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reportagem
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Por
Marcelo Dorneles Coelho
Numa
recente palestra em Porto Alegre, o economista e presidente
do IPEA, Márcio Poschmann defendeu as políticas
públicas do Governo Lula para enfrentar a crise. Citou
algumas reduções de impostos, a ampliação
dos programas de transferências de renda, a queda na
taxa de juros e as políticas habitacionais, que “se
voltaram para os menos favorecidos”, sem proteção
alguma em convulsões anteriores do capitalismo. O gestor
do Instituto de Pesquisa de Economia Aplicada considera fundamental
instituir medidas amplas e estratégicas para atacar
o que considera uma crise estrutural do sistema. Os trabalhadores
do campo do sindicalismo combativo entram divididos nesta
época de transformações, que podem ser
definitivas.

Uma divisão que se consolidou entre 2004 e 2006. Vários
setores romperam com a Central Única dos Trabalhadores
(CUT) e formaram a Coordenação Nacional de Lutas
(Conlutas). Representando 24 milhões de pessoas de
diferentes categorias, a primeira reúne 3260 sindicatos,
com sete milhões e meio de efetivamente associados.
No Rio Grande do Sul, são quase 430 mil trabalhadores
nesta condição, em 255 entidades, totalizando
na base gaúcha mais de um milhão de metalúrgicos,
bancários e servidores, entre outros. “Nós
achamos que temos que disputar as políticas públicas”,
explica Celso Woyciechowski, presidente da CUT-RS, oriundo
do Sindicato que representa os funcionários da administração
escolar de colégios particulares. Ele menciona como
vitórias, decorrentes desta estratégia, a licença-maternidade,
sua ampliação, e a valorização
do salário mínimo.

A
Conlutas tem em suas fileiras entre 150 e 200 sindicatos no
país. Entre estes, a Associação Nacional
dos Professores Universitários (ANDES), o Sindicato
dos Metalúrgicos de São José dos Campos
(SP) e o dos Operários da Construção
Civil de Belém do Pará. A nova central considera
que a entidade, com a qual rompeu, “deixou de responder
a uma necessidade objetiva de organização autônoma
das classes trabalhadoras”. É o que argumenta
José Maria de Almeida, ex-candidato a presidente da
República, que começou sua trajetória
no Sindicato dos Metalúrgicos de Santo André,
no ABC paulista, e hoje integra a direção nacional
da organização. Ela, aliás, não
reúne somente sindicatos, mas também movimentos
populares, desde sua fundação, em 2006, após
dois anos preparando as condições para o surgimento
no cenário político e social brasileiro. Zé
Maria vai mais longe. “A CUT se tornou um braço
do governo, não defende mais os interesses dos trabalhadores,
em questões como a Reforma Previdenciária, e
não é capaz de denunciar o Governo Lula, que
aplica o mesmo modelo neoliberal das administrações
de Fernando Henrique”, acusa.
O dirigente gaúcho contesta a afirmação.
“A central não é refém de ninguém.
Os últimos seis anos marcam um período que talvez
seja aquele em que mais fizemos greves! Não nos posicionamos
nem como situação, nem oposição,
e não abrimos mão de estar presentes em câmaras
setoriais, por exemplo, disputando a hegemonia, como em qualquer
instituição do Estado. O Mundo do Trabalho mudou
muito, inclusive com imposição de um ritmo de
produção avassalador, e a organização
sindical não acompanhou. Basta dizer que não
há comissões de fábricas regulamentadas”,
pondera Woyciechowski. “Quem corre risco de virar braço
de partidos políticos é a Conlutas, com esta
lógica de disputa entre governo e oposição”,
contra-ataca.
A ruptura entre os sindicalistas, de resto, reflete velhas
diferenças de concepção entre os teóricos
e militantes socialistas ligados às classes trabalhadoras.
Enquanto a CUT pretende disputar os rumos do Brasil construindo
um projeto que contemple desenvolvimento sustentável,
educação de qualidade e distribuição
de renda como parâmetros, a Conlutas parte da premissa
de que o capitalismo não se humanizou, e não
pode se humanizar. “A crise demonstra mais uma vez que
o sistema não atende às necessidades humanas,
com perda de um milhão e meio de empregos. As estatísticas,
como as do IBGE, não refletem necessariamente a realidade.
