|

ENTREVISTA
|
|

O filósofo Alberto Bujardon Mendoza, de 53 anos,
esteve em Porto Alegre recentemente. O jornalista Alexandre
Costa conversou com Bujardon no restaurante da Câmara
Municipal de Vereadores, onde esteve reunido com Hélgio
Trindade, presidente da Comissão que está implantando
a Universidade Federal de Integração Latino
Americana e com o psiquiatra Bruno Costa, vice-presidente
da ONG Democracia, Inclusão Social e Trabalho (Dist).
Bujardon falou do atual momento do seu país, a transição
de Fidel para Raul Castro e outras situações
relativas a Cuba, essa ilha que tem sido objeto de muitos
estudos, análises, polêmicas, discussões,
reflexões e opiniões de toda ordem.
Bujardon tinha quatro anos quando aconteceu a revolução
em Cuba e nasceu em 15 de novembro de 1954. Tem poucas recordações
deste período da sua infância. Mas faz questão
de mencionar o orgulho que sente em relação
ao pai, devido ao fato do mesmo integrar a classe operária
cubana que, segundo ele, tomou o poder e passou a governar
aquele país. Uma das referências de Alberto Bujardon
ao regime de seu país é de que: “graças
à revolução, eu estudei em uma das universidades
mais prestigiadas do mundo, com grande aporte científico".
E completa: “em outra época jamais poderia chegar
a tal graduação”.
Bujardon é formado em Filosofia Marxista Leninista
pela Universidade Estatal de Moscou e Ciências da Educação
pela Universidade de Camagüey. É professor do
Centro de Investigação da Ciência para
a Saúde, onde trabalha há mais de 28 anos, na
universidade cubana. Uma atividade da qual tem muito orgulho,
“seja pela qualidade do ensino e dos professores, seja
pela qualidade humana dos estudantes que lá se formam.
Cuba adotou um regime auto-proclamado socialista, a partir
de um modelo Marxista-Leninista, iniciado com a revulução
de 1959 que retirou do poder o então presidente Fulgêncio
Batista. Atualmente, o presidente de Cuba é Raul Castro,
que acumula ainda os cargos de vice-presidente do Conselho
de Ministros, primeiro vice-presidente do Conselho de Estado
de Cuba, vice-secretário do Politburo e do Comitê
Central do Partido Comunista de Cuba (PCC), e Supremo General
das Forças
Armadas (Exército, Marinha e Força Aérea).
As
opiniões dos entrevistados neste espaço não
são necessariamente as mesmas da direção
da DIST. O compromisso de dirigentes e profissionais ligados
à ONG é assegurar, aqui, a pluralidade de pontos
de vista de pensadores que abordam experiências importantes
para trabalhadores e intelectuais com reflexões acerca
do mundo do Trabalho.
Confira
a entrevista
CUBA, DEMOCRACIA OU DITADURA?
Qual a sua opinião para as afirmações,
cada vez mais freqüentes, de que não há
democracia em Cuba?
A ditadura que existe em Cuba é a ditadura do proletariado.
É a ditadura da classe operária que chegou ao
poder. O modelo de Cuba está integrado a um processo
de democracia plena e participativa, com a participação
direta do povo que elege seus representantes, seus delegados,
suas lideranças nas diferentes esferas públicas.
Este é um processo que nos honra muito, pois existe
a participação direta do povo em todas as atividades
dentro do processo eleitoral. Este processo é considerado
pela mídia de modo geral como uma ditadura.
Como se pode compreender tudo isso? Afinal, é uma ditadura
ou é uma democracia?
O povo cubano não apenas elege seus representantes,
faz mais que isso. O povo cubano participa do mandato, com
discussões, com a realização de encontros
onde são tomadas decisões, resoluções.
Existe a ligação entre o poder estatal e os
canais de participação, sindicatos, federações,
associações, entre outros. Existe uma preocupação
do partido que tem uma responsabilidade pela construção
de uma nova sociedade. E o Partido Comunista de Cuba sabe
que tem que zelar pelo clima
político e moral da sociedade.
Como é o processo eleitoral em Cuba?
