Representante
da Amarc no Brasil recupera rádio
que motivou a perseguição do seu avô pela
Conspiração Nazi no Rio Grande do
Sul e pela
polícia política da ditadura Vargas.
Dagmar
Camargo, coordenadora política da Amarc (Associação
Mundial de Rádios Comunitárias) e também
do Conselho Regional de Radiodifusão Comunitária/RS
(CONRAD), é uma daquelas pessoas incansáveis.
Aos 48 anos, integra a equipe de comunicação
da Dist Brasil, onde é responsável pela elaboração
de projetos, construção de parcerias e captação
de recursos. Dagmar é sonhadora, idealista, sensível
e, como ela mesmo diz, “teimosa”, principalmente
quando o tema é a comunicação no Brasil.
Esta
gaúcha de Passo Fundo foi uma das criadoras
da TV Comunitário do Rio de Janeiro,em 1997. Também
escreveu um livro sobre a Encruzilhada Natalina e o MST,
que será reeditado em 2009 pela editora MAUAD X.
Dagmar
tornou-se um símbolo da luta e da resistência
ao monopólio das comunicações no Brasil
e no mundo. Licenciada em Psicologia, pós-graduanda
em Direitos Humanos pela Escola Superior do Ministério
Público da União (ESMPU), Dagmar conta que a
paixão pelo rádio e pelas inúmeras formas
de comunicação são herança do
avô, Frederico Carlos Dreher, perseguido pela Conspiração
Nazi no Rio Grande do Sul e pela polícia política
da ditadura Vargas.
Dagmar
começou a remontar a história da sua família
e recuperou o primeiro rádio receptor construído
em 1929 pelo seu avô, que nasceu na Alemanha em 1887
e veio para o Brasil em 1914, onde se naturalizou. O rádio,
que estava em poder do Exército, foi encontrado em
um ferro-velho, em Passo Fundo, por um amigo de Dagmar, que
conhecia bem o aparelho e a história da família.
O
jornalista Alexandre Costa entrevistou Dagmar Camargo, que
refez o percurso do rádio e remontou parte da história
da família da nossa entrevistada. Do nascimento do
seu avô na Alemanha até a recuperação
do rádio este ano, foram mais de um século.
Mais precisamente 121 anos de uma história que se mistura
à vida do país e à luta que Dagmar Camargo
ajuda a construir garantir na Justiça o direito das
rádios comunitárias funcionarem.

Na
foto, Frederico Carlos Dreher, na sua oficina. O alemão
naturalizado foi perseguido pela Conspiração
Nazi no Rio Grande
do Sul e pela polícia política da ditadura Vargas

As filhas de Frederico, Vitória (falecida) e Elisabeth,
com o rádio receptor construído em 1929 e que
motivou a sua perseguição.

Foto
atual do rádio, recuperado em 2008 em um ferro-velho
e devolvido aos familiares de Frederico Carlos Dreher.
Leia
a entrevista:
Dist
Brasil – Conta para os nossos leitores a história
da tua família e deste rádio que foi recuperado
recentemente.
Dagmar
Camargo – Meu
avô, Frederico Carlos Dreher, foi perseguido pela Conspiração
Nazi no Rio Grande do Sul e pela polícia política
da ditadura Vargas. Ele nasceu em 1887 e veio para o Brasil
em 1914. No dia 24 de junho de 1918 meus avós se casaram.
Minha avó materna se chamava Maria da Conceição,
uma negra afro-brasileira. Em 1919, eles construíram
sua casa em Passo Fundo/RS, onde eu nasci e que está
de pé até hoje. Tiveram duas filhas: minha tia
Vitória (falecida) e minha mãe Elisabeth. Apenas
em 1939 é que foram exigir do meu avô o registro
de estrangeiro, que era obrigatório, mesmo casado no
civil. Mas, em 1941 lhe solicitaram ainda um Salvo-conduto
especial.Mas as coisas se complicaram mesmo a partir de junho
de 1942, quando a casa da família foi apedrejada e
invadida. A oficina do meu avô, uma oficina de rádio-técnico
e toda sua biblioteca sobre rádio, mecânica e
eletricidade (que ficava na peça da frente de casa),
foi literalmente roubada, e lhe levaram o primeiro rádio
receptor que ele havia construído em 1929, alimentado
com pilhas riscas.
A
polícia achou que era um rádio transmissor.
Meu avô foi preso, rigorosamente incomunicável,
acusado injustamente de integrar a chamada 5ª coluna.
Dist
Brasil – Foi uma ação violenta?
Dagamar
Camargo – Sim,
tanto que minha tia Vitória veio a abortar uma criança
na hora, sua única filha mulher. Sem dúvida
foi uma ação bárbara da polícia
da época. Meu avô foi preso, rigorosamente incomunicável,
e acusado injustamente de participar deste movimento.
