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NOTÍCIAS
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Quinta-feira,
24 de julho, 13h. Depois de dois dias e meio de marcha, mais
de 600 integrantes do MST chegavam à sede do INCRA,
em Porto Alegre, para reivindicar o atendimento de um acordo
que prevê assentar duas mil famílias no Rio Grande
do Sul ainda este ano. O primeiro prazo, de assentar mil famílias
até abril, não foi cumprido.
A
marcha começou cedo, antes das 7h. A alvorada no ginásio
da Federação dos Metalúrgicos de Canoas
foi às 4h. No meio da manhã, quando entravam
em Porto Alegre, os trabalhadores foram recebidos por um enorme
contingente armado da Brigada Militar. Todos foram revistados,
muitos colocados contra a parede, seus pertences vasculhados,
mesmo que se soubesse que nada “perigoso” seria
encontrado, como não foi.
Quando
a marcha foi interrompida pela polícia, os jornalistas
das grandes empresas de comunicação estavam
lá para captar que os sem terra seriam abordados como
criminosos. Nas notícias que escreveram depois não
estranharam isso. Pareceu-lhes justo ou normal. O que suas
imagens e textos nunca registram é que esses trabalhadores
organizados, homens e mulheres humildes, são humilhados
pelas forças de segurança. São oprimidos.
O noticiário os confunde (e é impossível
acreditar que faça isso inocentemente) com pessoas
oportunistas e violentas, mesmo quando são vítimas
do oportunismo do sistema e da violência de estado.

As
iniciativas do jornalismo independente, sejam elas tocadas
por jornalistas formados ou não, acabam sendo, quase
sempre, os únicos espaços em que movimentos
sociais que contestam a estrutura e a lógica do sistema
podem expor suas verdades.
Naquele
dia, enquanto a mídia corporativa selecionava uma ou
outra declaração oficial recolhida às
pressas, preparando as informações que iriam
novamente envenenar a opinião da população
contra um movimento popular legítimo; no momento em
que o superintendente Mozart Dietrich explicava a dezenas
de integrantes do MST, no auditório do oitavo andar
do INCRA, que está tentando adquirir áreas para
assentamentos, mas que não pode divulgá-las
nem para o próprio Movimento, com receio de que a informação
chegue aos latifundiários e que eles estraguem as negociações,
pressionando os fazendeiros a não venderem as terras,
como já fizeram antes, duas jovens lideranças
do MST estadual participavam, por uma hora e meia, de uma
espécie de entrevista coletiva informal concedida a
seis blogs gaúchos. Uma conversa franca, aberta, reveladora.
Dessas que nunca chega à população pelas
páginas dos grandes jornais e revistas.
Contraditoriamente
ou não, foi numa sala cedida pelo Sindicato dos Jornalistas,
no centro da cidade, onde encontramos Gilson, filho de assentados,
23 anos de idade e desde os quatro vivendo em acampamentos
e assentamentos, e Cristiane, também filha de assentados
e há dois anos acampada em Tupanciretã, formada
numa escola do Movimento em curso técnico agropecuário,
com habilitação em agroecologia, ambos integrantes
do setor de frente de massa do MST.
Entrevistadores:
Gustavo Türck (Alma da Geral); Claudia Cardoso (Dialógico);
Wladimir Ungaretti (Ponto de Vista); Hélio Paz (Resistência
pós-moderna); Rodrigo Cardia (Cão Uivador) e
Jefferson Pinheiro (Agência Subverta!).
Gustavo
(Alma da Geral): Você está a quanto tempo no
Movimento?
Gilson
(MST): Eu tinha quatro anos de idade... Hoje tenho 23 anos.
Gustavo:
Então você praticamente cresceu dentro do Movimento...
Gilson
(MST): Exatamente.
Cristiane
(MST): Antes de ir acampar eu morava com meu pai, que também
é assentado há uns oito anos, na cidade de Jóia.
Gustavo:
Qual a finalidade da marcha e a necessidade de fazer pressão
in loco no INCRA?
Cristiane
(MST): O principal objetivo desta marcha que iniciamos em
Nova Santa Rita é vir até o INCRA cobrar aquele
acordo que fizemos no final das marchas do ano passado, quando
íamos rumo a Coqueiros do Sul. O INCRA e o Ministério
Público Estadual assinaram esse acordo de assentar
mil famílias até abril, duas mil famílias
até o final do ano. E nós já passamos
da metade do ano e ele ainda não cumpriu nada.
Gustavo:
Vocês têm informação da quantidade
de famílias, que desse acordo eles assentaram?
Cristiane
(MST): Saiu agora uma área pequena em são Gabriel,
que cabe no máximo 40 famílias.
Ungaretti
(Ponto de Vista): Nós estamos num processo eleitoral
e ontem eu fotografei todos os candidatos a prefeito dessa
cidade, com seus respectivos cabos eleitorais, dentro da Federasul,
uma entidade patronal, e nenhum deles recebeu, como candidato,
os integrantes do Movimento que entraram na cidade de Porto
Alegre. O que vocês acham disso?
Gilson
(MST): No planejar a marcha nesse momento eleitoral, pensamos:
nós podemos sair às ruas, erguer as bandeiras,
dialogar com a sociedade, fazer o debate. Estamos num momento
eleitoral em que muitas forças e entidades da esquerda
estão envolvidas nas campanhas...
