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Publicado
no Brasil de fato
edição -17 de set -2008
No contexto eleitoral, arquiteto e urbanista discutem os rumos
das cidades brasileiras frente à nova onda de crédito
imobiliário, as obras do PAC e a persistência
das políticas público-privadas segregacionistas
17/09/2008
Danilo
Dara,
da Redação
Conforme
noticiado nas últimas edições do Brasil
de Fato, embora seja uma questão central para quase
todos os municípios do país, as eleições
municipais não têm abordado com profundidade
a questão do uso e da propriedade do solo, seja ele
urbano ou rural. Muito pelo contrário, as campanhas
eleitorais geralmente restringem o debate à disputa
personalista entre os "melhores gestores" e seus
"projetos mirabolantes" que significariam soluções
espetaculares a uma série de distintas questões
históricas, enfrentadas por cada cidade brasileira.
Para aprofundar o tema, entrevistamos o arquiteto Pedro Fiori
Arantes e a urbanista Mariana Fix, ambos mestres pela Universidade
de São Paulo (USP), que procuram delinear as perversas
relações recentes entre propriedade do solo,
capital imobiliário e especulação financeira,
de um lado; e de outro as conseqüências (desastrosas)
de suas políticas traduzidas em mais concentração
de propriedade e renda, em relações de trabalho
semi-escravas nos canteiros de obra, e em cidades cada vez
mais segregadoras.
Caso
Pedro e Mariana estejam certos, o "Consenso de Washington"
teria entrado numa nova e distinta fase no Brasil: tendo seu
ideário neocolonial migrado definitivamente para cá
e sido internalizado por completo, "somos hoje a melhor
vitrine do que defende o Banco Mundial sem que este tenha
que se dar ao trabalho de vir aqui dizer o que fazer".
Em resumo: os técnicos das metrópoles globais,
alinhados à ideologia neoliberal, não precisam
mais prestar assessorias de marketing-administrativo aos nossos
candidatos-gestores.
Brasil
de Fato- As eleições têm sido um bom momento
para se discutir os rumos da cidade? Questões fundamentais
como a propriedade e uso da terra urbana têm sido tratadas
pelas campanhas?
Pedro Arantes - Não acompanho de forma sistemática
as campanhas eleitorais em todo país para poder fazer
uma afirmação categórica. Mas não
vejo nos partidos políticos a defesa programática
de políticas de reforma urbana, no sentido de democratização
radical do direito à cidade - e à cidadania.
Até mesmo a maioria dos movimentos urbanos não
tem mais lutado por isso, restringindo-se a pautas setoriais.
Creio
que vivemos uma espécie de descompasso histórico:
nos anos 1980, com a redemocratização, havia
força política e disposição popular
para diversas mudanças, entre elas o controle social
da propriedade urbana, mas não existiam instrumentos
legais para tanto; quase 20 anos depois, conquistamos uma
legislação relativamente progressista, mas num
momento histórico em que não há mais
força política sequer para aplicar a lei, o
Estatuto da Cidade. Alguns dados são estarrecedores,
mas mesmo assim não conseguimos reagir: a quantidade
de imóveis vazios no Brasil corresponde a mais de 2/3
do déficit habitacional, e no sul e sudeste, esses
números são quase equivalentes. Isso quer dizer
que a propriedade privada segue intocada e paira acima dos
direitos sociais.
No
Brasil não conseguimos separar juridicamente e ideologicamente
o direito de uso do direito de propriedade, como se fez na
Europa. Lá a política urbana e habitacional,
antes da onda neoliberal, foi baseada no direito de uso, na
provisão habitacional sob a modalidade de aluguel subsidiado,
taxação pesada de imóveis vazios, mistura
de classes nos centros urbanos, tudo isso como parte da política
de bem-estar social. Aqui, a classe dominante conseguiu convencer
os pobres que o bom é ser proprietário, desde
que longe dela, na periferia, numa casa insalubre.
Mariana Fix - Essa expulsão dos trabalhadores para
periferias cada vez mais distantes foi questionada pelos movimentos
populares. As ocupações de edifícios
vazios em áreas centrais são um exemplo disso.