Dist
Brasil – Então o aparelho foi o principal motivo?
Dagamar
Camargo – Sem dúvida. Era um rádio
alimentado com pilhas riscas e a polícia achou que
se tratava de um rádio transmissor.
Dist
Brasil – Como se deu a recuperação do
rádio?
Dagmar
Camargo - Eu cresci ouvindo esta história
do rádio. Mas não imaginava encontrar o aparelho,
pois acreditava que o mesmo teria sido extraviada no próprio
Exército. Fiquei sabendo que o Exército havia
doado o aparelho para um ferro-velho, localizado na Vila Vera
Cruz , justamente próximo ao Exército, em Passo
Fundo. Foi vendido como sucata e quem encontrou foi um ex-vizinho
da família. O nome dele é Jaime Freitague, que
tornou-se radialista por influência do meu avô.
Na verdade, o parelho estava na Fundação Planalto,
que estava montando um museu com objetos antigos. Escrevi
uma carta para a fundação explicando a situação
e solicitei a devolução do aparelho, por ser
um objeto de grande valor afetivo para a minha família.
Porém, foi através da Igreja de Passo Fundo,
com o padre Darci Domingos, que efetivamente interferiu a
nosso favor.
Dist
Brasil – Essa história que desde criança
transita no teu meio familiar sobre o rádio e a perseguição
a qual tua família foi submetida, de forma injusta
vale ressaltar, acabou te influenciando de alguma forma na
vida e na relação que tens com a comunicação
e as rádios comunitárias hoje?
Dagmar
Camargo - Creio que sim e o mais importante é
a reflexão que é possível fazer a partir
deste fato, uma reflexão sobre as semelhanças
das condições sociais, culturais e históricas
que levaram Hitler ao poder com os tempos atuais, de crise
estrutural do capitalismo globalizado; da proliferação
das igrejas evangélicas; seus fiéis e sua marcha
para Jesus (ou para o dinheiro) que reúne quase um
milhão de pessoas em São Paulo, só perdendo
em número para a Parada Livre, nos levam a sérias
reflexões. Segundo José Arbex Jr., em seu artigo
que circulou na internet em 2006, intitulado “O jogo
evangélico cresce perigosamente, com uma política
de massas conduzida por aprendizes de Hitler”: “A
guerra santa substitui a luta de classes, a fé ocupa
o lugar da explicação. Dramático, porque
o jogo evangélico expõe milhões e milhões
de vidas à influência de denominações
que se atiram à mais sórdida politicagem, incluindo
compra e venda de votos, negociando a genuína fé
dos crentes. Perigoso, porque a mensagem dos pastores é
autoritária: exige total subserviência a um Deus
que promete recompensa aos fiéis e castigos terríveis
aos inimigos - isto é, a todos os que não rezam
pela mesma cartilha. É a prática de uma política
de massas que abomina a política, a interlocução,
o pluralismo, que promete a execução do outro
no Juízo Final. Numa palavra, é o totalitarismo.
Exagero? Dificilmente. Basta participar de uma das marchas
e observar os grupos de jovens "seguranças"
bem disciplinados e em formação paramilitar”.
Tudo
isto sem contar que o atual Papa alemão era um nazista
filiado ao PNSA, além de os conflitos raciais, étnicos
e religiosos da humanidade estarem ainda longe de serem resolvidos.
É só verificar a guerra santa no Islã
e o terrorismo em nome de Alá, ou os milhares de crianças
que morrem de fome ou Aids na África com pouco ou quase
nada de auxílio, ou até mesmo o movimento contra
as cotas raciais no Brasil, primeiro momento de reparação
aos negros desde o fim da escravidão mais de cem anos
depois.
Segundo
a pesquisa do ISER feita no Rio em 1996, as denominações
que mais crescem - a Igreja Universal e a Assembléia
de Deus - são também as que abrigam os fiéis
mais pobres. Na Universal, segundo o Iser, 63% dos seguidores
ganham menos de dois salários mínimos, 50%
têm menos de quatro anos de escolaridade e 70% são
negros e mulatos. Na Assembléia de Deus, 62% ganham
até dois salários mínimos. Calcula-se
que a Universal e a Assembléia tenham, hoje, algo
em torno de 3 milhões de adeptos cada. O número
de convertidos já é significativo o suficiente
para provocar mudanças no comportamento da população.
Um exemplo é a redução da taxa de natalidade,
já que as famílias de evangélicos têm,
em média, 25% menos filhos do que seus vizinhos pertencentes
a outras religiões. Isso também contribui para
o envelhecimento da população. O Rio é a
capital que, segundo o IBGE, concentra o maior índice
de velhos do país: 12% dos habitantes têm mais
de sessenta anos.
