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Em
entrevista à Carta Maior, a economista Maria da Conceição
Tavares fala sobre a crise. “As autoridades monetárias
de todo o mundo têm que intervir rápido, antes
que se forme a pior das bolhas, a de pânico, que é
essa que está em curso", adverte. Para ela, o
Brasil tem algumas vantagens importantes para enfrentar a
crise, entre elas a existência de três fortes
bancos estatais e pelo menos três grandes empresas públicas
de peso, salvas do ciclo de privatizações desfechado
pelo governo anterior. Isso dá ao governo instrumentos
para intervir fortemente no mercado.
Redação
- Carta Maior
Decana
dos economistas brasileiros, uma espécie de banco de
reflexão de última instância ao qual se
socorrem economistas quando o horizonte do mercado exibe mais
interrogações que cifrões, a professora
Maria da Conceição Tavares, 78 anos, quase não
dormiu na noite de terça para quarta-feira. E voltou
a fumar, muito, o que não deveria, por orientação
médica. Motivo: os abalos seguidos nos alicerces do
sistema capitalista norte-americano e seus efeitos sísmicos
no mundo, inclusive no Brasil.
Conhecida
pela rara capacidade de equilibrar razão e paixão
– não necessariamente nessa ordem - , costuradas
em frases contundentes e metáforas esmagadoras sobre
os desafios da economia e do desenvolvimento, Conceição
falou à Carta Maior sobre a crise em curso no sistema
capitalista. A voz rouca e o cansaço de uma noite insone
não impedirem que reafirmasse a reputação
construída a partir de uma lucidez corajosa, que mesmo
os adversários respeitam - e temem.
A
seguir trechos de sua conversa com a Carta Maior:
“A
questão central é que o crédito está
congelado: entupiu o sistema circulatório do capitalismo.
Sem crédito uma economia capitalista não funciona.
Agora é torcer para que o entupimento não se
transforme em trombose”.
“O
Martin Wolf foi lento (NR: editor do Financial Times, conhecido
pelas convicções neoliberais que, em artigo
transcrito hoje pelos jornais brasileiros, pede um resgate
estatal urgente, e amplo, do sistema bancário). Assim
como ele, as autoridades norte-americanas também foram
lentas. Demasiado lentas. Vão dizer que não
sabiam o tamanho do estrago? Ignoravam a gravidade da bolha
especulativa feita de hipotecas podres e derivativos, cuja
soma vai além de US$ 6 trilhões, sem falar do
resto? Como não sabiam? Eles são gente de Wall
Street. São escolhidos entre os “piranhões”
do mercado. Não podem dizer que não sabiam.
O problema não é esse. O problema é que
eles acreditam no mercado. Essa é a tragédia.
Esperaram até o limite da irresponsabilidade para intervir.
Aí perderam o controle e estão diante do pânico:
ninguém empresta a ninguém, entupiu o sistema
circulatório do capitalismo”.
“Agora
tem de fazer isso mesmo, estatizar parcelas abrangentes do
sistema financeiro; implantar safenas. Não é
isso que estão fazendo? O FED já começou
a descontar commercial papers direto no mercado. Tem que intervir
largamente, e rápido. Eles são o centro da crise
mundial. Mas um pânico financeiro não respeita
fronteiras”.
“O
problema do Brasil não são os fundamentos, que
no geral são bons. Mas aqui também foram feitas
operações especulativas por grandes empresas
exportadoras. Ou será que a Sadia e a Aracruz agiram
solitariamente? Não agiram. Não foram exceções.
Foram irresponsáveis. Não se contentaram em
contratar hedge (seguro) contra a variação cambial.
Quiseram apostar quantias fantásticas na variação
futura do câmbio e apostaram errado. Jogaram na valorização
do Real o que é insólito, diga-se. Como exportadores
deveriam engrossar as vozes que pediam maior competitividade
da moeda brasileira. Mas apostaram. erraram e isso abriu rombos
que a Sadia, felizmente, já reconheceu no seu balanço.