A população se reúne em cada circunscrição
eleitoral da cidade. Ali se forma a comissão eleitoral
e são escolhidos os representantes do Poder Popular
Municipal, Parlamento e Executivo, equivalente à Câmara
de Vereadores e ao prefeito, no Brasil. Na primeira reunião,
cada assembléia municipal repete o processo, formando-se
a Assembléia Providencial. Não existe a separação
entre Legislativo e Executivo. A Assembléia Provincial
elege seus dirigentes, que equivale ao governo estadual no
Brasil. A seguir são eleitas as assembléias
municipais e provinciais, sempre com a participação
das organizações de massa, federações,
sindicatos, os Comitês de Defesa da Revolução,
inclusive nas comissões eleitorais, decidem quais os
quadros importantes para o governo de todo o país.
Então, os cubanos escolhem a Assembléia nacional
do Poder Popular, que elege seus dirigentes. Este processo
todo é realizado através de urnas, do voto direto
e secreto, com transparência absoluta. Não há
propaganda eleitoral em Cuba e também não existe
o culto à imagem de políticos, com promessas
demagógicas. Os cubanos elegem seus representantes,
delegados de circunscrições, membros de câmaras
municipais e provinciais e deputados da Assembléia
Nacional, destacando sempre os melhores e mais capazes para
cumprir suas funções, e o mais importante, sem
cobrar um só centavo. A maior preocupação
dos eleitores cubanos na hora da votação é
analisar em sua circunscrição quais dos candidatos
possuem as melhores qualidades para enfrentar os problemas
existentes no país. Não é uma eleição
definitiva, pois os delegados ou outro membro qualquer em
nível municipal, provincial ou nacional, podem ser
revogados antes de cumprirem o mandato, caso não cumpram
as responsabilidades que assumiram ao serem eleitos. Isso
quer dizer que não são profissionais do Parlamento,
pois continuam realizando o seu trabalho habitual, pelo qual
já recebem o salário correspondente. São
professores, médicos e outros trabalhadores, operários
qualificados, intelectuais, membros das Forças Armadas
Revolucionárias e do Ministério do Interior,
camponeses, advogados, membros das organizações
de
massas, que figuram entre os eleitos nas eleições
na Ilha.
Quem pode votar em Cuba?
Ao completar 16 anos de idade, o cubano passa a ter o direito
ao voto. Com essa idade, a pessoa será inscrita imediatamente,
o que se realiza a partir do Registro Civil onde estão
inscritos todos os cidadãos. A votação
é voluntária, livre e secreta. Não existe
lei que obrigue os eleitores a votarem. Em cada eleição
realizada, mais de 90% do eleitorado foi às urnas.
A contagem dos votos é feita publicamente, ao concluir
o horário de votação, pelos membros da
mesa eleitoral e na presença dos eleitores que vão
voluntariamente ao lugar para verificar a transparência
da contagem. Não se sabe de caso algum de roubo de
urnas, fraude ou ocupação de colégios
eleitorais por forças militares para beneficiar o regime,
como acontece em muitos países. Entre os delegados
de circunscrições eleitos pela votação
direta da população, são eleitos os candidatos
às câmaras municipais, bem como às provinciais.
Os deputados da Assembléia Nacional (Parlamento) são
escolhidos, tendo em consideração os membros
das provinciais. Inserem-se nelas outras representações
de importantes setores científicos, administrativos,
camponeses, intelectuais, organizações de massas
propostas por variadas instituições.
Quais são os critérios para a escolha dos representantes?
Cabe à Assembléia Nacional eleger, entre seus
deputados, os membros do Conselho de Estado e este, o presidente.
É bom salientar que o Partido Comunista de Cuba não
candidata nem escolhe previamente os candidatos. E seus membros,
como cidadãos, exercem o direito ao voto e integram
as mesas eleitorais se lhes for pedido. De jeito nenhum, cidadãos
com laços familiares ou que convivam com algum dos
candidatos a serem eleitos na circunscrição
poderão fazer parte de uma mesa eleitoral. Além
disso, nenhum colégio eleitoral, comissões de
circunscrição e demais trabalhos relativos ao
sufrágio, poderão funcionar num imóvel
que seja propriedade de algum dos nomeados. São valores
éticos que contribuem para a transparência das
eleições.
Podes dar um exemplo concreto?
