A memória longa
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entrevista

 


Na parede do escritório, que é também uma pequena biblioteca, um pôster com fotos de Salvador Allende, no momento da resistência ao golpe militar de 1973, que obrigou ao bombardeio aéreo do Palácio de La Moneda, mostra o que representou viver no Chile para o então estudante de economia, e depois operário, Ubiratan de Souza. Atualmente, morador de um apartamento num condomínio de classe média na zona sul de Porto Alegre.

O jovem militante da VPR (Vanguarda Popular Revolucionária), uma organização que pegou em armas contra a ditadura brasileira instaurada em 1964, chegou ao Chile a 13 de janeiro de 1971. Ele foi um dos presos políticos trocados pelo embaixador suíço Giovanni Enrico Bucher, seqüestrado pela VPR. No exílio, viveu intensamente a experiência da transição pacífica para o socialismo que o Governo Allende tentou empreender nos primeiros anos de uma das décadas mais conturbadas na América Latina.

Ubiratan de Souza só conseguiria se formar em economia na UFRGS em 1984, depois de retornar ao Brasil com a Anistia em 1979. Hoje é assessor técnico do deputado petista Raul Pont, na Assembléia Legislativa Gaúcha. Depois de escapar da tirania de Pinochet, morou em Cuba e na França. Nesta entrevista, ele relata sua visão do que se passou na terra do poeta Pablo Neruda após a vitória da Unidade Popular nas eleições de 1970.

Leia a entrevista de Marcelo Dorneles
Coelho com Ubiratan de Souza


Como te engajaste naquele momento histórico vivido pelo Chile, quando o Governo de Salvador Allende começava?

Os partidos da Unidade Popular nos receberam, nós, exilados brasileiros, muito bem. O próprio presidente, Salvador Allende, esteve conosco em Valparaíso. Garantiu toda assistência médica e social, uma vez que muitos haviam sido torturados pelo regime militar, quando presos. Lembro que ele citou o fato de que um navio estava saindo para Cuba, se alguém quisesse ir pra lá. Em toda a América Latina, as ditaduras já estavam estabelecidas. Havia milhares de exilados de vários países. O processo chileno, de via pacífica para o Socialismo, era muito rico. O Partido Radical, que era de centro, naquele momento apoiava o governo. Éramos muito procurados pela imprensa e pelos partidos, nos perguntavam sobre o golpe militar de 1964 no Brasil. Comparávamos muito o momento chileno com o do período de Jango, no início da década de 60. Sabíamos e dizíamos que poderia haver um golpe de estado, organizado pelas elites e os Estados Unidos. Então, fui nomeado pela VPR coordenador da organização no Chile. Saí para treinar luta armada em Cuba, no meio de 1971, e voltei ao país da América do Sul em março de 1972. Não havia nenhuma condição de retornar ao Brasil.
Passei a trabalhar em uma fábrica, administrada pelos trabalhadores. Os empresários grandes e médios começavam a fechá-las para boicotar o Governo Allende. Então os trabalhadores as tomavam, passavam a ocupá-las contra a sabotagem. Noventa e uma empresas sofreram intervenção. O Conselho de Administração tinha um interventor da administração central, um representante do Sindicato da categoria dos operários e um eleito por sessão da indústria. Foi uma experiência muito rica de gestão, e eu queria mesmo aprender a profissão de torneiro mecânico. A politização e a capacidade de organização popular eram elevadas, porque o povo chileno já possuía boa cultura escolar, entre outras qualidades.

Pesquisadores que analisaram a experiência do Governo Allende afirmam que foi um erro não estabelecer um conjunto de regras, um arcabouço jurídico, antes de desencadear as reformas como a nacionalização do cobre. Uma iniciativa sugerida por intelectuais brasileiros como Darci Ribeiro, no sentido de ampliar o consenso em torno das medidas. Concorda com esta visão?

Não concordo. Os processos de transformação, em um contexto de luta de classes, são empíricos, e não científicos. A tese até tem lógica, mas a premissa é equivocada. A direita chilena e a Embaixada dos Estados Unidos pegaram em armas desde o início, pressionando para que Allende não fosse empossado. Não havia espaço para o diálogo entre os extremos. Com ajuda direta da Representação dos EUA, fato confirmado pelo Embaixador da época, hoje aposentado, entraram armas para matar o general legalista, Scheneider, que defendeu a posse do Allende, em 1970. A Unidade Popular obteve a maioria não absoluta, em torno de um terço dos votos, e foi referendada pelo Congresso Chileno. Para mim, a organização popular foi um grande marco do Governo Allende.

É possível dizer que, obviamente no contexto da Guerra Fria, a polarização mundial entre a União Soviética e os Estados Unidos, o governo de Allende também foi vítima, digamos, de conceitos ortodoxos de Socialismo, não pensando em um projeto de mais longo prazo?