Sobre
o fato de não nos receberem, nós do Movimento
Sem Terra apostamos no Lula e ele não deu retorno nenhum
pra nós. Chegamos até a dizer que ele traiu
a classe trabalhadora. Portanto, dali pra frente (da sua eleição),
não apostamos mais em candidato e não acreditamos
mais em mudanças radicais através apenas do
voto – no supermercado Nacional, que nós íamos
fazer um ato em frente, nós estávamos denunciando
o capital, então veio a repressão – é
necessário outro argumento, fazer um outro fato da
democracia, além do voto. Porque pelo voto, pelos candidatos,
pelos governos não se pauta e não se faz nada
da classe trabalhadora, dos pobres e dos oprimidos.
Ungaretti:
Eu acompanhei a marcha e percebi que a imprensa, a mídia
corporativa, só estava presente exatamente no momento
em que a Brigada Militar começa a revista. Ela não
acompanhou a marcha, só está presente num ato
de revista de vocês. E, como jornalista tenho uma opinião
por que isso acontece dessa forma. E mesmo que possa parecer
óbvia a pergunta e a resposta, eu gostaria de escutar,
vocês estão enxergando a forma como a mídia
corporativa, a grande mídia faz a cobertura dos fatos?
Gilson
(MST): Na verdade, não deu tempo ainda de fazer reflexões
mais profundas do que aconteceu hoje quando a Brigada nos
parou e revistou. Então vou colocar mais uma opinião
pessoal minha do que representando um coletivo, mas o sentimento
que dá de a mídia estar no local, na hora em
que tem um pelotão da Brigada esperando a marcha dos
Sem Terra que vinha e vai dar de frente com eles, é
justamente que a mídia do alto escalão, que
é como nós chamamos, ela não está
interessada... Nós podemos marchar 40, 400, 500km...
Ungaretti:
Vocês têm consciência do número de
pessoas trabalhando lá dentro (da marcha), até
travestidos de jornalistas, mas que na verdade são
dos serviços de Segurança, fotografando e filmando
vocês? Hoje eu vi vários, que aparentemente são
jornalistas e que, na verdade, são funcionários
da Segurança (do Estado). Por que estou fazendo esta
pergunta? Porque esta era uma prática da ditadura.
Em princípio, vivemos num país democrático,
e isso não poderia ocorrer hoje. Esta prática
de fotografar o rosto de quem está participando de
atividades de movimento sociais é ilegal. Vocês
têm consciência de que isso está sendo
feito?
Gilson
(MST): Não diria que nós temos consciência,
mas sabemos que a repressão é tanta, principalmente
no Rio Grande do Sul contra os movimentos sociais, e especialmente
contra o MST, que tem pessoas infiltradas nos acampamentos,
nas marchas, nos assentamentos. Então, nós estamos
sendo pesquisados, passo a passo que nós demos. Tem
oito companheiros nossos que estão sendo processados
pela tal de Lei de Segurança Nacional, que é
da época da ditadura. Então nós entramos
num momento muito difícil, o MST e outros movimentos
sociais.A tática do capital e do governo é sempre
tentar acabar pelos mais fortes, então como o MST é
o movimento que mais tem massa, que mais sai às ruas,
então atacam primeiro o MST, depois o MAB (Movimento
dos Atingidos por Barragens), o MPA (Movimento dos Pequenos
Agricultores), a UJS (União da Juventude Socialista)
e assim por diante.
Claudia
(Dialógico): Em Coqueiros despejaram vocês de
uma área legal do Movimento. Esta revista que sofreram
hoje é legal? Como é o aparato jurídico
pra vocês se defenderem desses ataques da repressão
do estado? Vocês estão revertendo isso?
Gilson
(MST): O que aconteceu em Coqueiros é que o estágio
da luta foi crescendo e nós tínhamos dois acampamentos,
o Josiel Alves e o dos cabritos, e as duas áreas eram
cedidas por apoiadores pra nós montarmos os acampamentos,
então estávamos legal.
A
justificativa da polícia e do Ministério Público,
que foi o MP quem desenvolveu um relatório nos processando,
é que os acampamentos ali geravam margens de conflito
na região e então tinham que ser retirados dali.
Eles retiraram o acampamento da área cedida pelos apoiadores,
os acampamentos tinham horta, plantavam mandioca, batata,
repolho, tinha 50 vacas, mais de 200 cabeças de porco,
tinha estrutura, escola... Tiraram dali e colocaram nas margens
da rodovia 386, em Sarandi, onde tinha interdito proibitório
da BR. Então, olha a contradição, eles
nos tiram de uma localidade cedida e colocam numa área
onde tem interdito proibitório, que não pode
ser ocupada por nenhum ser humano. Dali dois dias veio o oficial
de justiça dando prazo de uma semana para o acampamento
ser retirado de novo. Depois, fizeram uma negociação
para 90 dias. Estamos esperando pelo processo dos 90 dias,
provavelmente o acampamento vai ser retirado de novo. Temos
advogados que são apoiadores do Movimento Sem Terra,
que abraçam a causa, que estão tentando recorrer,
mas sabemos que nós não estamos lidando com
a Constituição, com a Lei, nós estamos
lidando com um estado que, independente de lei, está
fazendo tudo pra nos acabar. Até no relatório
do MP deixam bem claro: “É preciso acabar com
a espinha dorsal do MST”. Quebrar a espinha dorsal é
tu não andar, é aniquilar.
Jefferson (Agência Subverta!): De que forma esta estratégia
do MP está funcionando? Eles estão conseguindo
desmobilizar os integrantes do Movimento?