Como esses imóveis não cumprem a sua "função
social" - nos termos definidos na Constituição
e no Estatuto da Cidade - deveriam estar sujeitos a uma série
de ações do poder público, como o IPTU
progressivo no tempo e utilização compulsória.
A disputa pelo acesso à terra urbana nas áreas
centrais, beneficiadas por infra-estrutura, empregos e serviços,
deveria estar em pauta nas campanhas.
Mas
o discurso que prevalece é aquele do senso comum: os
centros urbanos precisam ser "revitalizados", embelezados.
Poucos se arriscam a mostrar o caráter ideológico
desse discurso, que associa uso popular a deterioração,
como se a única maneira de "recuperar" o
centro fosse trazer de volta as elites. Essa visão
reforça práticas de órgãos públicos
de varrer pessoas do Centro, como se fossem literalmente lixo.
E mostra o descaso pelos que vivem atualmente no Centro e
que são vítimas de violência constante,
documentada no dossiê "Violações
dos direitos humanos no centro de São Paulo",
do Fórum Centro Vivo. A visão de que as melhorias
no Centro só virão com a valorização
imobiliária - que serve bem aos negócios urbanos
- recria antigos mecanismos de impedimento do acesso à
terra pela população. Falta opor claramente
o projeto que está por trás do senso comum da
revitalização e o projeto da reforma urbana.
Como
a crise estadunidense do setor imobiliário e a busca
por novos mercados influenciam as próximas eleições
municipais brasileiras?
Pedro - Enquanto o setor imobiliário norte-americano
está em crise, o nosso vive o maior boom dos últimos
50 anos - o mesmo na China, lá em proporções
monumentais. Quem imaginaria que iria quase faltar pedreiro
e cimento no Brasil? Pois o setor da construção
vai a toda, agora desbravando o mercado de renda média-baixa,
a classe C, que passou a ser o alvo das empresas que mais
crescem no setor, como a Tenda e a MVR. Não por acaso,
elas viraram até patrocinadoras de time de futebol,
do Cruzeiro e do Vasco...
Mariana - Algumas cidades estão dobrando o tamanho,
bairros inteiramente novos são produzidos, outros estão
em obras, e outros ainda já congestionados com a vinda
dos novos moradores. O preço da terra está subindo
e explodindo em regiões e cidades que o mercado imobiliário
elegeu como bola da vez. Com a abertura de capital na bolsa,
as incorporadoras receberam uma injeção de capital
e estão comprando terra como nunca. Esse processo ocorre
num verdadeiro clima de laissez-faire [livre-comércio],
muito longe da regulação social do Estatuto
da Cidade.
O
mercado está aproveitando as medidas tomadas pelo Ministério
das Cidades (que disponibilizaram recursos do SBPE e do FGTS),
a ampliação do crédito imobiliário
no Brasil e a lei de alienação fiduciária,
que permite a retomada rápida do imóvel no caso
de inadimplência do comprador. Mas as conseqüências
desse boom imobiliário podem ser desastrosas caso o
crescimento do restante da economia e da renda dos trabalhadores
não acompanhem o mesmo ritmo acelerado.
Preocupadas
em dar satisfações aos acionistas, muitas empresas
que abriram capital na bolsa empurram seus produtos para o
comprador, sem necessariamente avaliar a capacidade de pagamento
a médio prazo. Guardadas as diferenças - visto
que as conexões entre o imobiliário e o financeiro
são muito mais profundas nos EUA - o caso lembra a
atual crise de crédito subprime. A redução
na renda dos trabalhadores, aliada ao aumento da taxa de juros
poderá levar a uma situação de inadimplência
maciça: população na rua e queda no valor
dos imóveis. Nos EUA, com a crise, estima-se que cerca
de um milhão de famílias de trabalhadores foram
postas na rua perderam o que haviam acumulado por gerações.
Mas
mesmo que, sob o ponto de vista do arranjo financeiro, "tudo
dê certo", é preciso discutir o que significa
adotar um padrão de urbanização como
esse. Bairros-condomínios são produzidos seguindo
uma lógica privatista e segregacionista, característica
do mercado imobiliário brasileiro; muitos deles fragilmente
conectados à cidade existente por vias estreitas, que
evidentemente ficarão sobrecarregadas. Alguns prédios
habitacionais são apelidados pelo próprio mercado
de edifícios-garagem, tal a falta de qualidade dos
novos espaços produzidos. Além disso, mesmo
quem já percebeu a relação entre boom
imobiliário e congestionamentos evita questionar a
euforia em torno do crescimento da indústria automobilística.