Sim. Posso descrever como se desenrola o pleito eleitoral
em Camaguey. Este nome é ao mesmo tempo a denominação
da província, do município e
da cidade que é capital da província. Vamos
falar, então, do município de Camaguey, que
serve como exemplo para o mesmo processo que se desenvolve
em cada um dos 13 municípios que compõe a província
e também para qualquer município de Cuba.

Quantos habitantes tem o município de Camaguey?
Cerca de 350.000 habitantes. É uma cidade de tamanho
médio. Uma grande cidade seria, por exemplo, Havana,
com 3 milhões de habitantes. Os eleitores são
distribuídos em cincunscrições eleitorais,
que podem ter muitas seções. Em cada seção
encontra-se uma urna. O voto é
facultativo e o cidadão torna-se eleitor aos 16 anos.
E como funcionam as circunscrições eleitorais?
A circunscrição é composta por um número
variável de eleitores, cerca de 500 a 2.000. Cada uma
delas apresenta seus candidatos a delegados, não podendo
ser somente uma pessoa. No mínimo duas, a fim de poder
se estabelecer o debate. Os eleitores depositam seus votos
na urna num determinado dia e a fiscalização
é realizada por jovens, como, por exemplo, os jovens
pioneiros, com idade de 8 a 12 anos. Cada eleitor assinala
o seu nome preferido entre os nomes que constam numa lista.
Ao terminar a votação, a apuração
é feita em local público, por pessoas escolhidas
pelos eleitores e com seus nomes ratificados pela Comissão
Eleitoral Municipal (CEM). É eleito delegado aquele
que tiver mais de 50% dos votos. Se não tiver, os dois
candidatos mais votados disputam novo pleito que se desenvolve
da mesma maneira. Portanto, em Camaguey, onde há 207
circunscrições são eleitos 207 delegados.
Mas como os eleitores sabem da existência dos candidatos?
Os candidatos são pessoas conhecidas pela circunscrição.
Destacaram-se pelo mérito de seu trabalho junto à
comunidade. São pessoas em que há um consenso
por parte da comunidade no sentido de que podem representá-las
e que podem trabalhar ainda melhor pela sociedade. Não
existe um interesse individualista de natureza oportunista
por parte dos candidatos, eles aceitam a indicação
porque pretendem continuar trabalhando construtivamente pela
comunidade. A propaganda eleitoral é proibida, não
sendo na verdade necessária já que os candidatos
são pessoas conhecidas de sua circunscrição
e participam de inúmeros debates sobre os problemas
da comunidade. Não há dinheiro envolvido no
pleito e o candidato, se eleito, vai continuar ganhando o
salário que recebe da sua atividade. Trata-se, portanto,
de uma posição honrosa para um candidato ser
escolhido como delegado. Ele poderá ser reeleito se
for bom seu desempenho, por mais um mandato de dois anos e
meios.
O mandato do delegado, então, é de 2 anos e
meio?
Sim. A cada dois anos e meio há uma eleição
municipal. Nós a chamamos de eleição
parcial, porque estão relacionadas somente aos municípios.
As eleições gerais ocorrem a cada 5 anos. No
ano de 2.007, por exemplo,
ocorreram eleições gerais.
Como é este processo de eleições parciais
e gerais?
Os delegados eleitos pelas circunscrições eleitorais
compõem um colégio eleitoral que se constitui
no Poder Popular Municipal, através de uma Assembléia
Municipal do Poder Popular (AMP). Os nomes destes delegados
são ratificados pela Comissão Eleitoral Municipal.
A Assembléia encarrega-se, então, de eleger
um Presidente e um Vice-Presidente. Eles serão o equivalente
ao Prefeito e ao Vice-Prefeito. Para o desempenho destas funções,
a Comissão Eleitoral faz entrevistas com cada um dos
delegados para saber suas opiniões e indicações.
A Comissão, então, indica à Assembléia
os nomes para Presidente e Vice, os quais deverão ser
ratificados em votação realizada pelos delegados.
Poderão ser aceitos ou não. Se os nomes não
forem aceitos pela Assembléia, a Comissão deverá
fazer novo processo e novas indicações. O mandato
do Presidente e do Vice é de dois anos e meio e eles
se encarregam da composição da equipe de administração
do município. Os delegados, a qualquer momento, poderão
se reunir em Assembléia e revogar seus mandatos, caso
tais pessoas incorrerem em irregularidades previstas em lei.
