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Franklin
Cunha - médico
"
O que é um assaltante de banco
comparado com um banqueiro? "
Bertolt
Brecht
Uma
lenda chinesa conta ter existido um tempo no qual o mundo
dos humanos e o dos espelhos não estavam separados
por nenhum obstáculo. Os homens podiam penetrar nos
espelhos e os seres especulares conviver entre eles.Estes
seres adotavam formas diversas, às vezes se agitavam
, outras se acalmavam, porém em geral eram criativos
e até divertidos. Inesperadamente, certa noite invadiram
o mundo e sua caótica imprevisibilidade produziu um
grande e generalizado pânico. Na manhã seguinte,
temerosa, a população acorreu ao palácio
do Imperador que era dotado de mágicas virtudes. Imediatamente
o soberano subjugou os perturbadores seres confinando-os atrás
dos espelhos onde deveriam viver para sempre e também
criou um muro virtual, porém intransponível.Além
disso, aproveitando a capacidade dos seres especulares em
adquirir as mais estranhas formas, condenou-os a repetir por
imitação todos os movimentos de nosso mundo.Daí
para diante, careceriam de identidade e nada fariam por eles
mesmos.Assim, se um humano se colocasse diante de um espelho
e levantasse um braço, sempre do outro lado haveria
alguém que devolvesse o gesto e imitasse a figura deste.
Atrás dos espelhos, ficariam eternamente aprisionados,
condenados a nos copiar e a se comportar de forma absolutamente
previsível.
Os
economistas neoliberais tiveram idéias semelhantes.
Tentaram encerrar em um mundo de cristal as imprevisibilidades
da economia capitalista ou, como diz, L.G.Belluzzo, "quiseram
pensar o mercado por uma lógica incontrolável".
A lembrança da depressão da década de
trinta estava fresca na memória neoliberal. Esperando
confina-la "atrás do espelho", em Breton
Woods, 1944, estabeleceram as regras comerciais e financeiras
entre os países mais industrializados do mundo com
a obrigação de cada país adotar uma política
monetária que mantivesse suas moedas indexadas ao dólar
e este ao ouro. Assim, os idealizadores de Breton Woods favoreceram
um sistema que se baseava na ação reguladora
da "mão invisível do mercado" e, ao
mesmo tempo, com um mínimo de barreiras ao fluxo de
capitais privados A visão dos EEUU do mundo pós-guerra
era a de um o comércio livre que implicava tarifas
baixas e uma balança comercial favorável ao
sistema capitalista. Diante das pressões na demanda
global de ouro, Nixon, em 1971, impositivamente, cancelou
a conversibilidade direta do dólar ao nobre metal.A
partir daí, notas( falsas ) de cem dólares passaram
a comprar o mundo. Então, o enorme aumento de capital
não controlado e a ruptura das estruturas reguladoras,
exerceram um impacto de grande escala sobre a economia internacional
.Assim chegamos à uma situação que, como
diz Joseph Stiglitz, " fomos envolvidos por uma mistura
tóxica de interesses especiais, políticas econômicas
mal orientadas e ideologias direitistas que produziram a atual
crise global" e, como na lenda chinesa, vimos os irrequietos
e imprevisíveis seres especulares invadirem nosso mundo
e, como não dispomos mais de um Imperador detentor
de artes mágicas, realmente ninguém sabe o que
fazer.
Mas
alguém, como Michael Moore, sabe o que dizer: "Fomos
vítimas de um gigantesco roubo planejado e executado
por banqueiros e políticos neoliberais". Agora
não há Estado que chegue !!!
E
a solução dos EEUU, segundo Zizek, o filósofo
esloveno, "é o uso de medidas socialistas para
salvar o capitalismo". Bom, mas isto já foi dito
há 150 anos, por um filósofo judeu-alemão,
cujos restos mortais repousam num cemitério londrino.
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