Acredito que falta discutir as relações entre
esse modelo de expansão urbana e a prioridade concedida
ao automóvel para que possamos compreender a proporção
do desastre que está sendo produzido.
Qual
a presente influência do FMI e, sobretudo, do Banco
Mundial e do BID nas eleições municipais e nas
políticas públicas em disputa para os municípios?
Vivemos uma nova rodada do Consenso de Washington?
Pedro - O Banco Mundial, o BID e FMI estão apitando
cada vez menos no Brasil. O problema é que internalizamos
o que antes era uma forma de dominação externa.
O "consenso" está em Brasília ou em
São Paulo, não só em Washington. Parafraseando
a música do Caetano: "O FMI é aqui".
A dívida interna é tão grande que o novo
garrote não passa mais pelo FMI, mas pela Febraban
e pelas cerca de 70 famílias que detém ¾
da dívida pública. No caso das políticas
urbanas, o problema não é mais a influência
atual do Banco Mundial, mas a que ficou como herança
e como consenso para a maioria dos gestores públicos.
Isto
é, realizar políticas baseadas em recuperação
plena de custos, cancelar subsídios, focalizar em bolsões
de pobreza, restringir a universalização, assumir
uma lógica financeira de investimentos públicos
sempre mais rentáveis, fazer parcerias público-privadas,
incentivar e financiar soluções de mercado,
terceirizar projetos para "gerenciadoras" etc. Quando
estudei no mestrado as políticas do Banco Mundial e
do BID, no fim do governo FHC, percebi como aquelas instituições
modelavam a cabeça dos nossos técnicos, produzindo
um verdadeiro "ajuste intelectual". Hoje a tecnocracia
brasileira aprendeu de tal forma a lição que
já se antecipa ao que o Banco pediria - numa espécie
de internalização do consenso, ou da dominação.
Somos hoje a melhor vitrine do que defende o Banco Mundial
sem que este tenha que se dar o trabalho de vir aqui dizer
o que fazer.
Mariana
- Talvez pudéssemos dizer que nessa mistura de coerção
e consentimento a proporção varia, na definição
das políticas urbanas. Um exemplo de como esses organismos
internacionais atuam no varejo foi a vinda de uma missão
do BID, na gestão Marta (PT, 2001-2004). Os técnicos
do BID foram contra a produção de habitação
social no centro e tentaram vender aos técnicos locais
o modelo de Puerto Madero, omitindo as conseqüências
sociais negativas geradas pela remodelação da
área portuária em Buenos Aires, bem como seu
caráter imobiliário e privatista
Nos
últimos tempos têm se disseminado as chamadas
"Operações urbanas", sobretudo no
caso das grandes cidades. Como elas operam de forma geral,
e nas eleições em particular?
Mariana
- Muitas cidades - não apenas as grandes - tomam o
suposto sucesso de algumas operações urbanas
implantadas em São Paulo como exemplo a ser seguido.
Tratam essas operações como se fossem uma espécie
de fórmula mágica, uma tábua de salvação.
Esse instrumento de parceria público-privada seria
capaz de resolver o problema do financiamento de obras de
infra-estrutura, sem utilizar recursos orçamentários.
Muitas vezes, contudo, adotam o instrumento sem analisar de
perto os seus mecanismos de funcionamento e as conseqüências
sociais, políticas e econômicas de sua aplicação.
Resumidamente,
as operações consistem em definir um perímetro
urbano em que exceções à lei serão
abertas, permitindo que se construa mais, ou usos antes não
permitidos, mediante pagamento em dinheiro. Recentemente,
esse pagamento foi substituído pela conversão
dos metros quadrados adicionais em um título emitido
na bolsa de valores pelo poder municipal, chamado Cepac. Esse
título é uma forma financeirizada de venda de
solo virtual na cidade, uma tentativa de criar um mercado
secundário do direto de construir. Isto é, você
pode comprar o título como investidor, sem ser ter
um imóvel no perímetro da operação
ou ser da empresa que vai construir, e especular com ele.