Gustavo:
Como está sendo na base do Movimento estas ações
da BM? Porque as pessoas nos acampamentos são simples,
é mais ou menos um terror que o Estado está
empregando na base do Movimento. Vocês já estão
sentindo algum efeito das pessoas estarem saindo dos acampamentos?
Cristiane
(MST): Nem tanto. Devido a alguns trabalhos de base que nós
fizemos com a companheirada, eles entendem que a luta deve
prosseguir, mesmo com este ataque, e que, por mais difícil
que seja esta fase, ela deve ser superada. Nós não
tivemos muitas perdas, mas é um processo bem difícil.
Ungaretti:
Em que medida, toda a política assistencialista do
governo Lula, com bolsa família, etc, está contribuindo
para um certo grau de isolamento? Está ou não?
O fato de ter toda uma política assistencialista, isso
também tem desmobilizado?
Cristiane
(MST): Isso influencia um pouco, e agora teve mais um aumento
de 7% da bolsa família, então, principalmente
na massificação, quando a gente vai conversar
no trabalho de base nas cidades, algumas pessoas não
vão acampar, justamente porque recebem essa bolsa família.
Às vezes, mesmo que more numa casinha que esteja caindo
aos pedaços, se ganham essa ajuda do governo, preferem
ficar ali, sabem que vão ter aquele dinheirinho no
final do mês, e pra que ir lá sofrer embaixo
da lona?
Claudia:
Estar dentro do Movimento traz um tipo de consciência,
de educação da importância de ser um acampado,
um assentado, a ponto de suportar toda uma repressão
do Estado e mais, de lutar compreendendo que se tem uma Constituição,
direitos, a começar pela terra. Vocês estão
pedindo por trabalho, querem trabalhar. Entendem que vão
sofrer um tipo de violência, mas estão lá.
Parece que isso dá até mais vontade de continuar
na luta mesmo. Eu venho da classe média, que está
completamente desmobilizada, completamente alienada. É
onde se acha que o MST é baderneiro, porque não
se pode trancar uma rua pro carro passar. Isso é muito
chocante, porque a princípio esta classe média
tem escola, tem sua casa... Como se dá esse processo
educativo, essa consciência da importância da
luta e de se viver assim, apesar de toda a adversidade? Porque
vocês são duas gerações que estão
vivendo na estrada. Eu que sempre tive uma casa, queria saber
como é o processo educacional, como se formam politicamente
esses jovens que estão na luta. Como se dá esse
trabalho de base?
Gilson
(MST): O Movimento Sem Terra, ao longo da sua história,
não é simplesmente um movimento que luta pela
terra. A terra é um caminho e um dos principais objetivos,
mas nada adianta chegar acima da terra sem minimamente ter
consciência política, então o Movimento
também trabalha pra isso. A gente sabe que não
é 100% dos que estão no Movimento, mas boa parte
das pessoas têm essa consciência. Esse trabalho
(de base), a receitinha pronta não tem como a gente
colocar, mas o Movimento tem uma militância bastante
jovem nos últimos tempos. E esta militância já
está desiludida quando vem pra dentro do Movimento.
Ela já meio que descarrega de tudo lá fora e
entra com tudo.
Pra
tu entrar pro Movimento, com todo o terror que a mídia
faz, todo o terror que muitas vezes as pessoas colocam sobre
o movimento: “Uma favela é mil vezes melhor que
o Movimento Sem Terra”, entendeu? Ou tu chega no Movimento
porque não tem mais pra onde ir, está perdido
na vida, ou tu chega no Movimento por consciência, porque
é filho de assentado ou porque tem simpatia. Nós
sempre dizemos que temos que ser também um pouco psicólogos,
porque a sociedade que nós vivemos tem e carrega vícios
e desvios humanos de monte. Então as pessoas chegam
no Movimento com um monte de vícios e desvios. Tudo
que vocês imaginarem pode ter...
E
aí se tem as linhas internas, começa a organização
interna, começa os debates, os estudos. O Movimento
tem curso de formação, formar militantes, tanto
do ponto de vista político, quanto do ponto de vista
formal, escolas... O Movimento tem esses cursos que no decorrer
da sua história, de tantas lutas, ele foi conseguindo.Então,
é muito esforço de parte da militância,
em fazer com que as pessoas compreendam o que é o capital,
o que é a mídia, o que é o estado, o
governo dentro do estado, quais as aparelhagens do estado,
por que a polícia... Isso nós tentamos minimamente
trabalhar com as famílias, com as pessoas, explicar
isso pras pessoas entenderem, porque senão elas não
permanecem no Movimento.
Gustavo:
Vocês fazem discussão internamente sobre a mídia?
Gilson
(MST): Sem sombra de dúvidas, porque as pessoas permanecem
porque têm um mínimo de consciência política,
senão elas não permaneceriam.
Ungaretti: Sou professor na área de jornalismo e os
últimos 20 anos é cada vez menor o número
de estudantes que estão diante de mim em sala de aula
que tem um determinado nível de compreensão
política do que está acontecendo no país.
E, na verdade, grande parte de todas as estruturas dos cursos
de jornalismo estão voltadas pra ensinar esse pessoal
segurar microfone, gesticular, falar bonito, onde bota a mão,
etc. Estou num local onde formam as pessoas que fazem a cobertura
dos fatos sociais e sei que essa cobertura é cada vez
pior. Nunca se fez um jornalismo tão ruim quanto nos
tempos atuais. Todos os jornais iguais, coloridos, com textos
de 30 linhas e eles dizem as mesmas coisas. Eu sou um professor
nessa área (risos) e, evidentemente, que não
vou ensinar isso. É importante que vocês tenham
consciência de que há toda uma mão de
obra que está sendo formada cujo objetivo é
reproduzir os interesses dominantes, e não é
desse tipo de universidades e desses cursos que vocês
vão tirar as pessoas, por exemplo, para serem bons
comunicadores. Eu não gosto desse termo “comunicadores”,
inclusive, uso “comunicologia”, pra ridicularizar...
