Há mais
de 60 anos seu povo clamou ao mundo por solidariedade.
Chegou o momento de retribuir,
de mostrar que a solidariedade é um sentimento universal.
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*Frei Betto*
"*Por mais que o governo de Israel e todos os que o
apóiam tentem, não irei
odiar a vocês, irmãos judeus. Ainda que as tropas
israelenses matem centenas
de crianças e pessoas inocentes, não irei desejar
a morte de suas crianças
nem jogar a culpa na totalidade de seu povo.*
*Mesmo
que manchem a Faixa de Gaza com o sangue de um povo, que
também corre
em minhas veias, metade árabe, não irei revoltar-me
contra nenhuma etnia nem
julgar que há raças melhores ou com mais direitos
que outras, como quer nos
fazer acreditar o governo israelense.*
*Embora
eu também queira ouvir as vozes judaicas
de protesto contra o
massacre dos palestinos, não deixarei de condenar
os que se calaram diante
do holocausto judeu. E mesmo que tomem à força
a terra do povo árabe, não
irei jamais apoiar o confisco dos bens do povo judaico, praticado
há tempos
pelo governo nazista.*
*Por
mais que o governo de Israel e todos que o apóiam
traiam a tradição
hebraica dos grandes profetas que clamaram por justiça
e paz, ainda quero
manter viva a esperança que eles anunciaram. Mesmo
que joguem sua memória na
lata de lixo, faço dos profetas do antigo Israel os
meus profetas, pois o
anúncio da justiça não distingue credos,
nações ou etnias.*
*Sei
que muitos de vocês condenam a violência,
não apóiam o massacre dos árabes palestinos,
e gostariam que o governo de Israel respeitasse as
decisões da ONU e o clamor da comunidade internacional
pelo cessar-fogo
imediato. Mas, gritem! Se sua voz não for ouvida,
acreditar-se-ã o com razão
aqueles que ainda falam mal de seu povo.*
*Mesmo
que sejam deploráveis todos os anti-semitas,
o silêncio dos judeus
diante do massacre perpetrado pelo país que ostenta
a estrela de Davi na
bandeira pode ser usado como reforço para os argumentos
torpes da
superioridade racial.*
*Há mais
de 60 anos seu povo clamou ao mundo por solidariedade.
Chegou o
momento de retribuir, de mostrar que a solidariedade é um
sentimento
universal e não restrito a uma etnia. Não deixem
o governo de Israel fazer
esquecer o quanto vocês sofreram como vítimas,
só porque agora ele é algoz e
está protegido pela maior potência mundial,
os EUA.*
*Não permitam que a ação de Israel
faça parecer que, apesar das
manifestações mundiais de condenação,
seu Estado se acredita o único que
possui razão, pois era assim que o governo alemão
pensava no tempo do
nazismo.*
*Estejam
certos de uma coisa: independentemente do resultado da
absurda
campanha israelense ou qualquer que seja a posição
de seu povo diante da
violência e injustiça cometida por aquele país,
não irei ceder à tentação do
pensamento racista; não irei apagar da minha memória
a catástrofe do nazismo
e o sofrimento do povo judeu; não irei pensar que
há povos que não merecem
nação e que devem ser eliminados; não
deixarei de condenar o anti-semitismo
ou qualquer tipo de preconceito étnico. *
*Continuarei
defendendo a idéia de que todos, sem
distinção, somos iguais, e
temos os mesmos direitos: judeus, negros, árabes, índios,
asiáticos etc.
Manter-me-ei firme em minhas convicções, pois
jamais quero me igualar aos
governantes de Israel e àqueles que o apóiam".*
Faço minhas as palavras de meu querido amigo Maurício
Abdalla, companheiro
no Movimento Fé e Política, professor de filosofia
da Universidade Federal
do Espírito Santo e autor de reconhecida qualidade,
como o comprova o texto
acima, que tão bem traduz a indignação
e a dor de tantos que testemunhamos a
guerra do Oriente Médio.
Vários intelectuais judeus têm manifestado
indignação frente às operações
do
Estado de Israel. Tom Segev, historiador e cientista político,
escreveu no"
Haaretz" que "Israel sempre acreditou que causar
sofrimento a civis
palestinos os faria rebelarem-se contra seus líderes
nacionais, o que se
mostrou errado várias vezes". O escritor Amos
Oz sublinhou: "chegou o tempo
de buscar um cessar-fogo" , com o que concorda o escritor
David Grossman e o
ex-chanceler israelense Shlomo Ben-Ami.
*Frei
Betto é autor de "A mosca azul - reflexão
sobre o poder" (Rocco),
entre outros livros.*
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