Mas para que o mercado aceite essa regra do jogo, é
preciso que o poder público faça grandes investimentos
para gerar confiança no mercado em relação
à uma determinada região da cidade, em relação
a seu potencial de valorização.
No
caso de São Paulo, isso significou expulsar favelados,
fazer avenidas, desapropriar casas de classe média,
enfim, abrir o campo para os negócios gastando dinheiro
público e promovendo exclusão social. Por fim,
o que é arrecadado na venda de título da operação
só pode ser investido no mesmo perímetro, o
que acaba concentrando investimentos e riqueza num trecho
da cidade, aumentando o controle privado sobre o gasto público
e fragmentando o tecido urbano.
O
maior exemplo disso - e provavelmente o mais perverso - é
a Ponte Estaiada, que começou a ser construída
na gestão Marta e foi agora inaugurada por Kassab,
uma linha de continuidade surpreendente entre as várias
gestões. Assim, a operação urbana é
uma das manifestações dessa nossa combinação
de atraso e moderno que o Chico de Oliveira rebatizou recentemente
de Ornitorrinco. Embora não sejam costumeiramente evocadas
nas campanhas, de modo mais amplo, as operações
urbanas são muito utilizadas na hora de definir o rumo
das políticas urbanas. Funcionam como uma espécie
de cortina de fumaça sobre o destino do fundo público,
dando nova roupagem a antigos mecanismos de privatização
dos lucros e socialização das perdas.
Como vocês avaliam o Programa de Aceleração
do Crescimento (PAC), do Governo Federal? Quais suas principais
conseqüências para a cidade?
Pedro
- O PAC pouco andou até o momento, mas há uma
previsão de grandes investimentos nas cidades, sobretudo
em infra-estrutura de transportes, saneamento e urbanização
de favelas. O PAC não inverte a lógica, ele
põe mais água no moinho das empreiteiras e da
política convencional de grandes obras. Também
está injetando recursos no mercado imobiliário,
num quadro de laissez-faire, como disse Mariana.
Enquanto
as incorporadoras privadas compram terras sem parar (as cinco
maiores já possuem um estoque de quase 100 bilhões
de reais) o poder público se absteve de manter um banco
de terras para regulação imobiliária
e para implementar programas urbanos e habitacionais que sigam
critérios sociais e não apenas de mercado.
Os
projetos do PAC-favela, por sua vez, não são
feitos em diálogo com as comunidades ou com os movimentos
de luta por moradia, mas segundo estudos de engenharia que
interessam às construtoras e que rendam marketing político.
São obras que podem ter grandes impactos negativos,
sociais e ambientais, como no período do regime militar,
em que diversos elefantes brancos foram feitos nas nossas
cidades.
Ter fundos públicos federais para políticas
urbanas é, sem dúvida, importante, pois vivemos
a década de 1990 inteira com uma restrição
enorme de recursos para investimentos nas cidades, o que nos
deixou reféns do BID e o Banco Mundial. Agora essa
situação pode ser parcialmente revertida, estamos
vivendo um ciclo de investimento endógeno com recursos
do orçamento da união, do BNDES e da Caixa Econômica,
o que poderia dar margem aos gestores para pensar em fazer
coisas diferentes, ao invés de seguir a cartilha. É
um momento em que as administrações de esquerda
poderiam utilizar esses fundos para mostrar que é possível
fazer políticas públicas estruturais, que beneficiem
de fato as maiorias, noutro patamar de qualidade e de universalidade.
Sobre
o recente crescimento exponencial da favelização
nas cidades (fenômeno mundial inclusive), quais as principais
perspectivas que vocês diagnosticam, tanto para o mal
quanto para o bem?
Pedro
- O Brasil viveu um crescimento exponencial das favelas nas
duas últimas décadas e atualmente a situação
é um pouco mais estável, mas não menos
dramática. Com os recursos públicos crescentes
para políticas urbanas, isso está permitindo
que gestores de direita ou esquerda já falem em seus
municípios ou estados em extinguir o déficit
habitacional ou, ao menos, urbanizar a quase totalidade das
favelas. Mas será que a saída é urbanizar
favelas? Qual o padrão urbano que queremos para o Brasil:
vamos aceitar a dualização da cidade?