Jefferson:
A postura do Movimento de não dar entrevista pra grande
imprensa, parte dessa consciência? Vocês continuam
não atendendo a RBS?
Gilson
(MST): A gente passa informações, por exemplo,
sobre a marcha, onde vai parar, que a gente vai fazer debate
com a sociedade, depois vai pro INCRA...
Gustavo:
Repórter da RBS bate o telefone, vocês respondem
pra ele?
Gilson
(MST): É. Mas entrevista televisionada, nas rádios,
nós não damos porque em outros momentos históricos
foi totalmente distorcido, saiu totalmente outra coisa na
televisão. É uma política do Movimento,
pras grandes mídias...
Gustavo:
Esse caminho da desilusão com a grande mídia
não é também no sentido de acreditarem,
num determinado momento, como acreditaram no Lula e se decepcionaram,
que podem usar esses veículos porque eles atingem um
grande número de pessoas e há, depois, a percepção
de que na realidade eles só utilizam o Movimento contra
si próprio?
Gilson
(MST): O Lula, é difícil falar se somos inimigos
ou não, acho que não se parte daí, mas
ele é simplesmente um representante do capital. Isso
acho que todos nós sabemos. Portanto, é preciso
bater no Lula pra bater no capital. Porque hoje em dia falar
em capital para as pessoas... Mas se tu falar em poder elas
já vão saber que é o Lula, pelo menos.
Então tem que falar do governo...
Gustavo:
Tem muita gente que traz a questão, dentro da própria
formação do jornalismo, de que a gente precisa
mudar a mídia internamente, é se empregar na
Zero Hora e aí sim conseguir fazer alguma coisa de
dentro do jornal. Isso é uma mentalidade que a gente
vê alguns movimentos usarem. O próprio PT, partidos
de esquerda, ao invés de montar um veículo novo
de comunicação, continuam tentando que a RBS
faça um jornalismo decente, continuam acreditando que
possa usar esses veículos. Como se deu esse processo
de descrença nos veículos, pra não dar
mais entrevista, foi porque viram que esses veículos
estão a serviço do capital também?
Gilson (MST): Todo mundo que sai às ruas, que faz algum
tipo de mobilização, procura se expor pra comunidade,
pra sociedade, colocar a pauta que está tentando transmitir.
Nós do Movimento Sem Terra não somos diferentes.
Quando fazemos uma ocupação no latifúndio,
nós tentamos colocar porque fazemos esta ação;
quando iniciamos uma marcha, divulgar o por que. Os meios
de comunicação deveriam ter o papel fundamental
de divulgar isso. Portanto, os grandes veículos de
comunicação, e outros médios também,
não cumprem esse papel de fazer a repercussão
das mobilizações dos movimentos sociais. Faz
alguns anos que nós não damos entrevista pro
Zero Hora e RBS, por essa questão de distorcer todos
os fatos. Tu diz que vai pra direita e eles colocam que vai
pra esquerda.
Ungaretti:
Existe alguma atividade concreta de aproximação
das posições e das experiências comunicativas
de vocês com as das periferias? Existe uma tentativa
de vocês romper com um certo isolamento se aproximando
da periferia das grandes cidades?
Jefferson:
Ouvi o João, companheiro de vocês do MST, falar
que na visão dele essa marcha tem a característica
da comunicação, da aproximação
do Movimento com as pessoas na rua, nos locais em que o MST
está se propondo a fazer debate, como nesse espaço
agora. Uma característica de agitação
e propaganda. Junto da marcha tem um grupo de pessoas fazendo
panfletagem, divulgando as propostas do Movimento. Como está
esse contato direto com a população, pra tentar
levar uma informação diferente do que esta que
é veiculada pela grande mídia?
Gilson
(MST): Em 1984, grande parte da população morava
no campo, então o Movimento dos Sem Terra se constituía
fortemente de campesinos, mas hoje pouquíssima parte
da população ainda mora no campo. E quem ainda
mora no campo é porque está lá encostado
num fazendeiro... Então o Movimento ainda continua
vivo porque automaticamente nos aproximamos da periferia das
cidades. Nesses últimos anos nós tivemos que
ir se aproximando, resgatando as pessoas. Porque muitos vieram
pras cidades com a perspectiva de arrumar algum emprego, com
a globalização, mas estão hoje nas periferias
catando algum lixo, às vezes nem isso, nem um cavalo,
uma carroça não tem pra fazer isso. Então
hoje nós temos vários contatos, até em
rádios comunitárias dentro das periferias, e
com a piazada do hip hop. Mas também não é
um afunilamento, dizer que estamos juntos.
Aproximamos
também pra colocar a nossa pauta da reforma agrária,
mas estamos aprendendo bastante com os trabalhos da periferia,
aprendendo muito porque de lá se tira lições,
tem grupos organizados... Ali, além de estar a pobreza,
de estar os seres humanos discriminados da sociedade, é
onde mora e se concentra as maiores forças da população.
Gustavo:
Mudou o perfil do integrante do MST nesses anos?
Gilson
(MST): Exatamente. Principalmente na Região Metropolitana.
