|

entrevista
|
|
Por
Marcelo Dorneles Coelho
O
mundo lembra neste mês de junho os 20 anos do massacre
da Paz Celestial, na China. Até hoje, não se
sabe com exatidão quantos cidadãos foram mortos
no local, após os protestos contra a corrupção
(que cresceu muito depois das reformas pró-capitalismo)
e por transformações políticas no país
mais populoso do mundo. Talvez um dos fatos mais significativos
naquele momento pós-passagem de Mikail Gorbachev, o
dirigente que tentou mudar o sistema soviético, pela
terra de Mao tenha sido a recusa da repressão às
manifestações por parte do Exército do
Povo em Pequim. A tecnoburocracia foi obrigada a chamar tropas
do norte.
A China, ainda que exiba altos índices de crescimento
econômico, soma hoje as piores características
de um capitalismo selvagem como a super-exploração
do Trabalho e o aumento vertiginoso da desigualdade com os
mais repulsivos traços das sociedades que passaram
por revoluções no Século XX. A falta
de liberdade de expressão e o monopólio do Poder
tornam a nova potência mundial “uma panela de
pressão”.
Esta é a opinião da economista, e estudiosa
da obra do teórico Istvan Mèszáros, professora
adjunta da Universidade Federal de Alagoas, Cristina Paniago.
Ela vê como fundamental na obra do discípulo
do famoso filósofo húngaro, Georg Lukács,
a visão crítica do que Mèszáros
chama de sociedades pós-capitalistas.