De
um lado, a cidade das elites e classes médias, urbanizada
no modelo europeu-ocidental, e de outro, as cidades-favela
dos pobres, urbanizadas sob um padrão rebaixado, "terceiro-mundista",
de infra-estrutura urbana? Toda a legislação
de produção da cidade é excepcionalizada
quando se urbaniza uma favela: o tamanho dos lotes é
reduzido, o das vias também, além de mais íngremes
do que o permitido, as calçadas podem ser suprimidas,
as redes de abastecimento seguem outro padrão, a drenagem
é precária, acesso para ambulâncias, bombeiros
e recolhimento de lixo é limitado, escadarias infindáveis
são projetadas, habitações insalubres
são mantidas, não há espaço para
praças ou equipamentos públicos como prevê
a legislação federal, os passivos ambientais
não têm como ser revertidos etc.
Nos
últimos 30 anos de baixo crescimento econômico,
que foi o período de favelização no Brasil,
tivemos pouco dinheiro para investir nas cidades, por isso
fazíamos políticas modestas, remendos. Se o
afluxo de recursos que está ocorrendo for sustentável,
se vier parte da renda petroleira do "pré-sal"
para investir nas cidades, temos que nos perguntar se não
é hora de mudar de paradigma. Ao invés de remendos
de urbanização, fazer, de fato, cidade no lugar
das favelas e cortiços - aliás, é o que
os chineses estão realizando.
De
um lado, pôr abaixo as situações críticas
e reconstruir, com projetos de nova qualidade, com participação
popular, pesquisa universitária, sustentabilidade ambiental,
misturas de usos, pólos de geração de
renda etc. De outro, desabsolutizar a propriedade privada
e aplicar os instrumentos do Estatuto da Cidade para forçar
o uso social dos imóveis vacantes nas áreas
centrais, muitos deles inadimplentes de impostos há
anos. Se não fizermos isso, estaremos confirmando tanto
a forma-favela quanto a propriedade imobiliária anti-social
como regras na cidade brasileira, e com isso, aceitando que
existem cidades e cidadãos de duas categorias.
Mariana - Nós estamos acompanhando não apenas
o crescimento dos programas de urbanização,
mas da política de remoção de favelas,
sobretudo das que estão localizadas nas regiões
em que o capital imobiliário atua. Há muitos
exemplos de que as ocupações ilegais são
largamente toleradas quando não interferem nos circuitos
centrais de realização do lucro imobiliário.
Só nas áreas rejeitadas pelo mercado que a população
trabalhadora consegue se instalar, como mostra Ermínia
Maricato.
Ao
mesmo tempo, a política de limpeza social em áreas
de interesse do mercado continua forte como nunca. A menos
que seja muito difícil a "remoção",
como é o caso de grandes favelas, como a Rocinha e
Paraisópolis, a regra é tirar todos os núcleos
de pobreza das regiões ricas. Em São Paulo,
ao mesmo tempo que a Prefeitura anuncia um amplo programa
de urbanização, promove uma ofensiva violenta
contra os moradores de favelas, sobretudo as que estão
próximas a eixos viários importantes e que são
visíveis aos que circulam de automóvel. Jardim
Edith, a favela vizinha da Ponte Estaiada, na esquina das
avenidas Berrini e Jornalista Roberto Marinho, é um
exemplo disso.
Boa
parte dos moradores foi expulsa em meados dos anos 1990, praticamente
empurrada para a região de proteção ambiental
da cidade, as margens das represas Billings e Guarapiranga.
Os que ficaram tiveram que se mobilizar para não ser
novamente expulsos, na administração atual,
apesar da favela estar situada em uma Zeis, uma Zona Especial
de Interesse Social. No final, apenas 243 famílias
serão contempladas com um projeto habitacional no local,
um número muito pequeno considerando que mais de 80
mil pessoas já foram expulsas do perímetro da
operação urbana. A assimetria é de tal
ordem que os recursos advindos da venda de Cepacs na operação
urbana, que deveriam ter sido utilizados para moradia, foram
drenados para a construção dessa imponente Ponte
Estaiada sobre o Rio Pinheiros.
Ou
seja, o problema não foi de falta de dinheiro... A
ponte é expressão disso, aparece como um triunfo.