Em outras regiões do Estado, de onde a Cristiane faz
parte, Região Sul, Fronteira Oeste, ainda a grande
parte dos companheiros tem o perfil de camponês. Agora,
na nossa região, tem gente com perfil camponês,
mas tem também uma grande parte que não tem
esse contato manual com a terra. O que a gente faz é
conversar com as pessoas, trazê-las para o acampamento
e lá internamente criar as condições
de ir trabalhando, mexendo com a terra, iniciar pela horta,
tem alguns cursos de agroecologia...
Gustavo:
Isso dentro do acampamento?
Gilson
(MST): Dentro do acampamento e fora. Às vezes se faz
experiências para os acampados nos assentamentos.
Gustavo:
Então a pessoa sai de uma periferia da cidade, ela
nunca trabalhou com a terra, mas precisa, essa fase de acampamento
é também de capacitação da pessoa
para depois que receber a terra estar...
Gilson
(MST): Exatamente.
Jefferson:
Esse é um ponto de incompreensão da sociedade,
porque a gente ouve muitas pessoas criticarem o Movimento
por conta disso, dizem que não são camponeses,
é gente das favelas... E usam isso pra dizer que não
é um movimento legítimo, como se a pessoa que
está hoje na cidade não pudesse voltar para
o campo.
Gilson
(MST): Todas as nossas origens são camponesas. Quando
nós falávamos de recuperação do
ser humano, das pessoas, porque muitas não sabem mexer
com a terra... Mas nós também estamos trabalhando
a questão do artesanato nos acampamentos e assentamentos,
porque às vezes eu vou acampar porque eu não
tinha o que comer, entendeu? No que tu sabes trabalhar? Então
tu vai fazer brinco, tricô, balaio, o que tu puder fazer.
Criar essas condições para que a pessoa se encontre
também...
Ungaretti:
Hoje de manhã, na arrancada da marcha, me chamou a
atenção o fato de que todo mundo tem uma função,
tem o que fazer, todo mundo tem um lugar, uma atividade. E
isso é uma coisa extremamente importante porque não
deixa a pessoa solta, jogada...
Jefferson:
Outra coisa que muitas vezes as pessoas pensam, e às
vezes com a opinião formada pela imprensa, é
de que as pessoas do Movimento não trabalham, não
fazem nada, e dentro de um acampamento se trabalha muito,
não é?
Cristiane
(MST): Dentro dos acampamentos, durante a semana, os acampados,
as famílias têm diversas atividades. Nós
temos os núcleos de base e cada um tem uma atividade,
cada pessoa que faz parte daquele núcleo tem um setor
ou a coordenação. E a coordenação
do acampamento é tirada dos núcleos de base.
Os setores têm reuniões pra se planejar, saber
o que se vai fazer na semana. Nós temos linhas políticas,
regras pras pessoas se habituarem e também respeitar,
porque a gente está num coletivo e às vezes
a gente trás da sociedade vícios e desvios.
É uma forma de a gente acabar resolvendo alguns probleminhas
que acontecem. E aí tem a escola itinerante também,
onde as crianças estudam, militantes que saem dos acampamentos
ou assentamentos fazem cursos nos centros do movimento e vão
contribuir nas escolas.
Gustavo:
Qual o núcleo que tu participas?
Cristiane
(MST): Desde que fui acampar, por já estar fazendo
um curso no Movimento e conhecer um pouco da organicidade,
eu já vim pra uma instância que é dar
alinhamento político do acampamento, que são
as brigadas de organicidade. As famílias indicam e
aquele grupo ali que, depende o acampamento tem de 12 a 15
pessoas, conduzem as reuniões, os problemas, os próprios
planejamentos. Não deixa de ser um núcleo, tem
uma responsabilidade...
Ungaretti:
Vocês recebem a oferta, a proposta de pessoas dispostas
a dar aula, fazer algum curso, atividade, trabalhar em algum
lugar para o Movimento? É comum, incomum, acontece
um professor chegar pra vocês: Olha, eu estou disposto
a trabalhar, o que vocês estão precisando?
Cristiane
(MST): Na nossa região acontece. Por exemplo, agora
temos uma companheira lá que é da Argentina,
e ela está ajudando no setor de educação
dando aula. Mas não sei se nas outras regiões
acontece isso também.
Claudia:
Quem dá aula são professores formados, assentados
mesmo, quem são?
Cristiane
(MST): Geralmente alguns militantes que fazem curso de Magistério,
que já tem uma caminhada, e algumas pessoas que têm
um conhecimento maior pra trabalhar com as crianças.
Gustavo:
A escola itinerante, que é legalizada e tem suporte
de Estado, recentemente houve uma tentativa de “deslegalização”,
digamos assim, pelo governo Yeda. Os acampamentos estão
sofrendo com falta de material e problemas na questão
legal das escolas?
Gilson
(MST): Essa situação da escola é bem
complicada com os governos. É legalizada pelo MEC,
principalmente as itinerantes, que são as escolas dentro
do acampamento. Porque nós temos o Iterra, em Veranópolis,
tem a Florestan Fernandes em São Paulo, que nós
temos cursos de pedagogia, educação, sociologia
rural, outros cursos políticos também. Essas
não dão tanto problema porque tem um prédio.
Agora, um acampamento não tem um local fixo por quatro
ou cinco anos, até porque muitas vezes a Brigada vai
lá e retira o acampamento. Então tem que ir
pra outro lugar e a escola vai junto, é itinerante.
