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especial
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Por
Marcelo Dorneles Coelho

Dezenas
de pessoas participaram do Seminário Preparatório
da Conferência Nacional de Comunicação,
promovido por diversas entidades da sociedade civil, representantes
de diferentes categorias profissionais, como psicólogos,
telefônicos e jornalistas. A Organização
Não Governamental Democracia, Inclusão Social
e Trabalho está participando do processo, ao lado do
Conselho Regional das Rádios Comunitárias, do
Conselho Municipal dos Direitos da Mulher, de Porto Alegre,
entre outras entidades, com o objetivo de promover uma mobilização
social pela conferência e propagar uma visão
crítica da grande imprensa, na luta pela democratização
dos meios de comunicação no Brasil, um país
em que 20 famílias controlam a quase totalidade deles.
Realizado no último dia 22, o encontro iniciou com
o tema da reestruturação do sistema e do controle
público. O psicólogo social Pedrinho Guareschi
explicou o que considera um fenômeno de “reificação,
ou naturalização, dos meios, especialmente a
televisão. Nos últimos 40 anos, ela estabeleceu
sua era, se tornou dominante, mediando a cultura moderna.
A realidade, hoje, é social e construída pela
mídia, 80 ou 90% dela”. O professor da PUC-RS
acrescentou que uma passeata de 5 mil pessoas “pode
virar um acontecimento privado”, se for ignorada pelos
meios de comunicação. O capital simbólico
se dá com a visibilidade do Poder”. Guareschi
trouxe um dado objetivo para enriquecer o debate: na BBC,
prestigiada emissora de televisão pública britânica,
cada notícia recebe em média uma abordagem de
seis minutos; nas redes privadas do Brasil, 40 segundos. “A
Conferência Nacional de Saúde transformou qualitativamente
o modelo, embora saibamos dos seus problemas, e com a Comunicação
pode acontecer o mesmo”, arrematou.
O professor da FAMECUS, também da PUC, Osvaldo Biz,
defendeu uma formação que permita ao cidadão
“ver a totalidade para além da televisão.
O educador deve transformar a informação em
conhecimento”, preconizou. O estudioso sublinhou que
a definição dos espaços para as notícias
já desconstitui a neutralidade. Lembrou que os meios
de comunicação no Brasil se caracterizam pela
concentração horizontal, vertical, propriedade
cruzada e o monopólio em cruz, com o quase-monopólio
de jornais, emissoras de rádio e tevê, sem contar
as revistas de circulação mais restrita, nas
mãos de famílias que deram envergadura nacional
a seus empreendimentos como a Marinho, ou que representam
oligarquias regionais como a Sarney no Maranhão, além
da Jereissati no Ceará. “A docilidade em relação
ao poder de quem tem tevês abertas, rádios e
jornais, garante uma emissora a cabo”, lembrou Biz,
citando o ex-executivo da Rede Globo, Bonifácio Sobrinho,
o Boni.
A professora da FABICO – UFRGS, Maria Helena Weber,
foi um pouco menos pessimista, ponderando que a História
do Brasil demonstra que o poder da mídia não
é absoluto, embora as questões essenciais da
terra e das comunicações não estejam
resolvidas no país. “A centralidade da mídia
no mundo contemporâneo se contrapõe à
necessidade da regulação”, afirmou a professora.
Ela questionou as dicotomias público/privado e político/estético,
ao argumentar que três novelas na Rede Globo “ajudaram
na eleição do presidente Collor de Mello, ensinando
como ver a política”. Para Maria Helena, uma
das perguntas fundamentais da conferência será
que pessoas formulam as políticas de comunicação
das instituições públicas. Os sistemas
financeiro, tecnológico e simbólico se imbricam,
e “os arranjos entre governos e mercados indicam falta
de interesse na discussão da qualidade dos conteúdos”.
Uma proposta para a conferência
O presidente da Federação de Jornalistas da
América Latina e Caribe, além de Vice-Presidente
da FENAJ, Celso Augusto Schröder, defendeu a necessidade
de conferências setoriais para os grandes temas que
interessam à nação. “Existe um
pensamento, que forja o senso comum, de que a mídia
é resultado e não agente político. Nossa
posição é de que ela não pode
estar acima das liberdades sociais, se negando a se submeter
a uma regulação pública”. O palestrante
lembrou o documentário produzido pela BBC “Muito
além do Cidadão Kane”, onde se demonstra
o absoluto estranhamento quanto ao que é o poder da
mídia no Brasil. “Um verdadeiro escândalo,
onde elites políticas, econômicas e midiáticas
se confundem, e onde existem 30, 40 projetos de lei engavetados
no Congresso Nacional, tentando estabelecer a regulação
pública”, asseverou. A novidade impactante para
o sistema, segundo Schröder, foi a inovação
tecnológica, com a digitalização, a transformação
das transmissões em comunicação e telecomunicações
em sinais elétricos. Os militantes pela democratização
da comunicação e os empresários agora
precisam se deparar com a digitalização da tevê
e a privatização das telecomunicações.
“O ministro das comunicações, que mais
se destacou nas gestões do presidente Fernando Henrique,
o falecido Sérgio Motta, não queria as teles
nas mãos de poucos. Elas estão entrando no sistema
de radiodifusão, e submetidas a leis parcas. Há
uma ameaça decisiva aos conteúdos nacionais”,
alertou o presidente da FEPALC. A crise tem gravidade, apesar
de acordos pontuais que a Rede Globo, por exemplo, poderá
fazer com as empresas, mas os setores estão se digladiando.
Os princípios propostos pelas entidades que o jornalista
representa – para a conferência – são
a liberdade de expressão, a regionalização
de conteúdos, a inclusão social, a densidade
cultural, a diversidade religiosa, as questões raciais
e de gênero, bem como a pluralidade cultural. Para o
dirigente sindical, é preciso universalizar a comunicação
como a saúde, mas “não o sistema atual,
privado e partidarizado. A sociedade precisa ter maior incidência
sobre o Estado e o mercado, do meu ponto de vista, através
de redes de controle”, sustentou Schöreder.
Nas perguntas do público, bons questionamentos sobre
a dicotomia consumidor/cidadão e o papel da escola
na formação para questionar a hegemonia atual
nos veículos. “Na UFRGS, meio que na contramão
das reformas curriculares de outras universidades, onde está
sendo enfatizada a área tecnológica, tornamos
obrigatórias as disciplinas de Comunicação
Política e Cidadania e Comunicação”,
revelou Maria Helena. “O consumidor pode ter uma condição
crítica, e não necessariamente se contrapõe
ao cidadão”, acredita o presidente da FEPALC.

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