Ironicamente, impõe sobre a realidade a realidade da
sua imagem, e encobre o desejo de eliminar da paisagem urbana
os que ali viviam, marcando-os ao mesmo tempo com os signos
da diferença e da indiferença, para utilizar
uma expressão sugestiva de Laymert Garcia dos Santos,
formulada em outra situação. Estampada na capa
de guias, revistas, em anúncios de página inteira
nos jornais, etc, não à toa vira nosso mais
novo cartão postal.
Neste
contexto, como vocês avaliam especificamente as políticas
públicas para a habitação? E as maneiras
pelas quais os movimentos sociais sem-terra e sem-teto têm
lidado frente a essas políticas?
Pedro
- A política de provisão habitacional ainda
é muito desigual no Brasil. Nos estados mais pobres
é quase inexistente ou adota sistemas de lotes urbanizados
ou de trabalho compulsório dos moradores para executar
casinhas de baixa qualidade. Nos estados mais ricos, a política
habitacional ainda segue um modelo produtivista similar ao
do regime militar, com grandes conjuntos habitacionais nas
periferias urbanas, apartamentos ou casinhas sempre iguais,
sem formar cidade.
Esse
modelo, ao gosto das empreiteiras, já foi condenado
mundialmente ao menos desde o início da década
de 1970, quando nos Estados Unidos começaram a implodir
conjuntos desse tipo. Você olha um conjunto desses e
só distingue de um presídio porque não
tem grades nas janelas e porque a fachada é pintada
de cores alegrinhas. Esse tipo de projeto é apresentado
como "o sonho de todo favelado".. Existe aí
um rebaixamento evidente das expectativas da população
em relação ao que deve ser um patamar digno
de moradia. Em ambos os casos, na política de habitação
pobre ou na rica, o que se está produzindo é
o deslocamento constante dos trabalhadores das áreas
mais centrais e com infra-estrutura para as periferias distantes
e desprovidas. A política habitacional no Brasil é
uma política de segregação das classes
sociais, uma política de apartheid.
Mariana
- Os movimentos de luta por moradia enfrentaram esse tipo
de política por meio de seus mutirões, com a
produção da casas e apartamentos de qualidade
muito superior, além de espaços comunitários,
de lazer e trabalho. A conquista dos mutirões deveria
ser apenas um estágio para novos avanços, que
não vieram. Entre eles estava a moradia nas áreas
centrais da cidade, em prédios reformados, em imóveis
vazios reciclados, como mencionamos.
Mas
os movimentos encontraram muita oposição. Apesar
das dezenas de prédios ocupados, pouquíssimos
projetos foram viabilizados. Seja por uma barreira do mercado,
dos agentes públicos ou da mera segregação
social - a visão de vários políticos
e funcionários públicos de que o centro da cidade
não é lugar para pobre -, os militantes dos
movimentos não estão conseguindo conquistar
moradia em áreas bem servidas de infra-estrutura. Enquanto
em outros países as ocupações de espaços
vazios são vistas como legítimas, aqui dão
origem a ações violentas de reintegração
de posse.
Pedro
- O risco é recuar, aceitar a mesma lógica produtivista
dominante e ficar correndo atrás de financiamentos
cada vez mais restritivos e projetos cada vez mais periféricos
e parecidos com os das empreiteiras. Parte expressiva dos
movimentos urbanos está hoje aliada ao setor da construção
para conseguir aprovar uma emenda constitucional que garanta
verbas carimbadas para a habitação, em todos
os níveis de governo. A aliança já é
reveladora do imbróglio em que nos encontramos. Mas
o decisivo é discutir como esse recurso vai ser aplicado,
as regras do Plano Nacional de Habitação e dos
Planos municipais, que estão em elaboração
em todo país. Aí é preciso distinguir
claramente os interesses do movimento popular dos interesses
do Sinduscon, senão estaremos em apuros...
Projetando
o futuro, como vocês avaliam a provável avalanche
especulativa-imobiliária e a proliferação
de novos mega-projetos no país (Copa do Mundo, IIRSA,
PPPs e PACs à frente)? E em quais condições
de trabalho tem se dado tais canteiros de obra?