confira
a entrevista
Se
é importante ter uma visão crítica do
que Mèszáros define como sociedades pós-capitalistas,
parece que a ex-União Soviética, seus ex-satélites,
a China e outros países (que alguns teóricos
afirmam não terem nem superado o capitalismo) em suas
experiências mostraram como alguns princípios
da esquerda marxista-leninista eram em si problemáticos.
Caso da “economia dirigida como uma única fábrica”.
Por outro lado, não há certa idealização
das possibilidades de superação do capitalismo
ao se apontar que nenhuma destas nações construiu
o socialismo?
A
impossibilidade de realizar o socialismo, na Ex-URSS, ou na
China, se deve, sim, a condicionamentos históricos
e econômicos, que extrapolaram as vontades dos revolucionários.
Cabe lembrar que tanto a Rússia, as repúblicas
que formaram a União Soviética com ela e a China,
principalmente, tinham uma população de maioria
camponesa. O essencial é que houve um afastamento dos
princípios socialistas. Eles passaram a ser justificados
com violência na base da sociedade, com autoritarismo
no planejamento econômico e perseguição
política. A liberdade foi reprimida e a construção
da igualdade foi abandonada. Deixou de haver um regime das
classes trabalhadoras, que não tiveram e não
têm nenhum controle sobre aparatos como as polícias
secretas. Ao contrário do que se desejava, agravou-se
a repressão aos melhores valores que poderiam prevalecer
após a derrubada das antigas classes dominantes. Parte
da sociedade melhorou suas condições materiais.
Não poderia ocorrer, entretanto, realização
plena do socialismo, com evolução para o comunismo,
sem um processo que integrasse o controle do que é
produzido e o processo produtivo em si. Quero ressaltar que
quando me refiro à liberdade, à igualdade e
à autodeterminação dos trabalhadores,
não uso estes conceitos no sentido meramente formal
do liberalismo. O socialismo como alternativa permanece defensável.
Na
atualidade, segundo dados do IBGE, mais da metade da população
brasileira, se encontraria na classe média. Por que
o Socialismo, ainda que diferente dos regimes opressivos da
Ex-URSS, do Leste Europeu, da China etc, ainda pode ser visto
como alternativa atrativa para amplos setores do povo? No
caso do Brasil, há melhoria de indicadores sociais
e padrões de consumo crescente, na comparação
com o que conhecemos nos países periféricos.
A distância do “Primeiro Mundo” não
estaria diminuindo?
O problema é que o capitalismo não pode realizar
o padrão de consumo – e de renda – do Primeiro
Mundo para todos. A lógica do sistema é concentradora.
Se em um dado momento, com altas taxas de crescimento, houve
aumento significativo dos ganhos das classes trabalhadoras
dos países avançados, por exemplo, isto se deveu
a uma transferência de renda dos países periféricos,
com salários pagos pelas multinacionais num nível
mais baixo no Terceiro Mundo. A superprodução
de mercadorias se realizando na circulação,
com vantagem para quem já vivia melhor. Este modelo,
no entanto, se esgotou. Uma contradição se colocou
como impedimento, para o equilíbrio no processo circulação-produção.
Aumentava a produtividade, com menos força de trabalho,
em função dos avanços tecnológicos.
E o trabalhador também é consumidor. A redução
do consumo da parcela da classe trabalhadora “supérflua”
para o capital, com esgotamento da expansão dos mercados,
e limite do consumo real, recolocou o sistema em crise. Antes,
havia expansão; agora, há redução
da capacidade de consumo, ou seja, há menos gente consumindo,
mesmo nos países centrais, com redução
do padrão de vida e de trabalho. Por outro lado, mesmo
quando eram mantidos aqueles níveis, não poderiam
ser estendidos a todos os países do mundo. Pois a alta
concentração de renda e de consumo é
inerente. Basta citar o caso dos Estados Unidos, que consomem
25% da energia mundial. Estes padrões, espalhados,
inviabilizariam o planeta! No Brasil, toda esta gente que
entrou na Classe Média pode deslizar, dependendo do
agravamento da crise. Os trabalhadores, nos países
periféricos, são muito mais vulneráveis
à instabilidade e às convulsões no sistema.
Durante
o seminário, você fez a defesa da posição
de Mèszáros de que é possível
pensar em um fenecimento do Estado desde o início da
construção do socialismo. Dadas as funções
cada vez mais especializadas exigidas por ele, enquanto conjunto
de aparatos e instituições articuladas, e pelos
complexos produtivos, será isto possível? As
classes trabalhadoras não teriam prejuízos com
este processo desencadeado, talvez, de forma precipitada?
É
preciso tirar lições do tamanho que o Estado
assumiu na Ex-União Soviética, na China e nas
sociedades pós-revolucionárias. Sigo acreditando
na análise marxista, quanto ao princípio de
que ele só se faz necessário onde há
classes antagônicas. Para pôr em ordem interesses
inconciliáveis, o conflito permanente. Em um sistema
onde meios de produção forem socializados efetivamente,
perde-se a necessidade de ordenar, tal como a conhecemos hoje.
Se há igualitarismo, os produtores organizados passam
a cuidar, a dirigir as relações sociais, os
serviços, o abastecimento material, segundo parâmetros
novos, associativos, com todos usufruindo destes benefícios.
Toda produção, toda a atividade, chegaria a
um ponto de se realizar sem mediações, comunitariamente.
Na condição de desaparecerem as classes proprietárias
e o Estado. Não há fórmulas prontas para
que a humanidade atinja este cenário, mas estas bases
precisam ser construídas desde cedo, em padrões
superadores do modo antigo de sociedade.
Mesmo
no capitalismo, as experiências de cooperativismo nas
fábricas, de auto-gestão de unidades produtivas
e de serviços, podem semear uma cultura importante
neste sentido? Elas podem aumentar com a crise mundial.As
experiências desse tipo no Brasil merecem ser estudadas
com cuidado. É claro que este processo cultural tem
sua importância, mas quando prevalece a lógica
do capital, muitas vezes elas acabam reproduzindo as relações
de exploração e subordinação dos
trabalhadores, até mesmo em função dos
imperativos do mercado, como o atendimento de metas e a necessidade
de aumentar constantemente a produtividade.

Você
defende o posicionamento de que a libertação
completa da mulher da opressão de gênero não
pode ser alcançada no capitalismo. Esta é uma
limitação estrutural do sistema? Os avanços
significativos das mulheres no Ocidente não contrariariam
estes argumentos?
É
claro que do Século XIX para cá houve avanços
enormes. A própria inclusão das mulheres no
mercado de trabalho trouxe como resultado a independência
econômica, propiciando reconhecimento social e novos
direitos. Entretanto, estes ganhos não alteraram a
relação de subordinação e opressão
que ela enfrenta na vida privada, familiar e na esfera pública.
Porque, ao se inserir no mercado, ainda tem remuneração
inferior ao Homem, não ocupa cargos de maior poder
e decisão. Está ainda obrigada à dupla
jornada, com a carga das tarefas domésticas. E ainda
provoca uma desvalorização da força de
trabalho masculina, quando em um processo produtivo se decide
por esta substituição, de trabalhadores por
trabalhadoras. Na verdade, os espaços adquiridos não
são de liberdade. A Mulher é inserida no círculo
de exploração de classe para reproduzir o capital.
Só o fim das classes libertará plenamente a
Mulher, o que apenas é possível com o fim da
dominação pelo capital.

|