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por
Marcelo Dorneles Coelho
O
esforço de cento e oitenta metalúrgicos, entre
os quais aproximadamente 25% de mulheres, para salvar o que
restou da falida Companhia Geral, já assegurou a eles
1200 clientes, espalhados pelas regiões sul, sudeste
e centro-oeste do Brasil. A atual GeralCop, uma cooperativa
operária, no entanto, já chegou com seus fogões
a lenha, panelas e máquinas de sorvete aos países
que formam o Mercosul, o Uruguai, a Argentina e o Paraguai.

A
GeralCop é uma das entidades apoiadas pelo Fundo Solidário
do Sindicato dos Metalúrgicos
Segundo
o fundador e diretor da cooperativa, Niro Barrios, ela passou
a existir formalmente como entidade em novembro de 2001, e
em março do ano seguinte, a fábrica, em Guaíba,
na região metropolitana da capital gaúcha, foi
reativada. “Hoje, temos assembléias constantemente
em qualquer dia de trabalho, de modo que a quase totalidade
dos participantes tem voz ativa na gestão. Há
coordenadores eleitos em cada setor, inclusive no financeiro”,
revela Barrios, por telefone, antes de uma viagem pelo país
para levar sua experiência a outros trabalhadores em
atividade econômica solidária. A renda dos integrantes
da indústria oscila conforme o faturamento, atingindo
uma média de 750 reais por mês.
E para a superação das enormes dificuldades
do início, a cooperativa contou com uma iniciativa
que se tornou referência em todo o Brasil: o Fundo Solidário
do Sindicato dos Metalúrgicos da Grande Porto Alegre.
“Para nós, o fundo tem um valor extremamente
significativo. Recorremos a ele algumas vezes, tanto pela
necessidade de capital de giro como de inovações
tecnológicas, na parte de equipamentos”, explica
o fundador da instituição gerida coletivamente.
Um desafio aos sindicatos
O presidente interino do Sindicato, Lírio Rosa, conta
que a idéia amadureceu a partir do lançamento
do Programa Fome Zero pelo Governo Federal. Foi em 2003 que
a direção, em uma assembléia, apresentou
à categoria o plano de descontar 50% do que representasse
aumento salarial real para um fundo. “Só que
a fome poderia acabar num dia, depois voltar. Então
decidimos ir mais longe e propor que a partir de 2004 descontássemos
0,8% de um salário por ano para este Fundo, fomentando
iniciativas de emprego e renda”, conta Lírio.
A categoria, porém, ainda ficava em dúvida sobre
até que ponto a atitude não configuraria um
apoio aos atuais integrantes do poder nacional, pelo fato
de que ele continuava se chamando “Fome Zero”.
Então, com a explicação do que a direção
da entidade pretendia, os metalúrgicos mais resistentes
foram se convencendo. E o Fundo recebeu o nome bem mais apropriado
de Solidário, sendo aprovado por unanimidade em reunião
no sindicato, que conta hoje com 10 mil associados, cerca
de um terço da categoria. Os dois terços não
sindicalizados, pelo acordo coletivo, também contribuem.
A
cada final de ano, a direção da entidade presta
contas em caprichados cadernos sobre o que cada cooperativa
ou entidade voltada para a gestão coletiva recebeu
e como foram aplicados os recursos. “Hoje, o Fundo Solidário
dispõe de 100 mil reais, mas a arrecadação
entra em novembro, e aí, ele poderá contar com
mais de R$ 200 mil”, antecipa o presidente interino
do sindicato. Cento e quinze projetos, de oitenta e cinco
grupos, já receberam apoio, e vinte, os quais se constituíram
neste ano, ainda não estão contabilizados. São
mais de três mil pessoas beneficiadas.
O comitê de avaliação, formado por dirigentes
sindicais, leva em conta, para liberar o dinheiro, se os coletivos
trabalham com os conceitos cooperativistas de gestão,
democracia e divisão dos lucros. “Nós
analisamos cada demanda, estabelecemos uma relação
de parceria e visitamos periodicamente as cooperativas apoiadas”,
garante Lírio. Uma máquina é passada
em comodato, ou seja, a propriedade fica com o sindicato,
que a cede e pode recuperá-la, caso a experiência
não dê certo. “Uma parte dos recursos não
é dada a fundo perdido, mas um empréstimo a
juros que chegam a quase zero por cento. Os grupos ganham
´um empurrão`, mas precisam caminhar com as próprias
pernas”, completa o presidente da entidade.
E
toda semana, chega um projeto novo. Para os Índios
Caingangues, na Lomba do Pinheiro, zona leste de Porto Alegre,
recentemente foi cedido maquinário para que agreguem
valor ao artesanato. Mais de trinta famílias indígenas
receberão um técnico, pago pelos metalúrgicos,
que trabalhará na instalação elétrica
e dará todas as orientações necessárias.
“Achamos que o papel do sindicato não é
só trabalhar para quem está empregado. Quem
está fora do mercado formal precisa ser incluído
socialmente. A economia solidária é a alternativa
para isso. Estamos inclusive estruturando uma cooperativa
de crédito para facilitar o acesso a recursos, sem
que os cooperativados precisem recorrer ao sistema financeiro,
com seus juros altíssimos. A proposta é para
a sociedade, e os trabalhadores se tornam autônomos,
adquirem capacidade de gestão, enfim, a economia solidária
é viável”, preconiza Lírio, que
admite o fato de que a entidade de crédito ainda conta
com pouco capital, “mas já faz pequenos empréstimos”.
Lírio
e Barrios lembram que a CUT aprovou em plenária a implementação
de instrumentos como o Fundo deste que é um dos principais
sindicatos operários da região sul em todo o
país. No Uruguai e na Argentina existem experiências
semelhantes. Em nosso país, os dois líderes
chamam a atenção para a possibilidade de que,
se centenas de entidades com adesões sólidas
das categorias profissionais tiverem uma iniciativa deste
tipo, milhões de trabalhadores poderão transformar
suas vidas através da gestão coletiva e da economia
solidária.

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