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Notícia
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por
Alexandre Costa
Não
há dúvida que a época mais melancólica
da vida do cabo Frank foi o período em que esteve no
cárcere ou fugindo dos seus ex-colegas de profissão.
Durante o período em que esteve na clandestinidade,
Carlos Alberto Frank enfrentou situações complexas
e inusitadas. “Se por um lado fui preso porque um ´companheiro`
me delatou, por outro encontrei a solidariedade de onde menos
esperava”, avalia.
O
ex-cabo do exército,
Carlos Alberto Frank.
Frank
conta que um capitão, do qual jamais irá revelar
o nome, foi a sua casa para lhe levar um pacote de dinheiro.
“Isso aconteceu logo após a minha expulsão
das Forças Armadas.Tentei recusar, mas o capitão
me pegou pelo braço e disse que aquele dinheiro havia
sido entregue pelos meus colegas, que faria muita falta a
cada um deles, mas principalmente faria mais falta para mim.
Coloquei meu orgulho de lado porque senti que a tropa estava
solidária comigo, de fato estavam preocupados com o
que poderia me acontecer e realmente estavam certos porque
aquele dinheiro me foi muito útil”.
Exército nas
ruas, resistência ao regime e
manifestações populares contra o regime militar.
O
ex-cabo afirma que não era o único militar com
idéias subversivas. “Nós tínhamos
um grupo forte dentro do Exército, um grupo nacionalista,
muitos deles inclusive contribuíam para o partidão
(PCB), por isso aceitei o dinheiro que me ajudou muito mesmo.
Naquela época eu já tinha três filhos”,
explicou. Do período da sua expulsão do Exército
até ser preso novamente, Frank viveu em várias
cidades no interior do Rio Grande do Sul, do Paraná,
na fronteira com o Uruguai e com a Argentina. “Participava
de atividades da ALM e do PCBR e nós tínhamos
um grupo que sabia das principais ações revolucionárias
do estado, com ramificações no São Paulo
e no Rio de Janeiro”. Frank diz que a organização
ao qual pertencia era propositalmente desestruturada. “Eram
pequenas células que facilmente podiam ser dissolvidas
e por serem pequenas nos ajudavam a fugir da repressão”.
Na
clandestinidade, longe da mulher e dos filhos, Frank vivia
se escondendo para não ser preso. Não foram
poucas as vezes em que precisou dormir no cais do porto, dentro
de um vagão de trem e até mesmo em uma canoa.
“Uma vez havia um cerco em Porto Alegre, sabiam que
tinha gente nossa agindo próximo ao Cais do Porto e
montaram blitz em todos os acessos. Fiquei quase uma semana
dormindo no meio dos sacos de arroz, dentro de um armazém,
com ajuda de estivadores simpáticos à nossa
luta e à organização”.

Carlos
Alberto Frank lembra-se dos dois anos e meio de prisão
com muita tristeza. Ele conta que no período que ficou
isolado em uma solitária achou que ia enlouquecer.
“Os dias na prisão eram intermináveis
e eu estava perdendo a noção das horas”.
Detido sem qualquer ordem judicial, condenação
ou fundamento legal, o ex-cabo foi interrogado inúmeras
vezes, passou por sessões de tortura física
e psicológica. “Me colocaram em uma cela escura,
sem banheiro, a comida era misturada a porções
de terra e servida fria. Retiraram o papel higiênico,
a minha escova de dentes e não me deixavam tomar banho,
nem fazer a barba”, conta Frank. O ex-cabo diz que este
tratamento desumano era parte da estratégia dos seus
algozes para que se sentisse humilhado. “Me transformaram
em um verdadeiro indigente. Mas eu não perdi a consciência
do que estava ocorrendo. Achei que iam me matar e então
decido morrer com dignidade”.
Frank
conta que no Exército sempre foi determinado e isso
ajudou muito no período em que esteve no isolamento.
Como não tinha relógio, Frank não sabia
se era noite ou dia. Passou a se orientar pela troca da guarda.
“Para não enlouquecer, levantava junto com a
tropa e ficava andando na cela, que tinha no máximo
quatro metros. Fazia diversos trajetos caminhando sem parar
dentro daquele pequeno espaço. Intercalava as caminhadas
com exercícios, mas percebi que só isso não
iria adiantar e eles realmente iriam conseguir me deixar louco
mesmo. Então, passei a exercitar a cabeça. Enquanto
caminhava me lembrava de livros que havia lido, de temas importantes
para a sociedade da época, romances, poesia”.
Frank
lembra com humor de algumas passagens durante a ditadura militar.
Em determinado momento, o ex-cabo resolveu reagir às
péssimas condições no cárcere.
Conta que havia guardado pequenos pedaços de papelão,
retirados dos rolos de papel higiênico. Um dia um preso
da cela ao lado lhe ofereceu uma caneta. “O camarada
atirou no corredor a uns dois metros do meu alcance. Fiz um
canudo, com os jornais que estavam empilhados e onde eu dormia
e “pesquei” a caneta. Depois escrevi um bilhete
relatando as condições precárias na prisão.
Escrevi o título: “bilhete nº 1, enderecei
para a minha mãe e joguei o papelão no corredor”.
Passados dois dias, Frank escreveu um novo bilhete, trocou
apenas o título, onde escreveu bilhete nº 3. O
bilhete foi novamente atirado no corredor que dividia as celas.
“Minha
intenção não era de que alguém
entregasse a carta para minha mãe, mas chamar a atenção
dos oficiais para as condições desumanas que
eu me encontrava”. Poucas horas após jogar o
bilhete nº3, um oficial invadiu a sua cela, querendo
saber onde estava o bilhete nº 2. Frank falou a verdade
ao oficial, que havia escrito as cartas para chamar a atenção
e com isso melhorar o tratamento ao qual estava sendo submetido.
“Disse a ele que nem um cachorro sarnento era tratado
daquela forma. O oficial ficou em silêncio, estava muito
irritado, me escutou a contragosto, em seguida me fez algumas
ameaças. E foi embora”. Dois dias depois, continua
Frank, “eu tinha escova de dentes, papel higiênico,
pude fazer a barba e tomar banho. Foi uma “história
engraçada e uma conquista importante para aqueles dias
difíceis”.
Quando
o assunto é falar da organização, do
seu funcionamento estratégico e quem eram os líderes,
Frank desconversa. “Não gosto de citar nomes,
acho que é um cacoete daquele tempo, mas prefiro não
entrar nos detalhes. Tem gente muito assustada até
hoje”. Apesar disso, o ex-cabo está organizando
documentos que comprovam a atuação e o tratamento
dado aos presos políticos no estado. “Um dia
ainda pretendo fazer uma lista com o nome dos principais torturadores
e de seus chefes”, anuncia.
Manifestações
contrárias às torturas e mortes durante o
regime militar e presos trocados após seqüestro
de embaixador.
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