E as eleições gerais?
Bem, acredito que consegui explicar como são eleitos
os delegados municipais, o que teria alguma semelhança
com os vereadores no Brasil. As eleições gerais,
como já disse, ocorre de 5 em 5 anos. Nesta ocasião
são eleitos os delegados para as Assembléias
Provinciais do Poder Popular e os deputados para a Assembléia
Nacional do Poder Popular. Nestas eleições participam
como candidatos os delegados municipais e outras pessoas indicadas
por organizações da sociedade civil, sindicatos
e personalidades. O processo eleitoral é igual ao que
descrevi anteriormente, com a diferença de que no ano
de eleições gerais na lista constam as indicações
para a Assembléia Municipal do Poder Popular, para
a Assembléia Provincial do Poder Popular e para a Assembléia
Nacional do Poder Popular. Todas estas instâncias estão
previstas em todos seus rituais, desde os percentuais de participação
até a apuração dos votos, sendo, sempre,
abertas ao público.
E como são escolhidas, então, as pessoas que
se encarregarão da administração do país?
O processo é semelhante ao que ocorre em nível
municipal. Em nível nacional, a Assembléia Nacional
do Poder Popular, cujos nomes são ratificados por uma
Comissão Eleitoral Nacional, em processo semelhante
ao que acontece em níveis municipal e provincial, encarrega-se
de indicar o Presidente e o Vice da própria Assembléia
e o Presidente e Vices do Conselho de Estado. Cabe ao Conselho
de Estado dirigir o país. Os vices indicados são
os ministros das diferentes áreas. Não são,
portanto, uma indicação pessoal do Presidente.
Mas, evidentemente, são pessoas de prestígio
social inegável, reconhecidas pela ANPP e aceitas para
o desempenho de suas elevadas funções. O Presidente
da ANPP torna-se o Presidente do Parlamento. Este se reúne
3 ou 4 dias por ano, quando os deputados encarregam-se de
discutir os assuntos tratados e discutidos por Comissões
Legislativas durante o ano inteiro. Os deputados, tal como
os delegados municipais e provinciais, não recebem
salários para seu desempenho nestas funções
e sim continuam a receber o salário relacionado às
suas atividades originais. Delegado e Deputado, portanto,
não se transformam numa nova profissão remunerada.
Como
está ocorrendo a transição entre os governos
de Fidel e Raul Castro?
Em primeiro lugar é preciso deixar bem claro que o
que ocorreu em Cuba faz parte de um processo. Fidel terminou
seu mandato como presidente e a Assembléia Nacional
do Poder Popular elegeu Raul Castro, através de uma
votação que atingiu 100% dos votos, e que consolida
a mesma direção política. Raul é
uma pessoa que pode se movimentar e exercer as atividades
de forma mais plena. O mundo todo estava preocupado com o
futuro de Cuba. Estamos afirmando que o país vai continuar
socialista, com os mesmos ideais da revolução.
EDUCAÇÃO
E SAÚDE
Como estão vivendo os cubanos, como são
as condições de vida da população?
Há rumores de que a qualidade dos serviços
tem caído, como por exemplo, a educação
e a saúde. Qual a sua opinião sobre isso?
Isso não é verdade. Hoje, Cuba está inserido
em um projeto latino-americano e está exportando, fundamentalmente,
capital cubano de qualidade, de conhecimento, principalmente
nestas áreas. Temos uma saúde e uma educação
de muita qualidade e Cuba está investindo e vai continuar
investindo para poder se desenvolver com qualidade nestas
áreas, com uma excepcional atenção primária
à saúde. Engana-se quem pensa que, pelo fato
da educação e da saúde em Cuba serem
gratuitas, são de qualidade inferior. Pelo contrário,
estamos remodelando as policlínicas e os hospitais
e continuamos dando uma atenção especial ao
sistema básico e prestamos ajuda internacional na área
da saúde. Estamos trabalhando para construir e remodelar
os consultórios médicos de família e
novas tecnologias que foram recentemente anunciadas na assembléia
do Partido Comunista de Cuba. São novas tecnologias
na área da saúde, como o centro de nefrologia,
os centros de cardiologia e de tratamento de câncer.
