Sérgio Lessa - parte 1

“É um momento
apaixonante da História”


entrevista

 

Por Marcelo Dorneles Coelho

Na primeira parte da entrevista com o professor Sérgio Lessa, os assuntos são os diferentes cenários de barbárie, ameaças reais para o gênero humano, e o Socialismo ou Comunismo, segundo as idéias de Karl Marx, como projeto histórico viável para as classes trabalhadoras, especialmente o operariado.



Por que o Socialismo e o Comunismo, na concepção sistematizada por Karl Marx, ainda deveriam ser vistos como alternativa ao capitalismo?

A humanidade chega a um patamar histórico de grandes possibilidades com o capitalismo. A da abundância, com o desenvolvimento das forças produtivas, é uma delas. Entretanto, há também o cenário da catástrofe ecológica, com regressão destas forças produtivas, êxodo urbano, com a falta de água e comida para milhões de pessoas, configurando a carência absoluta. Veja: o Centro de Controle de Epidemias, localizado em Atlanta, EUA, que é dos mais adiantados do mundo, com direção da ONU, no seu Banco de Dados, possui vários estudos que apontam o risco de epidemias em larga escala, com deterioração dos sistemas públicos de saúde e transporte nos grandes centros urbanos. Pelo menos uma destas análises mostra que se configuraram todas as condições históricas, entre elas a transformação descontrolada da Natureza, para vírus se espalharem. O degelo no Hemisfério Norte indica que uma variação brutal de temperatura é possível. Se potências e equilíbrios regionais complicados (Israel-Oriente Médio, Índia-Paquistão) caírem em um cenário de conflagração, muito provavelmente teremos a barbárie imperando. O único cenário otimista, na verdade, aponta para as classes trabalhadoras no poder, superando o modo de produção capitalista. É um momento apaixonante da História. As escolhas serão para sempre.

Entretanto, as experiências do chamado “Socialismo Real” não constituíram referências positivas para as classes trabalhadoras.
Pensadores no campo da esquerda analisaram a União Soviética, a Europa Oriental do Pós-Segunda Guerra, a China e outros países como exemplos de uma nova forma de exploração não prevista pelo Marxismo, ou, até mesmo, como nações que desenvolveram um capitalismo monopolista de Estado. O professor Otto Alcides Ohlweiler (falecido no início da década de 90), em sua obra “Materialismo Histórico e Crise Contemporânea”, define o sistema desenvolvido nas sociedades pós-revolucionárias como capitalismo burocrático. Outros reconheceram nelas o Socialismo, com características despóticas. O que dizer desta questão?

Se examinarmos o papel das revoluções, que começaram recentemente, há pouco mais de 300 anos – três séculos é um tempo curto em termos históricos -, vemos que o sentido lato da palavra é o de violência que destrói o velho para construir o novo. No caso das transformações burguesas, houve a manutenção da exploração do Homem pelo Homem, na passagem do feudalismo para o capitalismo. O comunismo não tem como espalhar “germes” de nova sociabilidade dentro do capitalismo, inclusive, porque tem como objetivo suprimir todas as formas de exploração. No caso do Século XX, de fato, as revoluções não completaram as obras no sentido do socialismo e do comunismo. Com o atraso das forças produtivas naqueles países, as enormes dificuldades impostas pelo cerco das grandes potências, os projetos realizados lá só acabaram com as relações pré-capitalistas, inserindo os países no mercado capitalista mundial, de um modo completamente contraditório e diferente do que na França, nos Estados Unidos etc. Inevitavelmente, um processo político de larga escala leva à violência. No caso da Revolução Russa, cabe lembrar que ela começou com a contra-revolução desencadeando a guerra civil. O processo de tomada do poder pelo Partido Bolchevique, em si, foi incruento. Mesmo no contexto da China, as brutalidades do governo de Tchang Kai-Chek, nos anos 20, e do Imperialismo Japonês nos anos 30, radicalizaram o cenário. O problema da violência decorre da reação. Do ponto de vista da constituição de uma sociedade verdadeiramente comunista, os mecanismos atuais, como a representação política, a coerção estatal etc, são quase inúteis, porque a livre associação dos trabalhadores é que será a categoria fundante. O dinheiro parará de comandar. A transformação da Natureza se dará de outro modo. Houve na antiga URSS, como nos outros países, um atalho para desenvolver as forças produtivas, sem modificar as relações de produção, e por isto não ocorreu a superação do capitalismo. Considero que, se houver “a crítica das armas”, será para destruir o velho, e não construir o novo. Se houver violência, nesta última etapa, não haverá construção do comunismo.



Parece que aí caímos em um problema crucial. Se o socialismo, ou qualquer regime que pretender superar o capitalismo, quiser triunfar, precisará criar formas de sociabilidade mais elevadas. E neste processo, uma das idéias mais contestadas é a da extinção do Estado. As classes trabalhadoras não necessitariam utilizar a especialização do Saber a seu favor? Isto não exigiria trabalhar com um conjunto de instituições de maior complexidade voltadas para a coletividade, e que, portanto, teria que contar com funcionários especializados? Por outro lado, muitos pensadores, também no campo da esquerda, defendem que o mercado deve ser uma mediação utilizada em um sistema superior ao que hoje conhecemos. Eu recordo, por exemplo, uma entrevista do historiador Jacob Gorender, onde explica algumas propostas de seu novo livro, que não por acaso se chama “Marxismo sem Utopia”. Este intelectual brasileiro, aliás, hoje considera a classe operária ontologicamente, essencialmente, reformista e não revolucionária.

