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especial
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Por
Marcelo Dorneles Coelho
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Episódios
como a morte do jornalista Wladimir Herzog nos porões
do regime, em outubro de 1975, fizeram com que o presidente
Ernesto Geisel combatesse a “linha dura”
das forças armadas. Com retrocessos como o “Pacote
de Abril” de 1977, que decretou o recesso do Congresso
para instituir os senadores “biônicos”,
indicados pela ditadura, além de diminuir a representação
dos estados mais populosos, e mais politizados, no Parlamento
Brasileiro, o governo militar começou o processo
de destensionamento. O general seguinte a ocupar o Poder,
João Figueiredo, se vê obrigado a adotar
o plano da abertura política, “lenta e
gradual”, a partir de um ressurgimento de amplos
segmentos da população como atores políticos.
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Entre
1978 e 1979, a ditadura enfrentaria grandes manifestações
de massa: os metalúrgicos do ABC Paulista realizavam
uma greve com enorme adesão, na qual se destacaria
certo líder, nascido em Pernambuco, chamado Luiz Inácio
da Silva, de apelido “Lula”; anteriormente já
se registravam movimentos contra a carestia e de resistência
à crise econômica, deflagrada pela alta do petróleo.
A censura à imprensa “alternativa” se transforma
em liberdade parcial; a anistia que o regime pretendia restrita
incorpora maiores concessões. Regressam ao Brasil personalidades
como o educador Paulo Freire, o velho líder do Partido
Comunista, Luís Carlos Prestes, e o condutor indiscutível
do trabalhismo no país, por todo o final do Século
XX, Leonel de Moura Brizola, ex-governador gaúcho comandante
da Rede da Legalidade, a qual, mobilizando a população,
evitara o golpe militar em 1961, quando da renúncia
do presidente Jânio Quadros.
E assim, as eleições diretas para os governos
estaduais voltam a acontecer em 1982, já num quadro
pluripartidário. O PDT, de Brizola, (que perdera a
sigla do PTB para a sobrinha neta de Getúlio, Ivete
Vargas, por decisão do TSE, em 1980) conquista o governo
do Rio de Janeiro. O PT, formado em 1980, a partir da união
das vertentes que renovam o sindicalismo brasileiro, de integrantes
de organizações clandestinas que haviam pegado
em armas contra o regime, e de representantes do setor progressista
da Igreja Católica, participa das disputas nas principais
unidades da Federação.
No
Congresso Nacional, entre 1983 e 1984, começa a tramitar
uma emenda constitucional proposta pelo Deputado Federal do
PMDB do Mato Grosso, Dante de Oliveira, propondo Eleições
Diretas para Presidente da República, a 15 de novembro
do segundo daqueles anos. A proposta ganharia apoio de massas,
com um engajamento pluripartidário e manifestações
populares gigantescas em todo o país. Em Porto Alegre,
um Comício no Largo da Prefeitura mobiliza centenas
de milhares de pessoas.
Os movimentos sociais voltavam
a crescer. Segundo a professora de História da UFRGS,
Cláudia Wasserman, “após a desarticulação
das guerrilhas, a resistência sindical e estudantil
ao regime foi enorme, sistemática e consistente”.
Derrota no Congresso Nacional
Apesar
da memorável campanha que levou milhões de brasileiros
às ruas, há 25 anos, o Congresso Nacional não
permitiu que as Eleições Diretas para Presidente
da República acontecessem. Surgiu então um processo
recorrente na História. “Os agentes políticos
sentam e ponderam como sair disso (de um regime de exceção
e arbítrio), em um jogo de forças, com fracionamento
de situação e oposição”,
explica o professor de História da UFRGS, que nesta
época ainda exercia a medicina, César Guazzeli.
O PT, por exemplo, se recusava a participar do Colégio
Eleitoral (que elegeria Tancredo Neves como candidato oposicionista
contra Paulo Maluf, representando a situação.
O MDB já era PMDB, e a Arena PDS.), mas o professor
recorda que na caserna ainda havia a linha dura, querendo
a preservação do que havia, sem a instalação
de um governo civil. Os mesmos setores que, em tese, asseguraram
que a Anistia valesse também para torturadores e quem
mais tivesse praticado crimes a serviço do Estado.
A
força da oposição mais radical chegara
a seus limites. A doença de Tancredo Neves, com seu
falecimento a 21 de abril de 1985, deu contornos trágicos
à “Nova República”. José
Sarney, o vice-presidente que viera do “antigo regime”,
comandaria o país até o começo de 1990.
E qual a herança do regime militar vigente por mais
de 20 anos?
Os professores concordam
que o legado é absolutamente negativo, como totalidade.
“A única lição é que nunca
se esqueça, para que nunca mais aconteça”,
afirma a professora Cláudia Wasserman. Guazzeli complementa,
argumentando que ocorreu “um verdadeiro retrocesso,
uma parada no processo de democratização do
ensino, da saúde, da criação de condições
para que houvesse um consumo de massas, uma herança
regressiva”. E ainda, “a cultura da ditadura de
prescindir das investigações, com privilégio
da tortura, se manifestou muitas vezes na era democrática,
com demonização dos Direitos Humanos. A mentalidade
de tratar questões sociais como caso de polícia
pode envolver as Forças Armadas, quando elas intervêm
nas favelas do Rio de Janeiro, por exemplo”.
Por último, os mestres
alertam ser temerário dizer que não existe nenhuma
forma de um golpe militar acontecer novamente, embora muito
improvável. Lembrando a forte presença empresarial
nas articulações para o desfecho de 1964, Cláudia
acredita que “infelizmente sempre é possível
que os setores dominantes sintam-se ameaçados no que
se refere à reprodução ampliada do capital
e apelem para soluções autoritárias contra
as classes populares”.

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