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Por Marcelo D. Coelho
O
professor e coordenador do Laboratório de Políticas
de Comunicação, um grupo de pesquisa, da UNB,
Murilo Ramos, esteve recentemente em Porto Alegre, onde proferiu
palestra na Faculdade de Biblioteconomia e Comunicação
da UFRGS e participou da banca que examinou a dissertação
de mestrado do jornalista James Görgen. Com Mestrado
e Doutorado na área, que concluiu na Universidade
de Missouri, Estados Unidos, Ramos fez considerações
importantes sobre a realidade do sistema, no Brasil. Para
ele, o país não mais pode ter um prazo de outorga
estabelecido constitucionalmente, pois “trata-se de
um instrumento de política pública”.
Ficamos, então, diante de um universo com o mínimo
de controle regulatório, mas com o máximo de
segurança jurídica para as empresas. “Com
a Radiodifusão no panorama atual, não se presta
o serviço como público”, explica o pesquisador,
que julga fundamentais estas provocações nos
Fóruns Pré-Conferência Nacional de Comunicação.
Na
entrevista abaixo, o professor também demonstra
otimismo com o acúmulo teórico e político
dos movimentos sociais e das universidades para o debate
com as forças de mercado e especula, não sem
base real, sobre o fim da chamada “Tevê Generalista”.
O
senhor afirmou considerar que existe hoje, na comparação
com o período em que se preparou a Constituição
de 1988, um acúmulo teórico e político
importante na Academia e nos movimentos sociais para as discussões
na Conferência Nacional de Comunicação. É possível
acreditar em avanços no sentido de uma regulamentação
democrática do setor no país?
Sim. É possível que ao logo do processo de
preparação da Conferência, já em
curso há três anos, exista seguramente um debate
no campo das idéias quanto ao avanço das políticas
de comunicação. Esta discussão tem grande
riqueza, e os movimentos sociais e a academia possuem elaborações
qualificadas. A luta pela democratização já vem
de décadas. As propostas concretas vão nascer
a partir deste debate. E passam por alterações
constitucionais.
Então, como a sociedade poderia perceber estes avanços,
estes desdobramentos?
Estas
propostas vão inserir dispositivos que tornam
a regulamentação necessária, ou, definir
aqueles que devem ser retirados do arcabouço jurídico.
O prazo das outorgas de concessão de rádio
e tevê, para citar um exemplo, é um absurdo
jurídico. Não cabe na Constituição.
Todo o intricado processo de outorgas, com passagem pelo
Congresso Nacional, aval da Justiça, precisa ser rediscutido.
Como resultante disto, terá que se debater uma nova
lei para a Comunicação Eletrônica, com ênfase
em Rádio e Tevê.
As
rádios comunitárias têm
interesse nestas novas regras.
Exato.
A discussão da nova lei trará em seu
bojo o novo modo de regulação estatal, um novo órgão,
um conselho ou uma agência reguladora, com discussão
franca da radiodifusão comunitária, pública.
Daquilo que deve caracterizá-las. O grande desafio
na Conferência será ordenar as temáticas,
porque há muitas demandas reprimidas.
E
como se comportará o Governo Lula?
Eu
não acredito que o governo cumpra um papel que
não seja o de mediação. Não que
ele se comporte passivamente, mas não vai se aliar
automaticamente nem com as forças de mercado – as
empresas – e nem aos movimentos sociais.
Em
sua palestra na UFRGS, o senhor afirmou que não
se pode descartar um cenário no qual as multiprogramações,
com a consolidação da tecnologia digital, levem
ao fim da Tevê Aberta Generalista no Brasil. Fale mais
sobre isso.
Eis
um ponto que surgirá nas discussões. Há fragmentação
cada vez maior da produção e distribuição
de programações. Com a Internet e seus recursos
técnicos, por exemplo, o twiter, há uma hiperfragmentação
de informações, com redes sociais, ou empresas,
criando sistemas para vender, o que é um pólo
do processo. A TVE do Rio Grande do Sul, para citar um caso,
com uma perspectiva humanitária, cidadã, num
cenário de acesso individualizado à televisão,
pode ser tensionada, se não tiver condições
de competir. E a emissora comercial também precisa
se repensar. A Record, a Globo, sabem que seu modelo de negócios
vai mudar radicalmente. Como a programação
passará a ser financiada? Como as redes preservarão
o faturamento, sabendo que não contarão com
uma audiência tão ampla? As transmissões
móveis são alternativas, mas as transformações
estruturais serão muito significativas, transcendendo
este processo. Isso pra não falar nos jornais. Na
França, se pensa no que já se faz na região
da Escandinávia: o subsídio estatal para os
periódicos impressos.
Como
analisa a Tevê Brasil do Governo Federal?
A
TV Brasil tem uma inspiração. Em abril de
1986, houve um encontro preparatório de jornalistas,
onde falei sobre a Tevê Pública Norte-Americana,
a PBC. A criação da Empresa Brasileira de Comunicação,
em si, é um fato alvissareiro. Não se inicia
um processo como esse sem dificuldades. Uma estrutura historicamente
oficial como a Radiobrás, “casada” com
a TVE do Rio, outras emissoras estaduais se somando, pode
se contrapor ao peso avassalador das emissoras comerciais.
Na Inglaterra, a BBC é hegemônica. Nos Estados
Unidos, a PBC reúne emissoras universitárias,
estaduais, numa forma cooperativa, com diretrizes educacionais,
cidadãs. A Tevê Brasil não pode se constituir
numa espécie de Rede Globo, com afiliações
etc. As autonomias devem ser preservadas. Agora, se o processo
fica partidarizado, não importa por qual lado, há um
prejuízo total. Se o PSDB e o PT, em governos diferentes,
julgam que não podem conversar, estamos diante de
um erro grave.
E
como superar a tutela governamental nas tevês que
deveriam ser públicas, nos estados?
Todos
sabemos o que precisa ser feito. Mesmo a TV Cultura, em
São Paulo, tomada como referência, ainda é muito
permeável à influência governamental.
Na Rede Pública norte-americana, um terço dos
recursos vem do tesouro, outro de apoios culturais (sem comerciais)
e uma terça parte deveria ser assegurada por doações
comunitárias. Era o que se buscava, mas no fundo a
maior parte das verbas, tradicionalmente, veio do Estado.
Não há como fugir do financiamento público.
Para além dos colegiados com representação
da sociedade civil, os conselhos de redação,
estruturas intermediárias, entre a direção
e a linha de frente, poderiam fazer com que o controle político
via orçamento diminuísse. Haveria que modificar
o Estatuto, dando estabilidade a diretores profissionais
independentes. Nos EUA, os orçamentos e mandatos não
coincidem com mandatos presidenciais. Claro que a tentação
de governos é permanente, no sentido de direcionar
informações. Tem uma fatia grande do financiamento
da PBC que vem do Fundo das Telecomunicações,
ou seja, existe uma dimensão estatal incontornável.
O foco é: quem paga é a sociedade, não
o governo. Todo mundo acha que possui a melhor das intenções,
mas sem resolver os problemas da gestão e de financiamento,
nenhum avanço permanente se consolida.

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