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ESPECIAL
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Por
Marcelo Dorneles Coelho

Em
tempos de revisionismo histórico, quando editorialmente
são criados neologismos para suavizar o regime instaurado
em 1964, é um dever se voltar para o período
que culminou na derrubada do presidente constitucionalmente
legítimo João Goulart, mais conhecido como
Jango, entender o que o golpe militar significou, os seus
desdobramentos essenciais e o que representou a transição
para um Estado Democrático de Direito, com todas as
suas limitações, após a abertura política “lenta
e gradual”.
Reformas
como a desapropriação de terras
ociosas, às margens das rodovias e açudes federais,
e a encampação das refinarias particulares
de petróleo foram anunciadas pelo presidente Jango,
no dia 13 de março de 1964, no Comício do Rio
de Janeiro realizado junto à Central do Brasil e ao
Ministério da Guerra. As greves aumentavam em número,
em um contexto de inflação de 75% ao ano. O
déficit governamental ultrapassava quinhentos bilhões
de cruzeiros. As mudanças no setor agrário
e as relativas à propriedade urbana, para distribuir
renda e acesso a benefícios sociais, estavam no horizonte,
apesar das dificuldades.
A
professora de História da América Latina
Contemporânea da UFRGS, e doutora em História
Social pela Universidade Federal do Rio de Janeiro, Cláudia
Wasserman, explica que há duas décadas dois
projetos de desenvolvimento do capitalismo se contrapunham
no Brasil. Um, “que pretendia a associação
(de parcelas do empresariado nacional) com o capital monopólico
estrangeiro e considerava que o único modo de desenvolver
o país era através de empréstimos e
inversões de fora”. O outro era um programa
nacional-desenvolvimentista que levava em conta, “ainda
que ingenuamente, a possibilidade de desenvolvimento autônomo
do capitalismo, mas que independente de sua viabilidade,
considerava que o país deveria defender menos do capital
estrangeiro, através da valorização
de capitais nacionais em pontos estratégicos da economia
e do controle da remessa de lucros para o exterior”.
O
professor César Augusto Guazzelli, doutor em História
também na UFRJ e mestre e professor na UFRGS, concorda
com a colega quanto ao fato da luta de setores das elites
e da cúpula militar de afirmar a primeira proposta
se imbricar com o anseio de desconstituir a hegemonia trabalhista-populista,
(enquanto direção política, ideológica,
capaz de gerar mobilização social) tornando
o Estado essencialmente coercitivo. Guazzelli lembra o fator
da Guerra Fria (polarização entre os “campos” dos
Estados Unidos e da antiga União Soviética),
com o fantasma da Revolução Cubana de 1959.
O golpe “só se tornou possível porque
os EUA já tinham trabalhado intensamente na busca
do apoio da cúpula das forças armadas latino-americanas,
por exemplo, através de cursos na Escola das Américas,
localizada na Zona do Canal do Panamá”. A pregação
da doutrina de um alinhamento absoluto com a superpotência
ocidental era especialmente importante no caso brasileiro, “onde
era significativo o contingente vindo das classes média
e baixa no Exército”. Os militares acreditavam
até mesmo em um mundo com o mínimo de civilização
pós-guerra nuclear entre a URSS e os EUA, onde o Brasil
e a China poderiam assumir o domínio, pelos recursos
naturais e industriais. No caso do país sul-americano,
haveria a necessidade de uma integração natural
e geopolítica, daí a explicação
para os grandes investimentos da ditadura em energia e tecnologia.
O
ex-deputado estadual, que era presidente do diretório
acadêmico da Faculdade de Filosofia na época,
Flávio Koutzii, atuava no Partido Comunista Brasileiro
e poucos anos após o golpe, num período de
profunda reflexão e autocrítica, ajudou a organizar
uma dissidência: o Partido Operário Comunista,
o POC. Em 1970, Koutzii, hoje assessor da presidência
do Tribunal de Justiça, partiu para o exílio
na França, depois no Chile, e na Argentina, onde atuou
no Partido Revolucionário de Los Trabajadores, adepto
da luta armada. Foi preso em 1975, e sofreu nos cárceres
da ditadura argentina, instaurada em 1976, até 1979.
Solto após uma campanha internacional por sua libertação,
voltou à França onde se formou em sociologia
na École des Hautes Études em Sciences Sociales,
em 1984, pouco antes de voltar ao Brasil. O ex-parlamentar
e a professora da UFRGS concordam quanto à relativa
falta de experiência democrática da nação
no momento da derrubada de Jango. Cláudia enfatiza
que houve intensa organização dos movimentos
sociais populares, no começo dos anos 60, tanto na área
rural, com as Ligas Camponesas, como na urbana, com fortalecimento
dos sindicatos. Quanto ao grau de evolução
deste processo, Koutzii discorda em parte: “O campo
progressista não estava suficientemente preparado
para a resistência. A Central Sindical, a organicidade
da classe trabalhadora, como um todo, era muito incipiente,
pois ela sempre fora tutelada desde o primeiro governo de
Getúlio Vargas”.