Dist
Brasil – Tu sugeres uma investigação mais
profunda por parte da Polícia Federal ou do Ministério
Público em relação às igrejas
e os templos faraônicos?
Dagmar
Camargo – Sim. Sugeri inclusive uma ação
internacional de Direitos Humanos enquadrando-as pelo crime
de "lesa humanidade". Exploração onde
às vezes o sujeito deixa de comer e alimentar os filhos
pequenos para dar à Igreja por acreditar que dando
o dízimo deus irá recompensá-lo e ele
sairá da miséria material. Sem perceber sequer
a miséria mental em que vive e o que estão fazendo
em Miami os pastores com seu dinheiro, principalmente o tal
Estevam Hernandes, (hoje vigiado por Cristo e pelo FBI em
Miami), presidente da Igreja Renascer em Cristo (Enriquecer
em Cristo) que era o coordenador da vertente bíblica
da campanha de Maluf desde 1993. Ssegundo ele, porque Maluf
colocou a Marcha para Jesus no calendário de São
Paulo. Ronaldo Didini, ex-braço direito de Edir Macedo
(chefe da Igreja Universal do Reino de Deus), agora pastor
da Assembléia de Deus Nipo-Brasileira e candidato do
PPB a deputado estadual o apoio político de um pastor
evangélico pode ser comprado por até 100.000
reais na época das eleições (Folha de
S. Paulo, 7/6/98, página 1-17). Outra medida necessária
seria acabar com o monopólio na radiodifusão
e cancelar todas as concessões de radiodifusão
de som e imagens concedidas a igrejas e políticos no
país, respeitando assim finalmente a Constituição.
Dist
Brasil – Vamos mudar um pouco o tema... Como o governo
Lula tem se posicionado em relação às
rádios comunitárias?
Dagmar
Camargo – Infelizmente,
na prática, o governo de Lula tem se posicionado de
forma inversa aos movimentos populares e ao pensamento que
a esquerda sempre defendeu. O governo Lula tem sido uma decepção
neste sentido, pois tem mantido a política conservadora
que protege o monopólio. O mesmo acontece em relação
às formas como se tem conduzido os processos de concessões
de veículos de rádio e TV no país, que
é prejudicial à vida do país, à
democracia e própria comunicação.
Dist
Brasil – As entidades relacionadas às rádios
comunitárias acusam o governo Lula de planejar o fim
destes pequenos veículos. O que motiva essa afirmação?
Dagmar
Camargo – Na
verdade, o segundo o Decreto assinado pelo Lula em 2004, a
partir de 2013 estarão canceladas as outorgas para
serviço analógico que é o nosso, de rádios
comunitárias. E isso é daqui a cinco anos. Como
ninguém garantiu espaço para as comunitárias
na transmissão digitalizada, pode significar a extinção,
com o encerramento das transmissões analógicas.
Dist
Brasil – E como tem sido a mobilização
para que isso não ocorra?
Dagmar
Camargo – Temos
que nos mobilizar politicamente junto aos deputados para que
não aprovem esse tipo de limitação, pois
daí sim seria o fim das rádio comunitárias.
Espero
que os apoiadores do Lula façam alguma coisa, pois
essas atitudes vão refletir no governo como um todo.
E mais, segundo entrevista do Ministro Hélio Costa,
após cinco anos as rádios comunitárias
deverão lutar outra vez pela outorga, perdendo tudo
o que construíram para obter a licença, o que
não é pouco sacrifício como todos sabem.
Já vivemos com migalhas, oprimidos pelas rádios
comerciais, Abert, MC e Anatel, e após cinco anos vir
tudo por água abaixo… É difícil…
Até quando vai isso no Brasil?
Dist Brasil - Na tua opinião, qual a situação
da liberdade de imprensa no Brasil hoje?
Juridicamente
estamos com o prazo de validade vencido há mais
de 40 anos. Apesar de a nova Constituição contemplar
a Comunicação Social, alguns artigos não
foram regulamentados, ainda. Vigora e regula a liberdade
de manifestação do pensamento e de informação
a Lei Ordinária 5.250, de 9.2.1967 que não
foi revogada nem atualizada. A Constituição
daquele ano sombrio de 1967 foi aprovada por um Congresso
Nacional mutilado pelas cassações, que confirmava
Atos Institucionais e Complementares do governo militar,
reflexo da conjuntura da "guerra fria" na qual
se sobressaiu a "teoria da segurança nacional".
Dist
Brasil – Então quer dizer que a lei atual foi
criada em pleno regime militar e tinha como objetivo combater
os inimigos internos rotulados de subversivos – opositores
de esquerda?
