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por
Alexandre Costa
No
dia 2 de abril de 1964, menos de 48 horas após o golpe
militar, Carlos Alberto Telles Frank começou a traçar
um novo rumo para a sua vida. Naquela tarde sombria, o jovem
cabo e seus colegas de farda foram reunidos às pressas
no pátio central do quartel onde estavam lotados. Receberam
ordens expressas de um superior para coibir e dispersar uma
manifestação que estava ocorrendo naquele momento
na Praça Silveira Martins, em Bagé. “Todos
ouviram, em alto e bom tom que deveriam atirar, caso encontrassem
qualquer tipo de resistência”, lembra. Após
ouvir o comando, o cabo Frank se negou a atirar contra os
manifestantes, argumentando para colegas e superiores, “que
não estava no Exército para matar pessoas desarmadas
e inocentes”.
Frank
passou a discursar em voz alta na esperança de que
seus colegas tivessem a mesma atitude. “Olhei para tropa
e em voz alta passei a repetir que naquela manifestação
possivelmente encontraríamos amigos, conhecidos e até
mesmo familiares”. Tão logo terminou seu discurso
improvisado, Frank foi imediatamente preso e recolhido ao
3º Regimento de Artilharia 75, em Bagé, onde permaneceu
incomunicável até o dia 15 de abril.
Ex-cabo, Carlos Alberto
Telles Frank, luta na Justiça
para recuperardireitos que a ditadura militar lhe tirou
.
Uma semana depois, o cabo foi posto em liberdade, porém
havia sido expulso do Exército sob a alegação
de insubordinação e desacato às ordens
superiores. Saiu da prisão e no mesmo dia voltou a
ser detido por uma patrulha do Exército que tinha como
ordem segui-lo por onde fosse como forma de represália
e intimidação. Desta vez, o cabo Frank foi conduzido
para o presídio municipal da cidade, onde permaneceu
detido por 24 horas na companhia de quatro presos, todos acusados
de assassinato. Quando saiu da cadeia começou a sentir
na pele as conseqüências impostas por discordar
do regime e defender idéias consideradas subversivas.
Estudantes e militantes
de organizações e partidos políticos
resistem à ditadura militar e denunciam mortes e torturas
nas prisões.
Frank foi perseguido e preso outras oito vezes. Na época
estava com 26 anos e tinha três filhos. A mulher decidiu
voltar para a casa dos seus pais, em Bagé, e levou
consigo as crianças. No total, de 1964 a 1972, Frank
permaneceu dois anos, cinco meses e 24 dias detido sem qualquer
ordem judicial, condenação ou fundamento legal.
Foi transferido inúmeras vezes, foi interrogado outras
tantas, passou por sessões de tortura física
e psicológica. Por seis meses, permaneceu trancafiado
em uma pequena cela, a chamada solitária, totalmente
escura, sem direito a banheiro e com água racionada.
Sua comida era servida e misturada com terra. Por diversas
vezes, ouviu os gritos de dor de quem era submetido a torturas
“bárbaras”.
Durante
todo o períoDo em que esteve preso, Frank conheceu
os horrores impostos pelo regime militar no Brasil. Ainda
hoje se lembra das técnicas desumanas utilizadas como
forma de “arrancar confissões”. “Por
várias vezes, os presos eram drogados com substâncias
depositadas nas suas refeições. Faziam isso
para que a pessoa ficasse transtornada”. Frank guarda
um laudo formulado por uma instituição universitária
confirmando a prática de dopar os presos políticos.
Para chegar a esta conclusão, a instituição
realizou diversas entrevistas realizou diversas entrevistas
com os que foram encarcerados por oposição à
ditadura militar".

Exército nas
ruas e passeatas contra o regime militar.
O
cabo ainda hoje luta na Justiça para obter ter o direito
à promoção a sub-tenente mesmo após
ser reintegrado ao Exército com base na Lei de Anistia
como segundo sargento. Frank recebeu parcialmente indenização
e seu processo está tramitando na Justiça.
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