Quanto a este último aspecto, penso haver por trás dele uma concepção filosófica de que a essência humana é imutável. Veja: a catástrofe ecológica tem a ver com indivíduos intrinsecamente egoístas, não todos os indivíduos. O Homem não é um poço infinito de necessidades insaciáveis. A essência do Ser Humano se constrói historicamente. As classes escolhem entre várias possibilidades, de acordo com uma série de condições. Quanto ao Estado, considero que ele não pode ser pensado como hoje é. Se nos limitarmos ao que existe, não há dúvidas de que o Estado capitalista foi o mais eficiente até hoje para gerenciar os recursos coletivos. A mim parece que um dos problemas das proposições de Gorender e outros intelectuais é que partem do princípio de que a União Soviética e outras sociedades pós-revolucionárias eram socialistas. Quando a História demonstrou que descobriram outra via de desenvolvimento do capitalismo. Talvez se diga isso daqui a 60, 70 anos, examinando este momento em que se integraram plenamente à ordem global e os antecedentes do período. Para a humanidade, um sistema em que o controle das pessoas e a administração das coisas sejam reduzidos ao essencial vai liberar grandes recursos. A transição com base no Estado não dá saída teórica nem prática para estes dilemas. Não dá para substituir receitas prontas por outras.

Entretanto, a classe operária não é maioria nas sociedades minimamente desenvolvidas hoje. Mesmo no Brasil, as parcelas majoritárias da população já se situariam na classe média. Se os direitos humanos devem ser tomados como valores universais por toda a esquerda, retoma-se o problema da violência, como imposição de uma forma de pensar para o restante da sociedade. Não surpreende que pessoas com trajetória reconhecida entre os socialistas e comunistas do Brasil defendam hoje a conquista daqueles direitos como a verdadeira utopia a ser conquistada. Porque se para a degeneração dos Estados Pós-Revolucionários contribuíram, digamos, as condições objetivas, também esteve presente o fator subjetivo do Partido de Vanguarda como “portador da verdade e da luz”. E se só ele tinha o conhecimento dos parâmetros necessários para construir a nova ordem, concluiu-se que toda a liberdade de expressão fora dos seus limites orgânicos merecia a supressão. Existe, por outro lado, a descoberta recente das idéias do intelectual italiano Antonio Gramsci. A luta pela hegemonia socialista, no sentido dos princípios importantes para as classes trabalhadoras ocuparem a primazia, delinearem a direção ideológica, política e moral da sociedade, consistiria em um processo de longo prazo. No limite, poderia haver a transição pacífica para o novo. Como se situar diante desta problemática?



Só se um processo revolucionário, em sua essência, for cotidiano, por um período de décadas. Porém, veja que mesmo recorrendo a Gramsci, não se deixa de imaginar que um grupo de iluminados pode conduzir a classe operária e seus aliados, entre os trabalhadores assalariados, a algum lugar. Repito que não podemos hoje pensar em receitas prontas. Para tirar a humanidade da barbárie, talvez a violência seja necessária, mas somente para destruir o velho. A questão dos direitos humanos é importantíssima. A luta por eles é fundamental. Analisemos, por exemplo, a questão da tortura. Há uma obra de um historiador iraniano, com pesquisa rigorosa, em termos de documentação – são mais de duzentas páginas com fontes utilizadas para comprovar os casos -, na qual ele demonstra (Pega o livro, com edição em inglês, “Torture and Democracy”, deDarius Rejali) que os EUA, a Inglaterra e a França, conhecidos como nações altamente democráticas, foram os países que mais desenvolveram torturas no Século XX. Nos anos 50 e 60, quando a Convenção dos Direitos Humanos já estava em vigor, torturavam de diferentes formas. A pergunta é: como a democracia pode existir com a tortura? E mais, somente com ela? O pesquisador aponta, inclusive, que há mecanismos de controle cotidianos dos cidadãos muito semelhantes a ela nestes países. Que ética é possível em uma sociedade que, com todos os avanços, segue governada pelo dinheiro, pela exploração do Homem pelo Homem? Os direitos humanos no comunismo serão naturais como respirar. A sociabilidade extinguirá a tortura, a prisão e a guerra. No capitalismo, pelas diferentes maneiras de imposição dos interesses dominantes, os direitos humanos não são atingíveis. No comunismo, a naturalidade deles fará com que não precisem ser lembrados ou citados. As crianças verão nos museus o dinheiro e acharão graça daquele objeto ter nos governado. Reforço o que já disse: isto não significa que a luta pelos direitos humanos não seja fundamental, mas eles só existirão plenamente quando o Estado e o Direito forem superados.

(Confira, nos próximos dias, a segunda parte da entrevista com o professor Sérgio Lessa.)