um conto...

A bailarina



literatura

 

 

 

por Alexandre Costa


As lágrimas lhe escorriam do rosto e ela já nem percebia mais, apenas enxugava-as, enxugava-as e voltava a brincar, como se pudesse disfarçar ou esquecer a saudade que sentia.

A menina tinha sete anos quando levaram o pai. Seu pequeno coração agora ditava o ritmo de uma tristeza cadenciada e que parecia não ter fim. A amargura tomou conta do rosto rosado e aprisionou o sorriso que antes era fácil, dócil, espontâneo e cativante.

O céu e as estrelas já não tinham mais graça, pois o que lhes dava brilho eram as histórias inventadas pelo pai. Cavalos e elefantes voadores que invadiam o mundo dos homens para trazer paz e justiça. Borboletas gigantes pintadas com as cores vivas da felicidade e da imaginação que, repentinamente, tornavam-se heroínas ao despejarem pequenas gotas de bondade sobre a terra, para que não existisse no mundo ninguém tão rico e que os pobres não fossem tão pobres.

Exércitos de formigas pacíficas e sedentas por livros, que multiplicavam a sabedoria dos homens e percorriam longos e ardilosos caminhos para fazer do planeta uma biblioteca imensa com histórias para todos os gostos e idades. Eram muitas as histórias, mas o pai não estava mais ali. Às vezes, a pequena tinha a impressão de ouvir a voz firme que lhe dava segurança ou o som dos passos do pai. Ele rompia o silêncio da sala, espalhando felicidade por toda casa, mesmo sem dizer uma única palavra.

Mas o que ela ouvia na verdade era a ausência de som, um silêncio absoluto, dono de uma melancolia patética, que engolia tudo como se fosse areia movediça. O calor daquela mão que muitas vezes a levou para passear, mostrando a ela caminhos novos de um mundo em grande parte desconhecido, agora tinha se transformado em um vazio mofino e gélido.Mesmo com apenas sete anos, a menina tinha uma capacidade ilimitada de transformar as situações adversas em coisas positivas. Usava artifícios e dissimulações ingênuas e delicadas como ela.

Um dos seus disfarces prediletos para macular a falta do pai era abrir o porta-jóias e dançar balé, ao som das metálicas melodias que escapavam da minúscula caixa, na qual uma pequena bailarina de porcelana girava seu corpinho no sentido horário formando anéis intermináveis em ângulos de 360 graus.

Às vezes, a menina vestia-se como uma bailarina e era como se também fosse de porcelana, com a mesma suavidade dos traços e com os mesmos movimentos circulares. Ela já havia se acostumado a ensaiar em frente ao espelho do seu quarto de menina. Forjava uma platéia, colocando um terno do pai, com gravata e tudo, acomodado em uma cadeira. Volta e meia, conversava com as roupas, como se dentro delas estivesse o pai. Um dia, a menina acordou cedo e encontrou a mãe fazendo as malas.

- Para onde vamos, mãe?
- Vamos para São Paulo. Descobri onde o teu pai está.

A chuva forte tornou a viagem duplamente tensa, não bastassem as turbulências da vida, mãe e filha viveram o pânico de uma tempestade que jogava a aeronave para cima, para baixo, para os lados. Indiferente a tudo, a menina se escondia atrás dos pensamentos.

Ela lembrou o dia anterior, quando foi dar um recado à sua madrinha. Era preciso dizer a ela que desaparecesse. Utilizaria uma frase decorada: "Dinda, a vó está doente e quer uma visita sua". Apenas isso, nada mais, nem uma explicação, nem uma virgula, nem um suspiro. Foi a mãe quem a treinou. E ela estava segura e certa de que nada lhe aconteceria. Sua tia mais nova, franzina, com jeito adoentado, nervosa por natureza e inocente como ela, o acompanhou na missão.

Chegaram ao edifício onde morava a madrinha e encontraram a porta aberta. Entraram, subiram os cinco lances de escada e chegaram em frente ao apartamento. Como a porta estava encostada, imaginaram que a madrinha já esperasse por elas. Quando entraram na casa da dinda foram surpreendidas por três homens enormes, armados e furiosos. Eles já haviam revirado prateleiras, armários e nada encontraram. Seguraram a tia nervosa pelo braço, colocaram o cano do revolver na sua testa e com uma das mãos taparam-lhe a boca, para que não gritasse. A menina percebeu o risco e correu em direção à janela, enquanto a tia se mijava pelas pernas.

- Eu vou me atirar, disse a menina.
- Se vocês não forem embora, eu vou me atirar, repetiu já se preparando para pular do quinto andar.

Um pavor violento tomou conta dos três homens, imaginando o escândalo protagonizado pelos policiais e a repercussão negativa se algo acontecesse à garota.

Os três travaram uma ríspida e repentina discussão. Aos gritos, foram se afastando e deixaram o apartamento da madrinha, que naquela hora estava a caminho do Uruguai.

O avião aterrissou em São Paulo, com mãe e filha sãs e salvas. Depois de dois longos dias, elas foram ao encontro do pai. Ele estava em um quartel, onde funcionava a Operação Bandeirantes, a temida OBAN. Enquanto os policiais interrogavam a mãe, ainda surpresos pela ousadia da mulher, que todos já acreditavam ser louca por visitar o marido e ainda levar a filha, a menina esperava no saguão, vigiada por um dos torturadores do pai, o famoso Tibúrcio.

- Eu posso ver o meu pai?
- Não, você vai esperar a sua mãe aí mesmo, bem quietinha, disse Tibúrcio.
- E se eu dançar balé para o senhor, você deixa eu ver o meu pai?

Tibúrcio olhou a menina e lembrou da sua filha, a mesma cor dos olhos e dos cabelos, o mesmo sorriso inocente, sem os dentes da frente e com os mesmos sete anos.

Parou, respirou fundo, trouxe-a para perto de si, colocou-a no colo. Ela sentiu a força do seu apelo, que desorientou Tibúrcio. A pequena se distanciou do homem, colocando-se em posição de ataque. Olhou fixamente para o algoz do pai e passou a dançar, fazendo círculos intermináveis, acompanhando o ritmo imaginário da sua caixinha de metal. A bailarina transformou-se em um pontinho de felicidade na sala escura. Fez uma coreografia e disse que se chamava Rosa. E feito uma flor, sem espinhos e com as pétalas carregadas de esperança, novamente perguntou ao homem:

- Posso ver o meu pai?



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