Sérgio Lessa - parte 2

“A Social-Democracia conquistou o operariado nas Greves do ABC”


entrevista

 

Por Marcelo Dorneles Coelho

Na primeira parte da entrevista com o professor de Filosofia da Universidade Federal de Alagoas e teórico da Revista Crítica Marxista, abordou-se a problemática do Socialismo e do Comunismo, as possibilidades de perecimento do Estado, enquanto conjunto de aparatos repressivos, e o risco da barbárie. A seguir, o intelectual paulista comenta a crise econômica mundial, bem como a trajetória percorrida e possível do proletariado no Brasil.



Comente os antecedentes da crise.

Esta crise é o desdobramento da lei geral de acumulação capitalista, apontada por Marx em “O Capital” – riqueza crescente, ou, abundância de um lado, miséria, ou, carência de outro. Trata-se da própria essência do modo de produção capitalista, com suas contradições. Há um momento em que a burguesia decide abandonar a combinação de Social-Democracia nos países centrais e ditadura das multinacionais na periferia. O neoliberalismo se fortalece com o fato de que as grandes economias começaram a apresentar sucessivos déficits. A derrota no Vietnã impediria os Estados Unidos (em meados da década de 70) de se voltar militarmente para o Oriente Médio. A estratégia passou a ser “queimar” a riqueza acumulada na forma de propriedade estatal. Aquele começo da crise não foi acompanhado pela luta operária entre as décadas de 70 e 80. Os gestores capitalistas então realizaram uma administração muito competente. A derrota dos portuários na Inglaterra, depois de uma greve longa, marca o fim de uma alternativa. O consumo da classe média e de setores operários passa a contar menos, e a concentração de renda adquire um peso muito maior nos países avançados. Em Nova York, ela se compara a do Brasil. Então, a reprodução do capital chega a um ponto em que só restou incrementar a sua dimensão fictícia. E aí de bolha em bolha, chega-se neste cenário.

E quais são os desdobramentos possíveis?

Isto é difícil de responder. No curto prazo, um ano, um ano e meio, veremos depressão e diminuição do comércio internacional, com todas as conseqüências, (desemprego, violência etc) mas a agudeza do primeiro momento deixou de existir, graças à promessa de investimentos, ainda que o capital para este procedimento não exista. Nos Estados Unidos, os primeiros passos da Administração Obama indicam gastos menores com o complexo industrial-militar, uma medida sensata. Há um processo de criar um clima favorável à administração da crise. A contradição fundamental, entretanto, permanece: diminuição do mercado de consumo, quantitativamente, acentuando a exclusão de setores no Leste Europeu, na América e na Ásia, com abundância crescente na produção. Não se pode fixar um prazo para que as providências comecem a gerar efeitos. Nem o Banco Central Norte-Americano tem esta certeza. A crise pode se agravar. Se tiverem que imprimir dólares, não está descartada uma estagflação, ou seja, uma estagnação com inflação alta. Este é o pior dos pesadelos. Cabe lembrar que o juro já está negativo, quase, nos países centrais.

E a América do Sul e o Brasil diante disto?

Surgida a possibilidade de alguma ruptura no sistema, podem aumentar as pressões, com greves operárias etc. Agora, não há muita coisa diferente a fazer por parte de quem comanda. No caso da Venezuela, se o Governo Lula se posicionasse mais à esquerda, haveria estímulo para uma nacionalização da economia mais ampla, por exemplo. Mesmo alternativas como a boliviana e a venezuelana não têm condições de “inspirar” uma virada. Qualquer reação das classes trabalhadoras precisa ser internacional. Na América do Sul, há contradições com o movimento operário, pela centralização política, presente no caso venezuelano.

O proletariado brasileiro é o mais forte da América do Sul. Pesquisas de opinião parecem apontar que apóia o Governo Lula. Há condições para que evolua à esquerda?

A Social-Democracia conquistou o Proletariado Brasileiro nas greves do ABC Paulista, entre os anos 70 e 80. E a verdade é que a densidade teórica e ideológica desenvolvida ao longo de décadas se encontra em patamar muito débil. Não houve sequer a experiência política de uma greve nacional bem sucedida, por exemplo. Esta base operária, inclusive, se aproximou do neoliberalismo. Talvez, para ela guinar à esquerda, politicamente, leve uma geração. Pode ser que a crise proporcione a ela adquirir outra consciência histórica em semanas ou meses. O que normalmente só poderia acontecer em anos. É uma possibilidade do processo, mas na conjuntura não vejo indícios que apontem neste sentido.