Os centros de saúde estão sendo remodelados,
estão sendo informatizados. Estamos valorizando os
professores e temos um modelo de formação pedagógica
e estamos abrindo universidades em todos os municípios
no interior de Cuba, abrindo a universidade para o interior
e para o exterior, através de convênios e de
intercâmbios. O povo cubano tem consciência de
que é preciso primeiro atender as necessidades básicas
e coletivas em detrimento das necessidades individuais de
cada cidadão. Estamos buscando melhorias econômicas
e sociais para o nosso povo. Apesar das dificuldades econômicas
de Cuba, o país investe nas áreas essenciais,
com o propósito de garantir e preservar o principal
produto social que é a qualidade de vida da população
e a formação dos cubanos.
Como
Cuba faz para superar o embargo econômico?
O mais importante em Cuba é a vontade política
do nosso povo de resistir ao bloqueio. Essa superação
só é possível porque a população
e o governo adotaram o que chamamos de cultura de resistência.
Não basta apenas a política de governo, temos
um povo que acredita na sua revolução. Por isso,
afirmo que o bloqueio nunca foi determinante para decidirmos
se continuaríamos sendo socialistas ou não,
se perderíamos a nossa dignidade ou não. Agora
com a alternativa boliviana para as Américas acreditamos
que os efeitos do bloqueio possam ser superados.
OS
BALSEIROS
Quando o jornalismo internacional tenta atingir Cuba
com notícias que não são verdadeiras,
qual a reação dos cubanos?
Realmente, são ditas tantas mentiras e são tantos
os absurdos veiculados pela imprensa que os ideais da revolução
cubana acabam sendo ainda mais valorizados pelo nosso povo.
É um povo que tem instrução e discernimento.
Não fosse isso, a rádio José Martí,
com sede em Maymi, que transmitia uma programação
direcionada aos cubanos, com interesses políticos e
ideológicos, com notícias mentirosas sobre o
nosso país, e com o claro objetivo de acabar com o
socialismo em Cuba, teria êxito. Mas há jornalistas
e jornalistas e sabemos que dependendo de como abordam o assunto
podem ser favoráveis ou não a Cuba. O povo cubano
mesmo vê que as notícias que são publicadas
são mentirosas, carecendo
de maior investigação.
E os balseiros e os dissidentes?
Este é um problema que foi patrocinado pelos EUA. Os
dissidentes recebem inclusive ajuda financeira norte-americana.
Mas a maioria da população tem discernimento
e fatos dessa ordem acabam justamente aguçando os valores
éticos, ideológicos e morais do nosso povo e
da própria revolução cubana. Se eles
pensam que vão acabar com o socialismo em Cuba estão
muito enganados. Cuba é um país socialista e
vai continuar sendo socialista, com ou sem dissidentes, com
movimento de balseiros ou não.
TELEFONE CELULAR, INTERNET,
COMPUTADOR
Como tem sido para os cubanos a questão das
novas tecnologias como internet e telefonia celular?
Cuba é um país com limitações
econômicas e com escassez de recursos, por isso o governo
se preocupa em garantir que esses recursos sejam bem distribuídos,
de forma que mesmo sendo pouco, que haja o mínimo necessário
para todos. Não podemos esquecer que a internet é
controlada pelos EUA e que computadores e aparelhos de telefone
celular são produtos caros. Estamos nos articulando
com a Bolívia e com a Venezuela para formarmos uma
rede segura e para promover intercâmbios nesta área.
A telefonia está crescendo muito e seguirá crescendo,
devido ao incentivo do governo que traçou metas neste
sentido. Para nós a tecnologia não se restringe
a equipamentos como computadores, internet e telefonia celular,
pois pensamos em novas tecnologias na área da saúde
e da educação. Cuba investiu em modelos sociais
e tem contribuído enormemente para a ciência
mundial. Levamos estas contribuições para países
como Bolívia, México, Nicarágua, Venezuela
e o próprio Brasil. Nosso país constituiu um
modelo próprio para colocar a tecnologia a serviço
da universalidade da saúde. Estamos formando um novo
modelo para médicos latino-americanos. Da mesma forma
que somos muito respeitados pelo que desenvolvemos na área
da pedagogia. Esta tecnologia Cuba não vende e sim
troca com países com os quais tem relações.
