|

NOTÍCIAS
|
|
por
Marcelo Dorneles Coelho
“Comece
a fazer o que é necessário, depois o que é
possível e de repente estarás fazendo o impossível”.
A frase pode ser lida na parede do fundo, que liga o primeiro
ao segundo piso da Cooperativa Univens (Unidas Venceremos).
No prédio branco, no bairro Sarandi, na zona norte
de Porto Alegre, logo à entrada se vê um pequeno
balcão de recepção, com um computador
em mesa adequada e um carretel como símbolo na tela.
O visitante se depara, à sua esquerda, com duas grandes
mesas e nove máquinas de costura. Para chegar até
a máquina de serigrafia, entretanto, terá que
subir um lance de escada, assim que entra, ficando em seguida
de frente para o espaço destinado a ela.
E
de fato, as vinte e quatro trabalhadoras e o trabalhador que
produzem de forma cooperativada, principalmente, camisas e
sacolas, começaram pelo necessário, fazem o
que é possível, e se aproximam do que talvez
parecesse impossível quando há doze anos, em
maio de 1996, decidiram se apropriar diretamente dos frutos
de sua atividade profissional, sem patrões e de forma
solidária. A totalidade das mulheres é de mães,
cada uma recebendo pelo tempo de trabalho para atender a mais
de trezentos clientes. “Os pedidos chegam pessoalmente,
por telefone ou Internet”, explica a presidente da entidade,
Nelsa Inês Nespolo. “E se continuar neste ritmo,
precisaremos de mais sócias”, acrescenta. A decisão
do coletivo foi no sentido de que elas próprias administrariam
as vendas, sem pessoas dedicadas exclusivamente à tarefa.
No
caso de mais costureiras se somarem, há pelo menos
um indício de que serão estimuladas a manter
firmemente o compromisso com a entidade. A eleição
da diretoria, bem como dos conselhos administrativo e fiscal,
acontece a cada três anos, e “a Cooperativa se
orgulha de ter quase cem por cento das associadas em cada
assembléia mensal”, diz Nelsa. A jornada é
de oito horas, com funcionamento das sete às onze da
manhã, e da uma às seis da tarde. Todas as trabalhadoras
são mães, e cada uma delas obtém a cada
30 dias uma renda variável entre 500 e 1200 reais.
“O comprometimento com o projeto garante segurança
por toda a vida”, sintetiza a presidente da entidade.
“Os maridos, que no começo ficaram em dúvida
se ele ia dar certo, hoje se orgulham do que realizamos e
confirmam que em alguns momentos de desemprego, a Univens
assegurou o sustento da família”, revela.
 

A
Evolução da Cooperativa
e da dona Isaurina
Foi através da troca de experiências, organizada
pela CUT, entre protagonistas da economia solidária,
que a cooperativa tomou conhecimento da possibilidade de financiamento
para comprar o prédio, através da Organização
Não Governamental Espanhola ACSUR, voltada para o setor.
Em 2004 foi elaborado o projeto, viabilizado com o surgimento
da ONG Democracia e Mundo do Trabalho, hoje transformada na
DIST, que recebeu os recursos equivalentes a 108 mil reais.
Em 2005, as trabalhadoras estavam com a sede própria.
Programas com outras ongs e o Banco do Brasil garantiram verbas
para os equipamentos. Nelsa explica que a organização
não governamental brasileira foi fundamental no estabelecimento
de parcerias com entidades para viabilizar a construção
do prédio. Além de facilitar a resolução
de questões de engenharia, por exemplo, através
de contatos com profissionais, a hoje DIST ajudou a encaminhar
o que era necessário na Prefeitura de Porto Alegre.
Se
o sonho de trabalhar coletivamente por conta própria
destas mulheres entre 26 e 62 anos se tornou sólida
realidade, existem outros anseios de crescimento e evolução
pessoal. Quatro delas têm o ensino médio completo.
A maioria não pôde concluir o antigo segundo
grau. Duas querem terminar a educação formal
fundamental, até o final de 2008, estudando à
noite. É o caso de Isaurina da Silva, uma das mais
experientes da cooperativa. De competência reconhecida
pelas colegas a ponto de ser tesoureira durante seis anos
e depois vice-presidente. “Uma experiência maravilhosa
aprender a trabalhar com o dinheiro, no coletivo e sem patrão,
lidando diretamente com o povo”, define Isaurina. “Não
tenho dúvida de que trabalhar lá fora é
pior do que aqui. Às vezes alguma colega enfrenta dificuldade,
até se revolta com alguma coisa, e eu sempre lembro
isso pra elas”, confirma.


Mudar
a vida delas próprias mostrou que vale a pena lutar
para que o país seja melhor. “Procuro passar
esse espírito pra comunidade, a importância de
se ajudar, formar cooperativa. A gente conversou, por exemplo,
com o pessoal que faz o jornal Boca de Rua (Moradores sem
Teto) sugerindo que tentem uma experiência como a nossa”,
completa esta senhora do Sarandi, bairro operário da
capital gaúcha.
O
centro social: outro
projeto em andamento

Há
dois anos, as mulheres do bairro Sarandi concretizaram outro
sonho. O projeto do centro social “Nova Geração”
surgiu em 2004. Agora, é quase uma realidade de plenos
benefícios, com cinco salas de recreação,
um salão, refeitório e dois banheiros. Quatro
educadoras trabalham na entidade, graças a uma parceria
com a Aldeia SOS Infantil. Todas são moradoras da comunidade.
Uma já é recreadora formada, e três fazem
curso, com a formatura prevista para 2.010. A Aldeia fornece,
ainda, uma pedagoga, uma assistente social e uma cozinheira.

A
ONG espanhola ACSUR também enviou os recursos necessários
para financiar a construção do prédio,
onde são atendidas 71 crianças de seis a 10
anos. As doações da comunidade igualmente ajudam.
No entanto, a administração em forma de cooperativa
ainda precisa passar por definições jurídicas.
Neste momento, nove sócias têm a responsabilidade
pela gestão, número mínimo necessário
para a formação de um coletivo desse tipo.

Registrado
como “escolinha popular” na prefeitura de Porto
Alegre, o centro atende a 40 crianças na creche e 31
no Jardim, no Maternal Um e no Maternal Dois. Os pequenos
fazem reversão de horário. Quem estuda de manhã
fica no local à tarde, e vice-versa. O terreno foi
assegurado graças à Unisol, uma União
de Cooperativas. As responsáveis pelo projeto acreditam
que vencerão todas as dificuldades, inclusive de ordem
burocrática, ao longo dos próximos meses.

|