Dagmar
Camargo – Sim a lei que está em vigor
hoje e a lei dos tempos da ditadura militar. Esta lei tem
servido para enquadrar até hoje no seu Artigo 70 centenas
de comunicadores comunitários. No Ministério
Público Federal há um total de 1.436 companheiros
respondendo a processos crime, enquadrados neste artigo até
o ano de 2006, segundo dados do MPF e mais de nove mil enquadrados
em inquéritos policiais (artigo 183 da LGT/1997), tramitando
na Polícia Federal. O segmento das Rádios Comunitárias
e sem fins de lucro, segue sendo o único a sofrer a
repressão do Estado com fechamentos e apreensão
de equipamentos pela Anatel e Polícia Federal e sendo
chamados de "clandestinos" e piratas, pela mídia
monopolista. A emenda constitucional 36 de 28/05/2002 da nova
redação ao artigo 222 da constituição,
para permitir a participação de pessoas jurídicas
no capital social de empresas jornalísticas e de radiodifusão
sonora e de sons e imagens. Foi regulamentada para contemplar
os interesses do segmento empresarial.
Então o que há no Brasil é liberdade
de EMPRESA e não de IMPRENSA.
Dist
Brasil – E como tem sido feito o trabalho destas rádios
para mudar esta realidade?
Dagmar
Camargo - Os
profissionais de jornalismo, sindicatos da categoria e Federação
denunciam casos de violência no Brasil por parte de
setores empresariais em algumas regiões e da polícia
em outros. Jornalistas foram impedidos de filmar ações
da polícia contra as ocupações do MST
como ocorreu no dia 8 de março de 2008 quando mulheres
da Via Campesina foram espancadas e presas no Rio Grande do
Sul ao ocuparem área da Aracruz para denunciar que
empresa estrangeira comprou terras através de "laranja"
para a monocultura de eucalipto no Bioma Pampa Gaúcho.
Esteve em debate o fim da exigência do diploma para
jornalistas, e a criação do Conselho Nacional
de Jornalismo não teve sucesso. O provedor de internet
iG agiu de forma violenta, e tirou "Conversa Afiada"
do ar sem aviso prévio, lacraram o computador do jornalista,
profissional honrado e competente como Paulo Henrique Amorim.
Fiéis de igrejas evangélicas entram com processos
em massa no judiciário com base na Lei de Imprensa
e de liberdade de expressão. Lei de Imprensa foi flexibilizada
por Ministro do Supremo que suspendeu, em caráter liminar,
parte da Lei de 1967. Os processos de fiéis da Igreja
Universal do Reino de Deus, baseados na lei, são suspensos.
No
artigo 220 da Constituição Federal: "Os
meios de comunicação social não podem,
direta ou indiretamente, ser objeto de monopólio ou
oligopólio". Uma das funções da
Anatel seria fiscalizar e publicar relatório anual
sobre a formação de monopólio e nunca
foi feito. Já tramita ACP Nº 2002.71.00.031821-9
solicitada pelo Conrad cobrando isto.
Dist
Brasil - Quais os desafios para a consolidação
da liberdade de imprensa no Brasil?
Dagmar
Camargo - Poderíamos
avançar para um conceito mais amplo de liberdade de
comunicação e Direito à Comunicação
onde não sejamos apenas consumidores, mas cidadãos
e produtores de informação. Acabar com a farra
do coronelismo eletrônico com outorgas para políticos,
se assim não for eles continuarão votando em
seus próprios interesses e de seus familiares. Regulamentar
e fazer cumprir a Constituição construindo a
partir dela o novo marco regulatório para a comunicação
que proíba o monopólio, contemple a Comunicação
Social que garanta o equilíbrio entre os sistemas público,
privado e estatal como está escrito lá e que
respeite os acordos internacionais que o Brasil faz parte.
Dist
Brasil – E com relação às leis
e ao fortalecimento do Conselho Nacional de Comunicação?
Dagmar
Camargo - É
preciso revogar as leis anteriores que estão defasadas,
fortalecer o Conselho Nacional de Comunicação
com representação igualitária da sociedade
civil e do segmento comunitário, além de garantir
o direito de resposta em todos os meios. Também defendemos
a inclusão no currículo escolar a leitura crítica
da mídia, bem como a elaboração de Políticas
Públicas de Comunicação Social que contemplem
a democratização dos meios e invista na formação
de comunicadores populares, em estúdios multimeios
e inclusão do acesso á digitalização
às emissoras comunitárias. Queremos a implantação
dos Conselhos Municipais e Estaduais de Comunicação
e a realização de uma Conferência Nacional
de Comunicação que inicie com conferências
municipais e estaduais para fortalecer e ampliar o debate
conscientizando a sociedade que o espectro aéreo é
um bem ambiental público, da união que a concessão
não é um bem vitalício, que precisa obedecer
a certas normas para assim desenvolver o controle social dos
meios.
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