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ARTIGOS
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por
Boaventura de Sousa Santos
publicado pela Agência Carta Maior
Uma
leitura atenta dos textos dos sionistas fundadores
do Estado de
Israel revela tudo aquilo que o Ocidente hipocritamente
ainda hoje finge desconhecer: a criação
de Israel é um ato de ocupação
e como tal terá de enfrentar para sempre a resistência
dos ocupados; não haverá nunca paz, qualquer
apaziguamento será sempre aparente, uma armadilha
a ser desarmada. O artigo é de Boaventura Sousa
Santos.
Está ocorrendo na Palestina o mais recente e brutal
massacre do povo palestino cometido pelas forças ocupantes
de Israel com a cumplicidade do Ocidente, uma cumplicidade
feita de silêncio, hipocrisia e manipulação
grotesca da informação, que trivializa o horror
e o sofrimento injusto e transforma ocupantes em ocupados,
agressores em vítimas, provocação ofensiva
em legítima defesa.
As razões próximas, apesar de omitidas pelos
meios de comunicação ocidentais, são
conhecidas. Em novembro passado a aviação israelense
bombardeou a faixa de Gaza em violação das
tréguas, o Hamas propôs a renegociação
do controle dos acessos à faixa de Gaza, Israel recusou
e tudo começou. Esta provocação premeditada
teve objetivos de política interna e internacional
bem definidos: recuperação eleitoral de uma
coligação em risco; exército sedento
de vingar a derrota do Líbano; vazio da transição
política nos EUA e a necessidade de criar um facto
consumado antes da investidura do presidente Obama. Tudo
isto é óbvio mas não nos permite entender
o ininteligível: o sacrifício de uma população
civil inocente mediante a prática de crimes de guerra
e de crimes contra a humanidade cometidos com a certeza da
impunidade.
É preciso recuar no tempo. Não ao tempo longínquo
da bíblia hebraica, o mais violento e sangrento livro
alguma vez escrito. Basta recuar sessenta anos, à data
da criação do Estado de Israel. Nas condições
em que foi criado e depois apoiado pelo Ocidente, o Estado
de Israel é o mais recente (certamente não
o último) ato colonial da Europa. De um dia para o
outro, 750.000 palestinos foram expulsos das suas terras
ancestrais e condenados a uma ocupação sangrenta
e racista para que a Europa expiasse o crime hediondo do
Holocausto contra o povo judeu.
Uma leitura
atenta dos textos dos sionistas fundadores do Estado de
Israel revela tudo aquilo que o Ocidente hipocritamente
ainda hoje finge desconhecer: a criação de
Israel é um ato de ocupação e como tal
terá de enfrentar para sempre a resistência
dos ocupados; não haverá nunca paz, qualquer
apaziguamento será sempre aparente, uma armadilha
a ser desarmada (daí, que a seguir a cada tratado
de paz se tenha de seguir um ato de violação
que a desminta); para consolidar a ocupação,
o povo judeu tem de se afirmar como um povo superior condenado
a viver rodeado de povos racialmente inferiores, mesmo que
isso contradiga a evidência de que árabes e
judeus são todos povos semitas; com raças inferiores
só é possível um relacionamento de tipo
colonial, pelo que a solução dos dois Estados é impensável;
em vez dela, a solução é a do apartheid,
tanto na região, como no interior de Israel (daí,
os colonatos e o tratamento dos árabes israelenses
como cidadãos de segunda classe); a guerra é infinita
e a solução final poderá implicar o
extermínio de uma das partes, certamente a mais fraca.
O que
se passou nos últimos sessenta anos confirma
tudo isto mas vai muito para além disto. Nas duas últimas
décadas, Israel procurou, com êxito, sequestrar
a política norte-americana na região, servindo-se
para isso do lobby judaico, dos neoconservadores e, como
sempre, da corrupção dos líderes políticos árabes,
reféns do petróleo e da ajuda financeira norte-americana.
A guerra do Iraque foi uma antecipação de Gaza:
a lógica é a mesma, as operações
são as mesmas, a desproporção da violência é a
mesma; até as imagens são as mesmas, sendo
também de prever que o resultado seja o mesmo. E não
se foi mais longe porque Bush, entretanto, se debilitou.
Não pediram os israelenses autorização
aos EUA para bombardear as instalações nucleares
do Irã?
É hoje evidente que o verdadeiro objetivo de Israel,
a solução final, é o extermínio
do povo palestino. Terão os israelenses a noção
de que a shoah com que o seu vice-ministro da defesa ameaçou
os palestinianos poderá vir a vitimá-los também?
Não temerão que muitos dos que defenderam a
criação do Estado de Israel hoje se perguntem
se nestas condições - e repito, nestas condições
- o Estado de Israel tem direito de existir?
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