|

notícias
|
|

Existem
mais de cem quilos de plutônio armazenados pela Inglaterra
em algum lugar do oceano, ao norte do planeta. Basta que sete
vazem da edificação onde se encontram, teoricamente
dotada das mais absolutas condições de segurança,
para efeitos devastadores da radiação na Europa
e na América do Norte, acontecendo uma catástrofe
humana e ecológica sem precedentes.
Talvez este fato mostre bem o que foi o pior da produção
e das descobertas, sob o domínio do capital no Século
XX, em que se gastou o dobro em armas e materiais com altíssimo
potencial de destruição, na comparação
com o resto do parque industrial. As reflexões do professor
de Filosofia da Universidade Federal de Alagoas, e membro
do Conselho Editorial da Revista Crítica Marxista,
Sérgio Lessa, provocaram forte impacto na platéia
de aproximadamente 50 pessoas, que compareceu à Faculdade
de Economia da UFRGS para sua palestra acerca da crise mundial.
O professor, que tem uma longa trajetória como militante
na esquerda e é hoje um dos intelectuais brasileiros
que mais escreve a respeito dos dilemas contemporâneos,
também deu curso, promovido pela DIST e pelo Núcleo
de Economia Solidária da UFRGS, sobre Trabalho e Sociabilidade,
Trabalho Alienado e as Classes Sociais; Burguesia, Proletariado
e Assalariados; as classes contemporâneas. A organização
coube à DIST.
O número de participantes
do curso, realizado no Sindicato dos Previdenciários,
no sábado, domingo e segunda-feira, possivelmente em
razão do feriado da terça, caiu, mas ainda assim
os movimentos dos sem terra, das mulheres camponesas, dos
trabalhadores desempregados e do levante popular da juventude
asseguraram dezenas de participantes a prestigiar a didática
de Lessa, que dispensou material escrito para suas exposições.
Na palestra da sexta-feira,
o intelectual situou alguns elementos que particularizariam
a crise, com base em uma perspectiva teórica e histórica.
O modo de produção capitalista, desde a Revolução
Industrial, na segunda metade do Século XVIII, foi
avançando até o ápice. É preciso
entendê-lo “como o primeiro a garantir uma produção
superior às necessidades humanas, com ela aumentando
mais rapidamente do que estas necessidades”. Em razão
do surgimento da abundância, a fome e a miséria
passam a constituir questões de organização
social.
O professor não deixou de admitir que “o mais
miserável dos miseráveis, hoje, vive melhor
do que um servo da Idade Média. Pelo simples fato de
que pode ter acesso a remédios, por exemplo, que não
existiam naquele período”. Isto apesar da concentração
da abundância entre as classes favorecidas. Depois da
Revolução Industrial, “chegou-se a um
estágio em que o ser humano poderia consumir mais de
três mil calorias por dia! Algo próximo do que
um atleta precisa.” O problema continua sendo a distribuição
dos bens.
O mercado pode ser definido
como a mediação fundamental para gerar lucro
e consumo do que é produzido, mas para Lessa o primeiro
destes processos “só é garantido, transformando
a abundância em carência”, não somente
pela criação de novas necessidades, através
dos mecanismos contemporâneos (como a publicidade),
mas também pela intervenção do Estado,
“quando ele, visando a formar um estoque regulador,
tira comida do mercado, ainda que haja famintos em um país”,
explica apontando um caso de procedimento quase universal.

Numa
era em que a concorrência entre as empresas se torna
mais dura, sofisticação dos produtos e aumento
das quantidades produzidas são fatores relacionados.
“Não existe planejamento que controle o capital,
independentemente do que a humanidade necessita. Do ponto
de vista da classe operária, existem possibilidades
de consumo cada vez maiores, com um controle muito mais forte
na fábrica, pelas necessidades produtivas, e o sistema
segue precisando do desemprego, da geração do
exército de reserva, com gente alijada do acesso a
bens e serviços”, acrescenta.
Quando o capitalismo monopolista
se impõe, ao longo da década de 1870, o consumo
operário nos países centrais aumenta, e alivia
em parte o problema da abundância e da carência
convivendo nos pólos nacionais e mundiais. “Com
as guerras, temos recursos abundantes jogados fora através
do complexo industrial-militar”, recorda. E já
na segunda metade do Século XX, a crise do petróleo
tensiona o sistema, “de modo que talvez se possa dizer
que a crise de 1970 perdura até hoje, no que Istvan
Metzáros (Pensador Marxista que trabalhou com o filósofo
húngaro Georg Lukács) definiu como um continum”,
afirmou Lessa. Para o professor, esta polarização
radical entre abundância e carência é a
chave para entender que a reprodução do capital
tenha chegado a um ponto “de incrementação
da riqueza fictícia no âmbito financeiro”,
com os setores ligados aos bancos arrastando os outros ramos
da economia. “Para o proletariado, não deixa
de ser um momento rico em potencialidades, desde que cresça
a consciência de que é fundamental a ruptura
do sistema”, concluiu.
O Curso: conceitos explicados

