|

entrevista
|
|
Por
Marcelo Dorneles Coelho
Na primeira parte da entrevista com o professor de Filosofia
da Universidade Federal de Alagoas e teórico da Revista
Crítica Marxista, abordou-se a problemática
do Socialismo e do Comunismo, as possibilidades de perecimento
do Estado, enquanto conjunto de aparatos repressivos, e o
risco da barbárie. A seguir, o intelectual paulista
comenta a crise econômica mundial, bem como a trajetória
percorrida e possível do proletariado no Brasil.

Comente os antecedentes da crise.
Esta crise é o desdobramento da lei geral de acumulação
capitalista, apontada por Marx em “O Capital”
– riqueza crescente, ou, abundância de um lado,
miséria, ou, carência de outro. Trata-se da própria
essência do modo de produção capitalista,
com suas contradições. Há um momento
em que a burguesia decide abandonar a combinação
de Social-Democracia nos países centrais e ditadura
das multinacionais na periferia. O neoliberalismo se fortalece
com o fato de que as grandes economias começaram a
apresentar sucessivos déficits. A derrota no Vietnã
impediria os Estados Unidos (em meados da década de
70) de se voltar militarmente para o Oriente Médio.
A estratégia passou a ser “queimar” a riqueza
acumulada na forma de propriedade estatal. Aquele começo
da crise não foi acompanhado pela luta operária
entre as décadas de 70 e 80. Os gestores capitalistas
então realizaram uma administração muito
competente. A derrota dos portuários na Inglaterra,
depois de uma greve longa, marca o fim de uma alternativa.
O consumo da classe média e de setores operários
passa a contar menos, e a concentração de renda
adquire um peso muito maior nos países avançados.
Em Nova York, ela se compara a do Brasil. Então, a
reprodução do capital chega a um ponto em que
só restou incrementar a sua dimensão fictícia.
E aí de bolha em bolha, chega-se neste cenário.

E
quais são os desdobramentos possíveis?
Isto é difícil de responder. No curto prazo,
um ano, um ano e meio, veremos depressão e diminuição
do comércio internacional, com todas as conseqüências,
(desemprego, violência etc) mas a agudeza do primeiro
momento deixou de existir, graças à promessa
de investimentos, ainda que o capital para este procedimento
não exista. Nos Estados Unidos, os primeiros passos
da Administração Obama indicam gastos menores
com o complexo industrial-militar, uma medida sensata. Há
um processo de criar um clima favorável à administração
da crise. A contradição fundamental, entretanto,
permanece: diminuição do mercado de consumo,
quantitativamente, acentuando a exclusão de setores
no Leste Europeu, na América e na Ásia, com
abundância crescente na produção. Não
se pode fixar um prazo para que as providências comecem
a gerar efeitos. Nem o Banco Central Norte-Americano tem esta
certeza. A crise pode se agravar. Se tiverem que imprimir
dólares, não está descartada uma estagflação,
ou seja, uma estagnação com inflação
alta. Este é o pior dos pesadelos. Cabe lembrar que
o juro já está negativo, quase, nos países
centrais.
E
a América do Sul e o Brasil diante disto?
Surgida a possibilidade de alguma ruptura no sistema, podem
aumentar as pressões, com greves operárias etc.
Agora, não há muita coisa diferente a fazer
por parte de quem comanda. No caso da Venezuela, se o Governo
Lula se posicionasse mais à esquerda, haveria estímulo
para uma nacionalização da economia mais ampla,
por exemplo. Mesmo alternativas como a boliviana e a venezuelana
não têm condições de “inspirar”
uma virada. Qualquer reação das classes trabalhadoras
precisa ser internacional. Na América do Sul, há
contradições com o movimento operário,
pela centralização política, presente
no caso venezuelano.

O
proletariado brasileiro é o mais forte da América
do Sul. Pesquisas de opinião parecem apontar que apóia
o Governo Lula. Há condições para que
evolua à esquerda?
A Social-Democracia conquistou o Proletariado Brasileiro nas
greves do ABC Paulista, entre os anos 70 e 80. E a verdade
é que a densidade teórica e ideológica
desenvolvida ao longo de décadas se encontra em patamar
muito débil. Não houve sequer a experiência
política de uma greve nacional bem sucedida, por exemplo.
Esta base operária, inclusive, se aproximou do neoliberalismo.
Talvez, para ela guinar à esquerda, politicamente,
leve uma geração. Pode ser que a crise proporcione
a ela adquirir outra consciência histórica em
semanas ou meses. O que normalmente só poderia acontecer
em anos. É uma possibilidade do processo, mas na conjuntura
não vejo indícios que apontem neste sentido.

|