Digo felizmente porque não pode pairar dúvidas
no mercado sobre o tamanho e a abrangência desses prejuízos
ou isso gera incerteza e a desconfiança bate nas taxas
do dólar.”
“O
Banco Central tem o registro, sabe quem fez operações
de hedge, mas não sabe quem derivou daí a segunda
operação, especulativa. Se soubesse deveria
intervir, sanar rapidamente o problema para evitar essa incerteza.
Mas o BC, infelizmente, não tem os controles de operações
que são totalmente desreguladas. O jeito então
é intervir direto no mercado. Impedir a disparada do
câmbio que dificulta a vida dos exportadores e importadores.
A volatilidade impede o fechamento de contratos de exportação
e importação; isso desequilibra a oferta de
dólares e empurra ainda mais as cotações.
O BC deve intervir direto vendendo dólares (NR: foi
o que ocorreu depois que Conceição falou a CM).
Não adianta mais fazer swaps (contratos futuros), precisa
vencer moeda mesmo. Moeda das nossas reservas – fazer
o quê? Note que não há fuga de capitais,
não é como no passado. Se fosse fuga de capitais,
a simples existência de reservas de US$ 207 bilhões
controlaria. O diabo não é fuga, nem inflação,
nem recessão... É irresponsabilidade, exportadores-
especuladores”.
“As
autoridades monetárias de todo o mundo têm que
intervir rápido, antes que se forme a pior das bolhas,
a de pânico, que é essa que está em curso.
É preciso entender, porém, que a crise atual
não é semelhante a de 1929. Claro, há
elementos comuns, como o derretimento das ações
e a fuga de ativos podres. Mas o dramático que a distingue
daquele episódio dos anos 30 é o congelamento
do crédito, fruto da desconfiança generalizada
sobre o que vale o quê numa economia papeleira. A aversão
ao risco gera a fuga dos ativos, todos querem se desfazer
deles ao mesmo tempo e os bancos não emprestam a ninguém.
Entope o sistema circulatório capitalista. Na crise
de 1929 o crédito também refluiu mas isso se
deu na esteira da desaceleração da atividade
econômica, que foi brutal, caiu mais de 25% nos EUA.
A recessão então é que diminuiu a demanda
por financiamento. Hoje não. A economia não
está em recessão – exceto talvez no Japão
e engatinha na Europa. Mas é justamente esse paradoxo
que mata o sistema: não existe crédito para
a atividade econômica em curso. Pára tudo –e
de repente: daí o pânico”
“O
Brasil tem algumas vantagens importantes em relação
a outros emergentes. E o governo Lula deverá saber
usá-las. Primeiro, nós não somos exportadores
de petróleo e metais – nesse sentido a crise
pega a Venezuela e o Chile de frente. Vão ter problemas
sérios porque as cotações despencam.
Nós vendemos comida e isso deve se manter em bom nível.
Segundo: temos, graças a Deus, três fortes bancos
estatais, o que dá ao governo instrumentos para intervir
fortemente no mercado. Mais ainda, temos pelo menos três
grandes empresas públicas de peso, um trunfo que conseguimos
salvar do ciclo de privatizações desfechado
pelo governo anterior”.
“O
que é preciso, portanto, é agir com rapidez
e contundência. Desentupir o sistema de crédito.
Por exemplo? O Banco Central deve obrigar os bancos a repassarem
de fato os recursos liberados do compulsório para irrigar
a economia (NR: uma das medidas já tomadas foi a redução
do percentual de recolhimento de depósitos à
vista no BC) . Eles têm que emprestar a quem precisa.
O governo fez a sua parte, deu a cenoura para os grandes bancos
repassarem liquidez. Se eles insistirem em segurar recursos
o governo deve impor uma penalização forte sobre
o volume retido. Já demos a cenoura - se a mula empaca
é hora do stick (o porrete)”.

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