A
definição de otimista, entretanto, não
cabe para Sérgio Lessa. “Os caminhos para a humanidade
se destruir têm maior probabilidade de ser trilhados
do que o da superação do capitalismo”
reconhece o professor. E no curso que deu, entre sábado
e segunda-feira, voltou a situar este dilema no “miolo
do debate atual”: o que é o ser humano, e quais
as possibilidades e necessidades futuras?
“O desenvolvimento
da humanidade levou a superar a concepção de
que os deuses que controlavam a Natureza precisavam ser convencidos
a moderar na condução dos eventos. À
medida que as forças produtivas vão se desenvolvendo,
aumenta o protagonismo da humanidade”, afirmou, expressando
uma concepção marxista clássica. No estágio
da Polis, os homens já saberiam que eles próprios
a levariam para a decadência ou a se tornar uma coletividade
virtuosa.
Porém, até
o período medieval e mesmo até o renascentista,
os indivíduos ainda eram vistos como duais pelos pensadores.
Haveria uma essência percebida como determinação
divina e uma dimensão corporal decorrente das relações
humanas e sociais. Existiria, claro, a dimensão política,
no sentido de que os homens são gregários, vivem
em grupo. “A definição de Ser Racional,
de indivíduo que usa a Razão, para os revolucionários
burgueses, significará apoiar a propriedade privada,
o dinheiro etc, e a identidade social reside na mercadoria
do indivíduo. Não mais a propriedade só
pode ser a terra, o escravo ou servo. A propriedade privada
burguesa, consistindo em qualquer coisa, se autonomiza em
relação ao lugar em que o indivíduo mora”,
sintetizou.
Com a Revolução
Industrial, de início em 1776, e que passou à
nova fase em 1830, a produtividade chega em aproximadamente
sete anos a patamares antes só imaginados para 150
anos. O Homem consolida seu domínio da Natureza. “A
primeira resposta genial sobre como os seres humanos fazem
a História, embora a Terra não fosse um paraíso,
vem de Hegel. O filósofo alemão a definiu como
um processo, o passado levando ao presente, e esta dimensão
conduzindo ao futuro. O espírito da razão não
tem idéia de que existe, mas com a Revolução
Francesa (da qual Hegel foi contemporâneo, morrendo
em 1831) toma consciência de si e age para si”,
explicou. Antes, no estado de inconsciência, se tratava
como algo diferente dele, por isto existia a alienação,
conceito com o qual Karl Marx trabalharia de maneira diferente.
O Estado representaria os
interesses coletivos, constituindo o espaço da ética;
o indivíduo seria o lócus da mesquinharia e
da concorrência, mas produzindo riqueza, gera a prosperidade
coletiva. “O Espírito do Tempo viria da Natureza”,
complementou Lessa, passando a expor a revolução
levada a cabo por Marx no pensamento hegeliano.
O criador da doutrina comunista
chegou ao trabalho como categoria fundante do ser social:
através dele, o Homem se separaria da Natureza. “A
definição para o conceito é de intercâmbio
orgânico com a Natureza, da qual os homens só
podem retirar gregariamente o que precisam”, prosseguiu
o professor. Dialeticamente, os modos de produção
vão transformando os seres humanos. Surge a dimensão
das relações sociais. Com habilidades e conhecimentos,
aparecem novas necessidades e possibilidades. “Há
um conhecimento cada vez mais próximo do que o mundo
objetivo é e oferece”, continuou Lessa, chegando
à Economia Política.
Nos primórdios do
capitalismo, quem entendia os preços tinha larga vantagem
sobre quem não possuía esta compreensão.
A dimensão estável da mercadoria, que permanece
por longo tempo, consiste no valor; o que nela varia está
relacionado à lei da oferta e da procura. Desde a manufatura,
“o burguês precisava reunir matéria-prima,
ferramentas e força de trabalho, qual seja, os operários.
O trabalho pode ser abstrato, assalariado, produtivo e improdutivo,
mas o certo é que os trabalhadores na fábrica
têm sua energia reduzida à mercadoria. O que
é humano fica de fora da indústria. Assim, passam
a produzir o que dá lucro, primordialmente, e não
que atende às necessidades humanas. Dá-se a
conexão do indivíduo não com o gênero,
mas com o capital, que extrai a mais-valia, um valor excedente
em relação àquilo que o operário
produz para satisfazer suas necessidades. O trabalho abstrato,
na verdade, é um conjunto de tarefas abstraído
de toda a dimensão humana. Ao produzir o que na verdade
o oprime, o trabalhador aliena-se” concluiu o professor.
Sérgio Lessa não deixou de referir a complexidade
do capitalismo contemporâneo, no qual a maior parte
da massa salarial está relacionada ao trabalho improdutivo,
no sentido de não gerar novas riquezas materiais. Os
assalariados das camadas médias, na visão marxiana,
se posicionariam como classes de transição entre
as fundamentais, ainda a burguesia e o proletariado. O intelectual
mencionou ainda interessantes aspectos como o nascimento do
agrobusiness nos países capitalistas centrais e a tendência
do empresariado a se adonar de todas as fontes de lucro, em
setores que até algumas décadas atrás
não ofereciam este atrativo, entre eles a Saúde.
O leitor poderá conhecer mais das opiniões deste
filósofo voltado para o mundo do trabalho (conceito
com o qual não concorda) na entrevista realizada com
ele, após o curso, que dividimos em duas partes, em
função da complexidade dos assuntos.
|