Mas falta merenda, que não vem nas datas certas, material
“mal e porcamente” chega nos acampamentos. É
um desleixo total do Estado. Nós tentamos criar alternativas
de conseguir material, de conseguir alimento pras crianças
e nós mesmos ir tocando a escola itinerante da forma
possível e melhor que dá, porque se nós
esperarmos pelo Estado dar sustentação, não
existiria mais escola itinerante.
Jefferson:
De que forma a sociedade pode apoiar o Movimento, seja trocando
idéias, debatendo com as pessoas, seja apoiando materialmente
mesmo? Por exemplo, uma marcha despende recursos, estrutura...
Sem o trabalho dos apoiadores vocês conseguiriam fazer
a marcha, ou é fundamental nessas ações
receberem apoio? Pra quem descobre o MST como uma organização
importante e gostaria de colaborar, como faz?
Gilson
(MST): É fundamental a importância de ter pessoas,
companheiros e companheiras que nos apóiam, até
porque se nós não tivéssemos de pequena
parte da sociedade... A sociedade tem respeito pelo Movimento
dos Sem Terra. Pode não nos apoiar no geral, mas tem
um mínimo de respeito porque também não
é hoje ou ontem que o Movimento está aí
nas ruas batalhando. São vinte e poucos anos de história.
Tem dois tipos de apoiadores: aquele que vem pra luta, vem
pra dentro das escolas dar aula, e tem apoiador que simpatiza
com a luta, ajuda com roupa, com doação de material
pra escola, com leite quando o Governo não manda para
as crianças do acampamento. Tem o que ajuda com o ginásio
de esportes para a gente ficar quando se está passando
com uma marcha. Os dois perfis são importantes. O bom
seria que nós tivéssemos bem mais apoiadores,
que aí sim a gente conseguiria...
Ungaretti:
Então tem como as pessoas chegarem e se dispor a contribuir?
Gilson
(MST): Tem. Nós podemos deixar números de telefone,
endereço para as pessoas irem visitar os acampamentos.
É muito importante a visita nos acampamentos, porque
quem não conhece e está escutando essas últimas
notícias na imprensa, que foi aquele relatório
do MP criminalizando o MST, fica confuso, porque era um movimento
que fazia a luta pela terra e daqui a pouco está cortando
eucalipto, então as pessoas ainda não estão
entendendo o que está acontecendo. Então a importância
de ir a um assentamento, visitar um acampamento eu acho que
é um dos maiores apoios nesse momento, porque lá
sim a gente vai poder conversar, tomar chimarrão, falar.
E aí sim nós achamos os outros meios, ajudar
nós, nós também podemos ajudar outros...
Gustavo:
Uma campanha pras pessoas antes de falarem do MST irem lá
conhecer, que vão ser recebidos...
Gilson
(MST): Bem recebidos.
Claudia:
Vocês têm noção da reação
que houve a esse documento do Ministério Público,
inclusive, de juristas? Ficou horrível para o Ministério
Público Estadual, teve uma repercussão internacional
de revolta e eles tiveram meio que voltar atrás, dizer
que aquilo era uma ata de um conselho, mas fizeram uma retificação
depois. Vocês têm uma avaliação
disso?
Gilson
(MST): Temos. Algumas forças da esquerda que estavam
meio que distantes do Movimento Sem Terra, devido também
a algumas contradições no campo da política,
quando veio essa ofensiva... Na nossa avaliação
o MP foi usado como fachada. Por trás está todo
um outro corpo de interesses, das multinacionais, das transnacionais,
do estado... Mas no RS não deu tanta repercussão
quanto foi a nível nacional e internacional. No Estado
foi um pouco abafada a situação. Agora, em nível
nacional e internacional conseguimos mobilizar várias
figuras clássicas da sociedade, de cargos importantes,
presidente da OAB, documentos pra OEA...
Ungaretti:
Hoje eu observei, filmei, fotografei, que a postura de, vamos
dizer “boa condução” que a Brigada
Militar faz da marcha, é uma postura que assusta a
população e isola vocês da população.
A marcha vinha normal e aí quando ela entra em Porto
Alegre, sai de dentro do ônibus da Brigada Militar os
caras com armas, já tinha sido todo mundo revistado,
etc. E aí não havia nenhuma razão pra
que num determinado momento descesse todos novamente, armados.
O que me chamou a atenção foi que num momento
em que há uma grande visibilidade porque vocês
estão entrando na cidade, há um cordão
armado que assusta a população que está
vendo, e que isola vocês do restante da população.
Vocês se deram conta disso?
Gustavo:
Isso é uma prisão itinerante.
Ungaretti:
Porque vinha um cara da Brigada Militar caminhando, sem nenhum
problema, aí chega num determinado momento, logo ali
na entrada da avenida Farrapos, o ônibus pára,
desce os caras todos armados, botam um cordão que assusta
a população e impede, nitidamente, qualquer
relação de vocês com as pessoas.Gustavo:
A mensagem que se passa pra quem está de fora olhando
é: tu tem que ter medo daqueles caras lá...
Jefferson:
Mesmo que o Coronel diga depois que não encontrou nenhuma
arma, a Brigada já colocou o MST como um grupo a se
temer por conta desse aparato policial todo que se construiu
em torno da marcha...
Ungaretti:
Não encontrou nenhuma arma, não houve nenhum
incidente, não houve nada, não tinha nenhum
problema. Só que a estrutura que está acontecendo
é extremamente ameaçadora em relação
à população e extremamente de isolamento
em relação a vocês. Fiquei impressionado
com isso, assim como fiquei impressionado que a imprensa só
estava presente no momento da revista. Quer dizer, o que vai
ao ar hoje à noite no noticiário é a
revista. A idéia que passam é de que estão
protegendo a população contra o MST.
