no interior da edição: “Uma nova paisagem no Pampa”. Aborda o avanço do eucalipto na Metade Sul. Dez de outubro de 2008. 13 linhas, página par, uma coluna. Este foi o espaço reservado para informar aos leitores que a papeleira Votorantin deverá adiar o plano de implantação de sua fábrica no Estado.

Alguém, por certo um mal intencionado, poderia supor que o mais poderoso jornal do Estado trombeteia as novas que lhe convém trombetear e assovia e olha pro lado quando as notícias lhe deixam aquele travo no paladar. Nada mais injusto.

O que acontece é que, estando todos nós já bastante estressados com mais esta crise internacional causada pelo Governo Lula em conluio com os bancos de investimentos norte-americanos compradores de papéis podres, o que ZH está fazendo, ao tratar em pianíssimo do papelão das papeleiras, é zelar pela sua e a nossa saúde, caro leitor. Onde iremos parar se continuarmos lendo tantas novas e, sobretudo, más novas? Com a Bovespa perfurando o pré-sal, a economia em retração e as notícias sendo um fator contínuo de aborrecimento e desprazer, uma das nossas primeiras providências será obviamente parar de comprar e de ler jornal! Menos estresse, menos gastos.

Tais notícias desagradáveis, portanto, devem ser ministradas sempre através de uma posologia cautelosa. Em conta-gotas. Assim, só saberemos dos problemas quando eles tiverem terminado. Nosso coração agradecerá. Então, abriremos finalmente as janelas para deixar o sol entrar e ouvir um jogral de passarinhos cantar a volta dos bons tempos.

Nada a ver com isso mas me veio a memória, sei lá porque, uma lenda relatada por um colega bem-informado sobre lendas alguns meses atrás. Contou o tal amigo que, certa vez, num pequeno planeta situado numa galáxia muito distante, um povo aguardava a chegada do Messias. Não se sabia, porém, como seria o Messias. Um profeta e, logo após, uma profetiza, anunciaram que o Salvador não se apresentaria de feitio humano. Viria sob a forma de árvore. E assim ocorreu. Com a árvore vieram os sacerdotes e os templos da nova religião. Mas havia resistências.

Hereges espalharam que a Grande Árvore beberia toda a água do planeta e destruiria o solo e o ambiente. Então, os guardiões do culto começaram a procurar tais grupos heréticos tentando convertê-los através de parcerias. Em seguida, porém, veio uma contra-ordem do Santo Ofício e a aproximação com os descrentes, por trabalhosa, foi deixada de lado. É que teria sido firmado, junto às altas esferas comunicacionais, um amplo contrato de defesa do Dogma, da Infalibilidade da Árvore e da adoração da Sua imagem. Refulgente de fé, tal pacto imunizaria a Árvore, seu Culto e seus Sacerdotes de qualquer desdouro junto à opinião pública.

O acordo, aliás, mostraria, mesmo naquela longínqua galáxia, a capacidade inovadora do capitalismo - tão vituperado por aqui nos últimos dias - de produzir riqueza a partir praticamente do nada. Quando as duas partes disseram o “sim” naquele pequeno planeta, uma nova mercadoria entrou no circuito econômico: o silêncio. Meu interlocutor chamou este processo de “fabricação de silêncio”. Mas é apenas uma lenda, nada mais.