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Domingos
Sávio Dresch da Silveira é procurador
da República e professor da Faculdade de Direito da
Universidade Federal do Rio Grande do Sul.
Atualmente, prepara uma tese de doutorado que tem um
objeto de estudo muito significativo para o contexto
nacional. Domingos
também comanda uma editora de nome simbólico:
Dom Quixote. No dia sete de novembro, na Feira do Livro de
Porto Alegre, a empresa lançou a obra “Estabilidade
no Emprego Possível, urgente e necessária.” Escrita
por Ramais Silveira, da Coleção Trabalho e
Direitos Humanos, só pelo título mostra seu
caráter provocativo e contra a maré de ataques
aos direitos das classes trabalhadoras. Foi na sala onde
trabalha, no Ministério Público Federal, que
o jurista conversou com a responsável pela elaboração
de projetos da DIST, Dagmar Camargo, e o jornalista Marcelo
Dorneles Coelho. Segue um resumo da entrevista, na qual a
questão dos meios de comunicação foi
o principal assunto devido ao fato de seu mestrado ter sido
sobre o tema “Controlar não é censurar”. Até onde vai o controle e quando começa a
censura nos meios de comunicação?
Esta é a grande questão. Precisamos começar
com a denúncia de que o controle remoto (dos televisores)
não é o único meio de controle das TVs.
O artigo da Constituição que trata do assunto
(Diz isto e pega uma edição da Carta Magna
do país) fala em controle pela sociedade. A liberdade
já se inicia de modo condicional, à medida
que os meios de comunicação devem, nas suas
programações, respeitar alguns valores. Admito
que controle parece sempre “não”. Parece
convocar à proibição. A liberdade ampla
pede regulação, um conceito melhor, mais apropriado.
Todo o governo da mídia que for feito com base na
Constituição é legítimo. O problema
da censura é lidar com conceitos vagos. Lembro do
caso da peça “Calabar”, de Chico Buarque
e Ruy Guerra, lá do começo dos anos 70 (Nota
dos Entrevistadores: A peça trata do episódio
definido como traição pela historiografia oficial,
em que um combatente português passa para o lado dos
holandeses, quando estes lutavam pelo domínio na região
nordeste na época em que o Brasil era uma colônia),
em que o censor alegou que a obra atentava contra a nacionalidade.
Ora, posteriormente, o juiz que revogou a proibição
chamou a atenção para o fato de que no período
da narrativa o Brasil nem era independente! Não existia
como nação!
Mas
e o que a atual legislação conserva do
período da ditadura militar?
Sempre
que uma Constituição entra em vigor,
o que existia antes e está contra ela é revogada.
A regulação da mídia atua a favor da
Democracia, e não contra ela. Os donos das emissoras
gostam de citar parcialmente os artigos que lhe interessam.
Seguidamente esquecem que “são invioláveis
a honra, a privacidade e a imagem das pessoas”. A Constituição
expressa o princípio claramente, e seguidamente os
veículos vão contra isso. É vedada toda
censura política, ideológica e artística.
Ah, mas tem a censura moral. Bem, ela também expressa
uma ideologia. Por exemplo, no caso de uma ação
muito conhecida, contra a música “Um tapinha
não dói”, que foi iniciativa da Organização
Não Governamental Themis e do Ministério Público.
Aquela obra atentava contra um conjunto de valores constitucionais.
Podemos citar a não violência e a dignidade
da mulher. Na verdade, estamos sempre “no fio da navalha”.
Pior que não provocar a discussão é achar
que o controle remoto resolve isto.
O artigo 224 aponta que o Conselho de Comunicação
Social pode se tornar um instrumento importante. Os conselhos
tutelares também podem regular o que é veiculado
sobre crianças e adolescentes e para estes segmentos.
O artigo 220 coloca que a Lei Federal vai regular os espetáculos
públicos, em termos de faixa etária etc. A
família tem o direito de se defender dos produtos
nocivos ao meio ambiente, por exemplo. Vamos ao artigo 221:
a produção e a programação das
emissoras deveriam contemplar fundamentalmente informação,
arte e cultura. E o detalhe é que não faz nenhuma
diferença entre canal fechado ou aberto. É questionável
que um canal sirva só para compra e venda, estimulando
o consumo, por estes critérios. Concessão sem
fiscalização vira doação. O controle
tem que ser primordialmente social. A classificação
indicativa deveria passar pelo Conselho de Comunicação
Social, que ouviria amplos setores, e não partir do
Ministério da Justiça.
Qual o objeto da sua Tese de Doutorado?
O governo
da programação da tevê. No
sentido dela como instrumento de poder econômico, político,
ideológico, cultural.
Qual a regulação
democrática possível?
Há o que eu chamo de risco social televisivo. Há a
utilização dela, por exemplo, contra os princípios
relacionados aos direitos humanos, uma possibilidade de desagregação
da ordem democrática constituída. Vejo uma
outra censura, perversa, que é o de não dar
existência a coisas que estão na vida cultural
e social do nosso povo.
Há modelos que poderiam contribuir para uma maior
democratização dos meios de comunicação
no Brasil? Ou, pela análise que você faz da
Constituição, o país já possui
instrumentos para este processo?
Nós temos instrumentos para isto. O problema consiste
na pouca utilização deles. Ministério
Público, Conselhos Tutelares, estas instituições
agem com menos desenvoltura do que deveriam. Os movimentos
sociais e a população desconhecem as possibilidades
que teriam. O risco televisivo precisa ser governado. Nós
temos o melhor modelo de classificação indicativa
do mundo, disto estou convencido. Ele é equilibrado,
com critérios amplamente discutidos por especialistas
e representantes da sociedade. Qualquer pessoa pode reclamar
de uma programação. O produtor cultural autoclassifica,
e o Ministério da Justiça dispõe de
30 dias para examinar a classificação que foi
dada. Se existe discordância, ocorre o diálogo,
o contraditório. As próprias emissoras não
reclamam mais disto. Em outros países como a Espanha,
as regras variam de região para região. Quando
da renovação de concessões, é preciso
considerar como elas foram utilizadas nos últimos
10 anos, naquele país europeu.
E
como é conduzir uma editora no mercado nacional,
neste período?
O livro
ainda vai existir muito tempo. Acredito que ainda há uma relação amorosa com o objeto.
A idéia é editar mais títulos com tiragens
menores, através da Editora Dom Quixote, tentar provocar
uma agitação cultural. O mercado das grandes
editoras é muito fechado. A comercialização
e a distribuição respondem por 50% do preço
do livro. Esta é uma proporção que encarece
o produto.
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