Gustavo:
A gente está derrubando alguns mitos nessa conversa,
que são clássicos em relação ao
MST. Tu disseste que fez um curso em Pontão numa escola
técnica, tinha curso de milícia, de guerrilha
lá? Fazer bomba? Me diz onde é isso, por favor.
(risos gerais)
Ungaretti:
Os instrutores eram das Farcs? (risos gerais).
Gustavo:
Quantas escolas dessas existem no RS e que tipos de cursos
são oferecidos? É só pra integrantes
do MST?
Cristiane
(MST): No Educar, em Pontão, tem principalmente este
curso técnico em agropecuária com habilitação
em agroecologia, que tem formação política
junto, mas não tem ninguém das Farc lá...
(risos). Tem o Iterra, em Veranópolis, que oferece
vários cursos, por exemplo, magistério, curso
de saúde, licenciatura... No Educar é pra Via
Campesina. No Iterra também. Via campesina é
do MAB, MPA... Às vezes um apoiador pode fazer, dependendo
da disponibilidade. O curso é subsidiado. Não
pagamos. Nós não temos condições
financeiras de pagar.
Gustavo:
Desde que eu conheci a fundo o MST, que foi no início
do ano passado, quando viajei pra todos os cantos do RS, vi
que literalmente o MST tem se tornado uma instituição
que é substitutiva ao estado em várias formas.
Age como reintegração social das camadas mais
excluídas da população das cidades, formação...
Essas escolas técnicas se subsidiam cursos para filhos
das pessoas que estão no Movimento, estão fazendo
uma escola pública. Como é a relação
das prefeituras com os acampamentos? Se o MST pega aquelas
pessoas e tira da cidade, que lá são um problema,
e lá no acampamento como há um processo de reeducação,
deixa de ser problema, reduz violência nas cidades e
uma série de coisas, como é essa relação
com as prefeituras?
Jefferson:
Coqueiros do Sul, por exemplo, companheiros de vocês
disseram que a prefeitura da cidade está sentindo falta
do MST, que os comerciantes estão sentindo falta do
acampamento, que a saída do acampamento repercutiu
na economia do município e tem muita gente querendo
vocês lá de volta.
Gilson
(MST): Isso que era um acampamento. Imagina se fosse um assentamento...
(risos gerais) Nesse relatório do Ministério
Público, tem uma parte que diz que o MST é um
estado paralelo. Nós não somos nenhum estado
paralelo, agora, nós tentamos criar coisas paralelas
que, minimamente, dê aos companheiros e as companheiras,
aos seres humanos uma vida mais digna. Talvez seja isso que
o MP e o Governo estão querendo falar. Porque não
estamos tentando criar um estado paralelo, não queremos
ter um presidente, até porque rejeitamos esse estado
colocado aí, a constituição dele, mas
queremos sim criar alternativas para que os seres humanos
tenham uma vida melhor. E aí as alternativas estão
colocadas, de estudo, profissão, de colaboração,
um monte de coisas. São muitas alternativas que nós
criamos para as pessoas se recuperarem. Não é
do dia para a noite que se recupera também. Alguns
não conseguem, saem, mais tarde voltam, e aí
conseguem. Então é um processo lento. Outros
conseguem mais rapidamente... Mas normalmente a maioria das
prefeituras tem uma política de isolar o Movimento
Sem Terra, que não é o caso de Coqueiros, que
tinha uma relação muito boa, mas a maioria das
prefeituras fazem um processo de isolamento, que é
não botar abastecimento de água potável
pro acampamento, não passar pra recolher o lixo, é
os companheiros, mulheres, homens e crianças não
terem ambulância pra levar ao posto de saúde,
é chegar no posto de saúde e ser maltratado...
Em muitos municípios que nós temos acampamentos
acontece isso, de rejeição do Movimento. Mas
não é uma rejeição geral dos companheiros
do município, é uma rejeição institucional.
As prefeituras costumam dizer: “vamos ter mais povo
e nós vamos gastar mais dinheiro, vocês não
estavam no orçamento, não estava previsto que
vocês vinham morar aqui”. Em Nova Santa Rita,
a relação com o atual prefeito não é
nada boa. Em Tupanciretã pode-se dizer que a relação
é tranqüila.
Jefferson: Pra quem acredita que o MST é uma organização
violenta, o que vocês têm a dizer?
Gilson
(MST): Essa ofensiva de tentar criminalizar nós enquanto
organização guerrilheira ou ter ligação
com as Farc não funciona porque o Movimento Sem Terra
é um movimento conhecido e reconhecido no Brasil e
internacionalmente, todo mundo sabe o porquê nós
fazemos a nossa luta, quais os objetivos, que é terra,
educação, a melhor vida pras famílias,
direito a ser um ser humano de fato. Que o estado compreenda
a nossa luta e que a população brasileira também,
que nos apóie.
Gustavo:
A pressão que houve em cima de Coqueiros, está
acontecendo em outros acampamentos no RS? Quais são
os pontos mais críticos no Estado, após Coqueiros,
nessa ofensiva contra o MST?
Gilson
(MST): O MST tem áreas símbolos. A Fazenda Guerra
é uma área símbolo do Estado e da Região
Norte especialmente, porque as famílias que são
daquela região querem ser assentadas por lá.