Pedro
- Os canteiros de obra convencionais são espaços
de exploração dos mais selvagens, mas isso nem
sempre aparece, porque as obras prontas, ao serem inauguradas,
apagam essa história, como no fetiche da mercadoria,
descrito por Marx. Ao mesmo tempo, o que acontece nos canteiros
de obra resume, como uma alegoria, os dilemas da nossa própria
"construção nacional".
O
Brasil, quando cresce, produz canteiros faraônicos,
onde se produz mais-valia abundante e espoliação
intensa do trabalho. A construção de Brasília
foi um desses episódios emblemáticos, quando
se formou o sindicato de trabalhadores da construção
civil mais combativo do país, até o ponto de
ser rechaçado à bala pelas construtoras e com
operários mortos covardemente quando dormiam. Sobre
eles, há o documentário de Vladimir Carvalho
e o livro de Nair Bicalho de Souza. Isso não é
história do Brasil de 50 anos atrás. Durante
as obras do Pan, a menos de seis meses do início dos
jogos, houve uma greve dos operários que estavam construindo
mais um elefante branco - o estádio João Havelange.
As
reivindicações eram modestas, mas revelam o
grau de opressão a que estavam submetidos: os trabalhadores
queriam comida melhor, equipamentos de proteção
contra acidentes, pois já haviam ocorrido mortes, e
que a água na obra fosse potável e fria ao invés
de quente, como estava sendo servida, sob os 40 graus do sol
carioca.
Os
canteiros de obra são espaços em que ainda é
muito visível a luta de classes, mas os sindicatos
estão cada vez mais fracos e apadrinhados pelas organizações
patronais. Uma injeção maciça de recursos
em grandes obras, como está começando a ocorrer,
vai seguir reproduzindo esse modelo de exploração.
Mariana
- É sintomático (e preocupante) que os olhares
do setor da construção civil estejam voltados
para Dubai ou Pequim. Não é à toa que
os gigantescos canteiros de obras produzem encantamento justamente
ao atingir o mais alto grau de precarização
das relações trabalhistas.
Pedro
- Os canteiros de obras públicas, noutro contexto,
poderiam ser justamente a negação disso tudo,
poderiam ser experimentais em várias dimensões,
da técnica à organização do trabalho.
As universidades poderiam estar envolvidas, associadas a cooperativas
de trabalhadores e fábricas públicas. Isso parece
inimaginável, mas não é.
O
arquiteto João Filgueiras Lima, o Lelé, conseguiu,
por meio de diversas fábricas públicas em todo
Brasil produzir escolas, hospitais, equipamentos urbanos de
uma forma totalmente diferente das empreiteiras convencionais.
Aqui em São Paulo ele montou o CEDEC, com a Mayumi
Souza Lima, na gestão da Luiza Erundina, que era também
uma cooperativa de operários ligada à empresa
municipal de urbanização. O exemplo mais famoso
de Lelé é o Centro Tecnológico (CTRS)
em Salvador, ligado ao Ministério da Saúde,
e que produziu os hospitais da Rede Sarah em todo país.
Esse tipo de produção poderia ter se multiplicado,
mas foi combatido. Atualmente a fábrica corre risco
de fechar porque o lobby das empreiteiras conseguiu impedir
que o CTRS participasse de licitações e mesmo
que divulgasse publicamente sua tecnologia inovadora. A velha
República das empreiteiras do Brasil segue empilhando
vitórias..
Quem
são:
Mariana Fix é urbanista e mestre em sociologia pela
USP. É autora dos livros Parceiros da Exclusão
e São Paulo cidade global: fundamentos financeiros
de uma miragem, ambos pela Boitempo (2001 e 2007). Participou
da formação do Fórum Centro Vivo e é
membro do Labhab da FAUUSP. Atualmente faz doutorado no Instituto
de Economia da UNICAMP.
Pedro Arantes é arquiteto e mestre pela FAU-USP. É
autor do livro Arquitetura Nova (Ed.34, 2002) e organizador
da coletânea de textos de Sérgio Ferro, Arquitetura
e trabalho livre (CosacNaify,2006). É coordenador da
assessoria técnica USINA, que apóia movimentos
urbanos e rurais na produção de moradias e equipamentos
coletivos. É assessor do curso Realidade Brasileira
em Curitiba, Porto Alegre e Chapecó no tema "Questão
urbana".

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