A concentração de riqueza só aumenta
no Brasil e no mundo”, sintetiza Zé Maria, que
esteve em Porto Alegre para um debate sobre o assunto, promovido
pelo Sindicato dos Processadores de Dados, e preconiza que
o Socialismo seja defendido, sem que se abandonem reivindicações
para a melhora das condições de vida das classes
subalternas. A central mais antiga não vê perspectivas
de uma transformação drástica. “A
crise exige uma intervenção estatal muito forte,
no sentido de que os governos cobrem manutenção
de emprego e renda de quem só dispõe da força
de trabalho. O Estado deve ser indutor do desenvolvimento.
Experiências de economia solidária e cooperativismo,
que temos incentivado ao longo dos anos, por si, não
são suficientes para o enfrentamento, embora haja vitórias
importantes como o predomínio da auto-gestão
dos trabalhadores na cadeia produtiva do café no Espírito
Santo”, diz Woyciechowski. A Coordenação
Nacional de Lutas defende explicitamente a ocupação
das indústrias falidas pelos operários.
A organização mais nova, com 60% de participação
de servidores públicos e 40% de trabalhadores do setor
privado, tomou a decisão de não receber o imposto
sindical e não adotar cargos, para “um tipo de
representação com um maior controle da direção
pela base, liberdade para participação dos partidos
de esquerda e garantia de que eles se submetam às instâncias
da entidade”, explica o ex-candidato à Presidência
da República, que não deixou de mencionar o
registro no Ministério do Trabalho, por considerá-lo
um direito. Já a entidade que se aproxima dos 30 anos,
segundo Celso Woyciechowski, assegura seguir defendendo o
fim do tributo e da unicidade, determinante “da fragmentação
categorial”. Ainda haveria convergência, portanto,
na defesa da autonomia para o funcionamento das instituições
a serviço dos trabalhadores. Entretanto, já
se registram disputas acirradas degenerando em agressões
físicas. “São casos isolados”, para
o presidente da CUT gaúcha, que cita eleições
em sindicatos fortes, onde o clima foi civilizado.
Mobilizações em parceria
Para além de divergências sobre o significado
da administração de Lula da Silva, permanecem
reivindicações de alcance estratégico,
em um eventual programa comum das entidades. A Conlutas lançou
cartilha onde defende que não pagar as dívidas
externa e interna constitui uma questão de soberania
para o país. A CUT mantém a defesa do uso de
recursos destinados ao pagamento da dívida pública
para investimentos nas áreas sociais e desenvolvimento.
As duas entidades procuram, em maior ou menor grau, abrir
espaço para segmentos discriminados, especialmente,
nos países periféricos do capitalismo, estimulando
as organizações próprias do gênero
feminino, de negros e homossexuais. Na CUT, 30 % dos cargos,
das diferentes instâncias, são reservados para
as mulheres. A Conlutas parte do pressuposto de que as lutas
específicas devem se inserir em um contexto mais amplo,
de luta contra o sistema. “Não concordamos com
a diluição destas bandeiras, no entanto. Entendemos
sua dimensão imediata, porque os valores ideológicos
das classes dominantes se reproduzem entre os trabalhadores,
mas não há capitalismo sem racismo e discriminação”,
enfatiza José Maria Almeida.
Frente aos efeitos da crise, o discurso é o mesmo.
“Precisamos contar com a unidade de ação
das classes trabalhadoras. Evitar as demissões exige
o envolvimento de todos os setores, inclusive a Força
Sindical”, admite o ex-candidato à Presidência
da República. “Em vários momentos, conforme
a conjuntura, a CUT buscará a Conlutas como aliada,
para assegurar direitos, banir a corrupção no
Estado e alterar o modelo econômico. Não descartamos
esta união também nas disputas sindicais”,
afirma Celso Woyciechowski. Um sinal de que três décadas,
aproximadamente, para protagonistas do sindicalismo moderno
no Brasil, talvez configurem muito pouco tempo em termos históricos,
mas já produziram ensinamentos que podem se colocar
acima de divergências, sem que estas sejam negadas,
ou suprimidas.
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