CICLO CINEMA E DIREITOS HUMANOS

Iraque à Venda


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“Havia civis ao lado dos militares
para torturar na prisão de Abu Ghraib”

Mônica Kalil Pires, doutoranda em Literatura comparada pela Universidade Federal, com formação em Letras, e Mathias Luce Seibel, mestre pela UFRGS e professor de Relações Internacionais na Faculdade Anglo-America na de Caxias.

 

A afirmação acima é sustentada por militares norte-americanos e cidadãos iraquianos que estiveram na prisão, no documentário “Iraque à Venda”, do diretor Robert Greenwald. As torturas são descritas em detalhes, e o papel dos mercenários fica evidente. A serviço da Caci, uma das corporações ligadas ao staff do governo George Bush que tiveram lucros multiplicados com a guerra para derrubar a ditadura de Saddam Hussein (armada até os dentes pelos EUA quando interessou à superpotência outro confronto, este contra o Irã na década de 80), sua função era colaborar decisivamente na imposição de sofrimentos físicos e psicológicos aos detentos.

O documentário que teve a primeira parte exibida, em cine-debate promovido pela DIST e a Liga de Direitos Humanos da UFRGS, também dá vozes às fontes para denunciar a incompetência de tradutores enviados para o Oriente Médio e mostra as evasivas do presidente e do vice-presidente republicanos, quando questionados sobre a verdadeira impunidade dos civis envolvidos nas práticas dos invasores.

Aproximadamente 20 pessoas compareceram à Sala Redenção no Campus Central da UFRGS. Os palestrantes foram Mônica Kalil Pires, doutoranda em Literatura comparada pela Universidade Federal, com formação em Letras, e Mathias Luce Seibel, mestre pela UFRGS e professor de Relações Internacionais na Faculdade Anglo-Americana de Caxias. A tese de Mônica é sobre a tradução cultural do mundo árabe para o Ocidente.

E desta forma, ela elucidou a habitual confusão no lado de cá entre árabes e muçulmanos. “Apenas 20% dos que professam a fé nos ensinamentos de Maomé compartilham a língua e a cultura árabe”, esclareceu a palestrante. No Iraque, os sunitas, ligados ao regime comandado por Saddam Hussein, representam um terço, aproximadamente, do total da população. Dois terços são xiitas, oprimidos pelo antigo regime. No mundo, estes últimos são 16% dos muçulmanos.

“Os muçulmanos têm total capacidade de adaptação às culturas dos países onde vivem”, acrescentou Mônica. Formam um sexto da população mundial, e suas crenças são de 98% dos iranianos e 88% dos habitantes da Indonésia, por exemplo. O que não impede a propagação da absurda idéia de que todos os muçulmanos são terroristas através de filmes e desenhos animados. Mathias Luce abordou de maneira mais específica a guerra do Iraque.

“O terrorismo, ao invés de diminuir, está se alastrando”, afirmou o professor, que ainda citou o fato do país invadido ter a Segunda reserva de petróleo do mundo. A necessidade dos Estados Unidos é cada vez maior, com o acirramento da competição com a China. “Intelectuais de direita projetaram um Século Americano a partir de uma comoção nacional, justificando um expansionismo belicoso, um intervencionismo fundamentado na ‘ guerra ao terror´, passando por cima do direito internacional”, continuou Luce. O professor lembrou que o Conselho de Segurança da Organização das Nações Unidas só referendou a invasão dois meses depois de seu começo, ocorrido em março de 2003, e o Brasil “incrivelmente aceitou esta postura”.

Perguntas

Os milhares de mercenários dispostos a tudo para enriquecer no Iraque põem a nu somente uma parte dos interesses em jogo. Por este motivo, o palestrante manifestou dúvidas sobre a retirada dos invasores estar próxima. Para Luce, o presidente Barack Obama e seus colaboradores mais próximos vivem um conflito com o alto comando militar acerca do processo.

Entre as questões levantadas pelo público, a possibilidade da atual crise econômica mundial ajudar a prolongar a ocupação. Pelos anseios da indústria de construção civil e dos fabricantes de armas, o cenário está longe de improvável. A guerra continua sendo excelente negócio para a potência que comanda o sistema capitalista mundial.

O professor esclareceu ainda que uma parcela dos xiitas colabora com os norte-americanos, enquanto outros setores são a favor de um regime nos moldes do iraniano. Não faltou nem mesmo uma preocupação com a eventual cobiça dos Estados Unidos pelo petróleo brasileiro, já que nesta área o Brasil prefere parcerias com a China. “A Quarta Frota em águas próximas por enquanto possui valor mais simbólico do que qualquer outro caráter”, arrematou o palestrante.

 

 

 





 

 


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