Resistir
era possível?
Quando
a primeiro de abril (o verdadeiro dia do triunfo dos golpistas),
os tanques tomaram as ruas e pontos estratégicos,
Jango foi para o Rio Grande do Sul, e “diante do conhecimento
que tinha da realidade, certamente parcial, considerou a
resistência um risco maior do que uma solução”,
diz a professora. Koutzii faz uma comparação,
lembrando que em outras circunstâncias históricas,
o próprio Getúlio e o presidente chileno Salvador
Allende, derrubado em 1973, deram fim às próprias
vidas, instituindo um elemento trágico-simbólico
como uma forma de estimular a resposta das classes populares às
ameaças reacionárias. Admite evidentemente
que Jango tinha total direito de escolher outro caminho,
mas considera que cogitar esta hipótese não
seria fora de propósito numa época em que os
golpes militares eram constantes, não só na
América. Na Indonésia, em 1965, a ditadura
instaurada matou setecentas mil pessoas.
César Guazzelli enfatiza que a esquerda tradicional
se equivocou ao achar que a burguesia nacional se oporia à modernização
com a ótica do capitalismo estrangeiro. As teorias
neoliberais já tinham influência desde os anos
50, pregando a diminuição do papel do Estado. “ E
se é verdade que os grupos médios urbanos ligados
ao setor de serviços, profissionais liberais etc,
estiveram em movimentos que derrubaram oligarquias rurais,
caso do México em 1910, não é incomum
que diante de reformas que começam no campo, mas podem
acabar na cidade, tomem partido do conservadorismo”,
acrescenta. Cláudia lembra que o período inicial
da ditadura desorganizou a oposição, com base
na cassação dos deputados, supressão
de partidos políticos e de eleições
para governos estaduais e presidência, além
de ficar marcado pela violência contra movimentos populares,
e as primeiras prisões, com torturas e desaparecimentos.
Com este processo, “de maestria na repressão
aos opositores”, que recrudesce com o Ato Institucional
Número 5 em 1968, o regime se consolida, mas uma parte
da esquerda se radicaliza considerando que pegar em armas
era a única forma eficiente de resistir à ditadura.
O essencial para entender esta alternativa seria o poder
da repressão.
O
professor coloca, ainda, a ressalva de que “falar
em um golpe dentro de um golpe pode dar uma idéia
de que ocorreu uma negação do que havia antes,
mas não foi assim. É fato que o então
presidente Costa e Silva era representante da linha dura,
diferentemente do anterior, Castelo Branco, mas os militares
moderados também haviam sido pró-golpe. Os
legalistas já estavam expurgados.” Guazzeli
também adverte que a ditadura não foi defensiva
e que representantes da direita propagam uma falsa versão
ao simplesmente conceituar a luta armada como terrorismo,
ainda que o medo social tenha sido uma realidade, inclusive,
pelo domínio dos meios de comunicação. “A
luta armada, para quem não queria sair do país,
foi uma resposta à violência do modelo de exclusão
e coerção imposto”, sintetiza. E um protagonista
daqueles tempos, Flávio Koutzii, que admite o AI-5
como um “aperto de parafusos do regime”, afirma
que pode ter faltado maturidade para valorizar os elementos
com potencial para unir as pequenas organizações
de esquerda. “O caminho por dentro do MDB (o único
partido legal de oposição) não vejo
como compatível e aceitável com o grau de radicalidade
sadia que tínhamos”, complementa o ex-preso
político.
Guazzelli
considera que a resistência política
ao regime nos primeiros tempos acabou tendo um alcance restrito,
em termos de intelectualidade, setores estudantis e parte
do operariado, ainda que tenham ocorrido a greve de operários
em Ozasco e a famosa passeata dos 100 mil no Rio de Janeiro,
em 1968. Fato é que o MDB só obterá uma
vitória eleitoral expressiva, contra a Arena (partido
da situação), em 1974. O período do
milagre econômico (assunto da próxima matéria)
tem relação com este cenário, mas a
professora Cláudia não julga plausível
o argumento de que uma estabilidade ou prosperidade econômica
possa dar longa sustentação a um governo autoritário
e excludente, em um país profundamente desigual. “Houve
antes a resistência e a reorganização
das oposições, junto com a tomada de consciência
das classes populares de que o país piorava a cada
passo sob a tutela dos militares”, contrapõe.
Sem deixar de combater a intenção de abrandamento
do que realizou a ditadura brasileira, Koutzii recorda que
numa população de 28 milhões, a Argentina
teve 30 mil desaparecidos e aproximadamente 20 mil mortes
(aí incluídos conflitos iniciados antes do
golpe de março de 1976), pelo alcance da repressão
até 1982. O ex-parlamentar sublinha que, diferente
do brasileiro, o regime lá foi claramente regressivo
também no âmbito econômico, desindustrializando
o país vizinho, ao privilegiar a meta de consolidá-lo
como “celeiro do mundo”. O que não implica
um elogio à ditadura brasileira, visto que “seu
modelo de desenvolvimento era caracterizado por evidentes
perversidades sociais”.
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