BLOCO
LATINO-AMERICANO DE ESQUERDA
Qual a sua opinião sobre a formação,
na América Latina, de um bloco de países que
são socialistas, ou de esquerda ou que têm como
prioridade de governo as questões sociais?
O problema é que na política tudo o que não
serve para o imperialismo é tratado como comunismo.
Há governos que são progressistas sem serem
comunistas ou socialistas. São governos de esquerda
na América Latina e que independente de serem socialistas
ou mesmo comunistas, têm um perfil nacionalista. Então
por serem países progressistas, aplicam e investem
seus recursos em programas e projetos em benefício
de todo o povo, são governos que tratam sua população
com dignidade. O fundamental é que está se constituindo
uma oposição ao imperialismo norte-americano,
não importando se determinado país é
maoísta ou é marxista. O que importa é
que está se formando uma unidade do povo latino-americano,
para seguir existindo como povo, como região, pois
o imperialismo quer acabar conosco.
O TURISMO
Uma das principais fontes de recursos de Cuba é,
sem dúvida alguma, o turismo. A abertura ao turismo
fez crescer a prostituição em Cuba? Qual a sua
opinião a respeito deste fato?
A prostituição é a atividade mais antiga
do mundo. A abertura para o turismo foi necessária
para salvar a revolução. Neste contexto, a prostituição
foi um mal menor, diante de uma iniciativa essencial para
fortalecer a economia do país. Cabe ressaltar que quando
falamos de prostituição, entramos em um tema
complexo. Se uma cubana quer namorar um estrangeiro, para
o mundo esta cubana é uma prostituta. Mas se o mesmo
ocorre em outro país, a situação não
é colocada da mesma forma. Isso também é
resultado do embargo que sofremos, que está acompanhado
de um grande preconceito e de uma enorme discriminação.
Eu não estou dizendo que não existe prostituição
em nosso país. Não estou santificando Cuba.
Mas o que é interessante ressaltar, e que torna-se
curioso, é o fato de que existe prostituição,
tráfico de drogas em todo o mundo, mas quando se trata
de Cuba está questão ganha outra dimensão,
o problema se multiplica por mil. Isso ocorre, na minha opinião,
porque há uma intenção de fazer de Cuba
a “ovelha negra” do mundo.
AS PRISÕES EM CUBA
Como são as prisões, como são
tratados os dissidentes?
São muito boas as condições carcerárias
em Cuba, pois nosso sistema preserva a qualidade de vida dos
presos e busca reeducá-los e reintegrá-los à
vida social. As prisões não são simples
confinamentos de pessoas, temos presos que freqüentam
a universidade, por exemplo, e podem voltar aos poucos ao
convívio social.
Sobre os dissidentes, temos posições bem fortes
e somos firmes em relação a eles. São
pessoas financiadas pelos EUA para agir contra o país.
Não são simplesmente dissidentes, são
mercenários. Há terroristas que estão
recebendo dinheiro para implantar uma facção
em Cuba, em função do bloqueio se formou, uma
máfia cubano-americana. Esta máfia lucra muito
com a entrada de dólares no nosso país e por
isso o embargo econômico se tornou um grande negócio
para eles.
PENA DE MORTE
E sobre a pena de morte?
Sobre a pena morte é preciso que haja a aprovação
do Conselho Distrital, que a ratifica ou não. Recentemente
foi suspensa a pena de morte para um grupo de presos. Isso
depende muito de cada caso e da análise que se faz
dos fatos.
OS
PRESOS POLÍTICOS
E o tratamento aos presos políticos?
Os presos políticos são tratados da mesma forma
que são tratados os demais presos... E em relação
às denúncias de que presos políticos
são submetidos a torturas e maus tratos são
mentiras absurdas. Afirmo que todos os presos são tratados
dignamente. Falam tantas mentiras sobre Cuba, inclusive a
de que não se deu água para os presos políticos,
o que já teria ocasionado a morte de alguns. Isso é
um absurdo, uma tremenda mentira.

|