Elas tinham a Guerra como área símbolo pra pressionar
por assentamentos. Porém, o Estado, junto com o Ministério
Público começaram a desenvolver esse relatório
em sigilo e incluíram as áreas símbolo
nossas como táticas de tomada do poder. Dizem que a
Fazenda Guerra é porque fica na divisa com SC, saindo
do RS, e já tem outro assentamento ali que é
de Pontão (Anoni), aí aconteceu isso com o acampamento
de Coqueiros do Sul. A Granja Nenê é porque fica
perto do Pólo Petroquímico, e a argumentação
é de que nós podíamos deixar Porto Alegre
sem luz, porque passa o gasoduto, porque passa os trilhos
de trem, porque tem um rio, que é uma área estratégica.
E a Southal é porque fica na divisa com Uruguai e Argentina,
então pode-se escapar do país facilmente, e
porque passa os trilhos da América Latina Logística.
Isso foi usado como base no relatório. Então
tem os acampamentos Nenê, o de Pedro Osório e
um acampamento em são Gabriel que tem pedidos já
oficializados pelo Ministério Público, pra que
as pessoas não possam se mexer. Estão num processo
de congelamento dos acampamentos. Não pode se mobilizar
porque senão a Brigada faz a retirada. Então
a argumentação é essa: “estratégia
pra tomar o poder” (risos).
Ungaretti:
Um delírio. Fiquem vocês sabendo que existem
jornalistas que não são da mídia corporativa
e que estão dispostos a escrever, fotografar... É
importante que vocês saibam que tem gente nessa área
disposta a contribuir, a colaborar, colocar a sua experiência
como jornalista, como profissional, a disposição
de vocês.
Hélio
(Resistência pós-moderna): A grande mídia,
apesar de toda essa concentração na mão
de poucos, de criminalizar os movimentos, estar sempre ao
lado do poder, eles deixam uns furos. Hoje, felizmente pra
vocês, apesar do problema da criminalização
e da polícia, tem outro lado, viraram moda alimentos
sem agrotóxicos, alimentos não transgênicos...
Me
ocorreu que, nesse tipo de articulação que vocês
fazem com as periferias das grandes cidades, vocês chegam
a ensinar o pessoal a plantar alguma coisa? Chegar: “Se
vocês souberem plantar, esse alimento aqui é
bom, vocês vão poder vender para alguém,
manter os filhos de vocês perto”.
Esssas
pessoas vão ser os empregados domésticos, vão
ser os motoristas, os jardineiros da classe média ou
alta que tem ódio, aí quando o patrão
falar mal do MST eles vão dizer: não, senhor,
não senhora, não é assim.
O
grande problema é que a população rural
é pequena demais, e quem vive na cidade só vai
pro campo fazer turismo e não conhece nem se envolve
com as pessoas que são de lá. Então,
trazer o campo pra cidade. Em Nova Iorque tem gente que planta
em terrenos pequenos de 80m², muitos produtos agrícolas
diferentes, plantam flores comestíveis, vários
hortigranjeiros, verduras, quem tem galinha no seu quintal
troca ovo com o vizinho que tem alface e assim por diante.
Gilson
(MST): É uma experiência que eu acho que nós
vamos viver logo aí adiante. Não chegamos nesse
ponto do campo na cidade, porque o Brasil ainda é muito
grande.
Ungaretti:
Vocês sabem o que é permacultura?
Gilson
(MST): Vocês conhecem o centro de formação
aqui em Viamão? Ali estamos construindo uma biblioteca
bem grande sobre permacultura. Nós temos algumas iniciativas
de permacultura que funcionam ali.
Gustavo:
Como vocês estão vendo o cumprimento dessa agenda
de duas mil famílias assentadas, como vai ser a continuidade
dessa pressão? Porque o INCRA está sucateado,
principalmente depois que entrou o Guilherme Cassel. Como
o MST vai continuar a pressão pra que a agenda de duas
mil famílias seja cumprida?
Gilson
(MST): De uma forma ou de outra nós temos que continuar
se mobilizando e fazendo pressão. Não digo tanta
mobilização em massa, mas fazendo jejum, feira
da reforma agrária no centro da cidade, mostrando o
projeto do MST... Mas o governo estadual e federal não
tem projeto pra reforma agrária. Então, de fato,
vai ficar bem complicado pro INCRA assentar as duas mil famílias
até o final do ano, sem ter no mínimo um projeto
em nível nacional. Pra se ter idéia, os índices
de produtividade são de 30 anos atrás. Aí
o governo faz todo um discurso da tecnologia chegando ao campo,
mas os índices de produção são
de um boi por hectare, por exemplo. E tem uma lei, que diz
que a terra que não cumpre com sua função
social tem que ser desapropriada para fins de reforma agrária.
Portanto, o INCRA nunca vai encontrar essas terras porque
os índices de produtividade são de 1975. Se
encontrasse, não precisaria pagar em dinheiro, mas
nunca vai encontrar.
Jefferson:
Por que os índices de produtividade não são
atualizados?
Gilson
(MST): Não são atualizados por interesses da
classe burguesa. Se fossem atualizados os índices,
se faria uma reforma agrária no Brasil. Então,
boa parte do processo da reforma agrária não
depende da vontade do governo fazer, nem da vontade do MST
em se mobilizar. A reforma agrária sair está
nas mãos dos latifundiários venderem ou não
áreas pro INCRA. A Dilma Roussef falou na imprensa
que só vão ser desapropriadas áreas para
reforma agrária se o proprietário estiver de
acordo. Isso quer dizer que reforma agrária só
vai acontecer no país se o latifúndio estiver
de acordo.

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