O programa de Allende da unidade popular foi original, a começar pela proposta de via pacífica para o Socialismo. Penso que as elites, historicamente, quando perdem eleições, conspiram na América Latina. A mobilização popular no Chile foi mantida o tempo inteiro. E medidas como a nacionalização do cobre foram mantidas até pela ditadura de Pinochet. Não pela questão ideológica, mas pelo que isto representou de recursos para o Estado Chileno. Foi apenas com o primeiro governo eleito depois do regime militar, o de Eduardo Frei, que aliás foi uma das lideranças que conspirou contra Allende, a entrega do cobre para a iniciativa privada. Se hoje esta matéria-prima estivesse 100 % estatal, o Chile, com os altos preços dela, estaria nadando em dinheiro, para investir em Educação e Saúde. Já o que foi implementado pelos neoliberais de Chicago, trazidos para colaborar com a ditadura pinochetista, só aumentou a desigualdade social e acabou com setores importantes da indústria nacional chilena.

Havia possibilidade de resistência ao golpe, ou as sabotagens, a movimentação dos setores refratários às transformações, efetivamente, inviabilizaram uma vitória dos apoiadores do Governo Allende?

O comércio foi incentivado pela CIA, o serviço secreto dos EUA, a esvaziar a rede. Pagavam em dólares os caminhoneiros para haver desabastecimento! Outras formas de distribuição também foram boicotadas, com o mercado negro aparecendo. O Governo Allende estruturou um organismo central, a Codina, que garantia os alimentos básicos para o comércio varejista. E não só ela, mas também as Japs, Juntas de Abastecimento e Preços. Eram comitês populares por quarteirão, que organizavam o consumo. Tão logo a administração garantia que a comida fosse entregue aos armazéns, informava estes grupos que iam até eles e enfrentavam o problema. Exigiam que se ali tivessem sido entregues frangos, por exemplo, que cada família da região pudesse comprar uma determinada quantidade da carne. Quando os supermercados se negavam a abastecer, a população organizada tomava os estabelecimentos.

Mas o sectarismo de setores da esquerda não contribuiu para o desfecho de setembro de 1973?

Não concordo com isto, de maneira alguma. Para mim, seria até um desrespeito à memória dos que, do modo que acharam melhor, lutaram pelo Socialismo. Allende, com toda a conspiração, em março de 1973, nas eleições parlamentares, teve o apoio aumentado de 36 para 43% dos votos nas eleições parlamentares. Em junho de 1973, com todo o boicote, os golpistas viram que era real a possibilidade de uma reeleição. Organizaram o “Tancaço”, tentando antecipar a derrubada do governo, e o Exército prendeu os conspiradores, sendo que daí houve uma grande manifestação popular, pedindo para fechar o Congresso, porque a direita parlamentar fazia sua parte, impondo o impeachement de ministros, o que a Constituição Chilena permitia. Vários setores populares, da esquerda, queriam novas eleições. Allende, como democrata convicto que era, não aceitou. Ele levou ao extremo a via democrática, quando a burguesia violava a Democracia.
Foram abertas negociações com a Democracia Cristã, oposicionista, para reformar a Constituição. Então, a direita, as elites locais e o imperialismo apressaram o golpe. Porque estavam sendo derrotados pela via democrática.

35 anos depois, qual o balanço? Onde estavas quando ocorreu o golpe?

Sou casado com uma chilena, que conheci nesta época. Vivemos um processo de radicalização democrática. Experiências democráticas participativas e de controle social, como o Orçamento Participativo, que ajudei a estruturar, passaram muito pelo aprendizado no Chile. Hoje, sem guerra fria, o capital financeiro e a mídia conspiram contra governos de esquerda eleitos. O Chile nos ensina que os democratas e socialistas devem ter a autodefesa como princípio legítimo. Eu estava numa cidade afastada de Santiago, chegamos a organizar a resistência, mas não houve possibilidade, os golpistas prenderam rapidamente os generais legalistas. Caí na clandestinidade em condições muito duras. Os militares agiam como os nazistas nos territórios ocupados pelas forças alemãs: cercavam um quarteirão, com seus aparatos de armas e luzes, e iam de residência em residência, atrás de quem procuravam. Houve casos de companheiros nossos, que foram escondidos na rede de esgoto e somente retirados quando o perigo passava! A ditadura lançou uma campanha contra estrangeiros, porque “teriam trazido o germe do marxismo e do comunismo para o Chile”! O resultado é que até turistas foram presos. Dois meses após o golpe, em novembro, consegui chegar a um refúgio da ONU. O lugar chegou a abrigar mil e duzentas pessoas. Em janeiro de 1974, fui para Cuba, mas aí já são outras histórias.